Cultura

14/05/2020 | domtotal.com

As compras com a pandemia

Vamos parar de passar o pano para nossa indigência civilizatória

Fiscais vistoriam supermercado em Salvador
Fiscais vistoriam supermercado em Salvador (Bruno Concha/Secom)

Ricardo Soares*

Aí você espirra e fica apreensivo lembrando de um tempo onde o espirro não assustava. Aí você pega um pacote de café, uma lata de pêssegos, meia dúzia de cenouras e fica pensando que futuro estamos plantando diante de tanto medo e distopia. Aí você pega uma caixa de bombons e sabe que vai ter que banhar ela em álcool para desfrutar de alguma doçura. Aí você pega menos cervejas do que o costume que é pra não ficar lavando garrafa por garrafa o que vai cortar o charme de qualquer pilequinho.

Discorrer aqui sobre as mudanças de hábito diante de tanta tragédia não vai resolver a tragédia mas talvez ajudasse a gente entender porque mesmo diante de tanto susto e medo muitas pessoas não mudam costumes que podem prejudicar a si mesmas e a terceiros. Por que tantos ainda se recusam a usar máscaras? Vão com isso mascarar a realidade? Por que tantos se recusam a ficar em casa?  Por que no supermercado citado acima alguns levam suas crianças deseducadas pra ficarem correndo entre os corredores ao invés de estarem em casa? Por que alguns, piores ainda, organizam manifestações de apoio ao vírus na porta de hospitais? Seria simplista dizer que é porque a humanidade não deu certo. Eu vou um pouco adiante. Uso o termo que começa a ficar em voga que é “negacionismo”. Que estranha conjugação é essa onde diante de tantas evidências tanta gente ainda nega o que está na cara ?

A metáfora das compras acima é uma razoável tradução daquilo que vivemos. Não será a toa que vamos, dia a dia, avançando como uma das nações mais deseducadas em relação a enfrentar a pandemia. Somos agora a exacerbação do que sempre fomos, infelizmente. Um país de falsa cordialidade, um país onde se confunde irreverência com deseducação, indisciplina, um país de folgados mesmo. E, lamentavelmente, não posso dizer que os “folgados” são raras exceções. Vamos parar de passar o pano para nossa indigência civilizatória. Foi justamente ela que nos levou a um estado crítico onde fazer compras num supermercado em plena pandemia se tornou uma atividade perigosa como os soldados da primeira guerra mundial que desviavam das balas e bombas, mas recebiam gás mostarda nas fuças. Que Brasil é esse que antes de duas pragas, Bolsonaro e Covid, nós desconhecíamos?


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*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários



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