Religião

18/05/2020 | domtotal.com

Os animais e a pandemia de Covid-19

A ideia de que os animais existem para servir aos propósitos da humanidade não está em nenhum lugar da bíblia

Um exército de amantes de animais indianos surgiu para alimentar milhões de animais abandonados e com fome pelo isolamento do coronavírus no segundo país mais populoso do mundo
Um exército de amantes de animais indianos surgiu para alimentar milhões de animais abandonados e com fome pelo isolamento do coronavírus no segundo país mais populoso do mundo (Sajjad Hussain and Arun Sankar/ AFP)

Charles C. Camosy/ Serviço de Notícias sobre Religião
NCR

Não deveria surpreender o chamado do papa Francisco, autor da encíclica "Laudato Si", no coração da pandemia da Covid-19, para refletirmos na relação entre os seres humanos e o resto da criação de Deus, que deu terrivelmente errado.

De fato, no foco da pandemia, encontramos uma relação complicada entre animais humanos e não humanos. Das duas principais teorias credíveis sobre a origem do novo coronavírus, uma é que ele se originou em um morcego vendido no mercado úmido perto de Wuhan, na China, e transmitido a humanos que compraram, venderam, comeram ou manipularam esses morcegos.

Outra teoria, mais controversa, é que um trabalhador de um laboratório de alto nível de Wuhan que estudava vírus de morcegos como a Covid-19 se infectou acidentalmente com o vírus e depois o transmitiu a outros seres humanos em seu círculo.

Qualquer uma dessas teorias acaba no mesmo ponto: é claro que os seres humanos temos um relacionamento culposo com os animais e vemos isso agora, com a Covid-19.

Peter Singer, filósofo da Universidade de Princeton, assinalou esses pontos do relacionamento entre o ser humano e os animais desde o início. Ele observou que no mercado de Wuhan, os animais (que incluem filhotes de lobos, cobras, tartarugas, cobaias, ratos, lontras e texugos) vivenciam um "inferno na terra". Essas criaturas sensíveis ficam todas apertadas e "padecem horas de sofrimento e angústia antes de serem brutalmente massacradas" – isto é, mortas na frente daqueles que vão comprá-los e comê-los.

Singer, autor do livro de 1975 Animal liberation, explica que o vício de seres humanos a esses lugares pode ter criado o tipo de ambiente em que a Covid-19 sofreu uma rápida mutação que a tornaria capaz de infectar às células humanas.

A segunda teoria pressupõe uma relação não menos ética com os animais. Se o novo coronavírus veio de pesquisadores que lidam com vírus mortais de morcegos no laboratório de Wuhan, o erro moral é o mesmo. Morcegos e outras criaturas usadas em experimentos de laboratório são reduzidas a objetos, objetos a serem usados ou consumidos e depois descartados.

Pensadores seculares como Singer chegam a essa conclusão com bastante facilidade, mas judeus e cristãos também deveriam. Na Bíblia, os animais são considerados "bons" em si mesmos, sem referência a qualquer relação com os seres humanos. Embora os animais sejam trazidos a Adão para citar seus nomes e os seres humanos tenham domínio sobre todas as criaturas, a ideia de que os animais existem para servir aos propósitos da humanidade não está em nenhum lugar do texto. Deus dá aos seres humanos uma dieta vegetariana para comer. "Eis que vos dou todas as plantas que nascem por toda a terra e produzem sementes, e todas as árvores que dão frutos com sementes: esse será o vosso alimento!" (Gên. 1,29)

Sim, o pecado entra no mundo e estraga a relação que Deus pretendia entre animais humanos e não humanos. (Ambos, tendo sido criados no mesmo dia da criação, contêm o sopro da vida). Mas quando o profeta Isaías insiste em um sinal do Reino para o qual devemos trabalhar, esse sinal inclui cordeiros deitados com leões e bebês nas tocas das cobras. Isaias está sugerindo que restauremos um relacionamento com os animais, mais próximo do que Deus estabeleceu no Éden.

À luz de tudo isso, é interessante que, em 28 de maio, o presidente Donald Trump tenha emitido uma ordem executiva determinando que as instalações que processam a carne de animais para o alimento humano permaneçam abertas, apesar do alto risco para os funcionários das fábricas de carne.

Como cultura, estamos tão viciados em tratar os animais dessa maneira, ou seja, estamos dispostos a seguir vendo os contínuos surtos de Covid-19 apenas como parte de uma dinâmica inevitável na cadeia de consumo de um produto – que vem de uma indústria cujos lucros dependem de práticas revoltantes e condições de vida horríveis para milhões de animais.

Um ecossistema não é um ser consciente. A "Mãe Natureza" não é um objeto. Simplesmente não é verdade que "a Terra", de alguma forma, responda intencionalmente ao nosso comportamento de várias maneiras. Essa abordagem semelhante à Gaia, à ecologia, não tem lugar na fé monoteísta cristã.

Por outro lado, a forma como vivemos em relação com a criação – e especialmente com animais não humanos – está no coração da vivência de um relacionamento florescente com Deus, o próximo e o mundo ecológico ao nosso redor. Não deveria surpreender que as coisas corram mal quando estragamos nosso relacionamento com os animais, entregando-os a uma cultura do descartável que os transforma em objetos produzidos em massa para serem usados como um mero meio para nossos fins.

A epidemia de Covid-19 é apenas o exemplo mais recente desse tipo de decisões. A Sars e a gripe aviária vieram antes do coronavírus – e provavelmente há mais por vir, incluindo "superbactérias" resultantes do uso excessivo de antibióticos em animais de criação industrial.

Nos próximos meses, haverá muitas reuniões para "garantir que algo assim nunca mais aconteça". Todavia, a menos que os seres humanos entrem em um relacionamento adequado com os animais, é quase certo que pandemias semelhantes serão constantes no futuro.

Publicado por NCR


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Tradução: Ramón Lara



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