Religião

15/05/2020 | domtotal.com

Por um antirracismo religioso

Um pensamento antirracista requer que revisemos nossas práticas cotidianas mais simples

O sagrado afro por ora é rechaçado e/ou embranquecido para ser aceito
O sagrado afro por ora é rechaçado e/ou embranquecido para ser aceito (Paula Fróes/GOVBA)

Cassiana Matos de Moura*

As discussões antirracistas têm aumentado consideravelmente nos últimos anos. Ter um posicionamento em prol de uma cultura da diversidade tem se mostrado cada vez mais urgente em discussões nos campos religioso e social.  Mas até que ponto essas discussões tem chegado à prática cotidiana e se encaminhado para além dos discursos de nossos eternos feeds?

Um pensamento antirracista requer que revisemos nossas práticas cotidianas mais simples. É fundamental entender as armadilhas impostas pelas engrenagens sociais, que subalternizam corpos negros e os colocam à margem.

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O processo de marginalização dos corpos negros se encaminha desde a violência física e simbólica sobre estes corpos, até uma violência ao seu imaginário sagrado. O racismo é uma poderosa ferramenta de destruição de corpos e pensamentos que diferem dos categorizados como ideal ou correto, socialmente.

No campo religioso, os mecanismos de poder que cerceiam o que é dito como sagrado, a partir de um saber afrodiaspórico também sofrem com a imposição de um embranquecimento.

A noção de mundo a partir de uma dualidade alicerçada ao pensamento de uma cultura que se acredita hegemônica, que se vê como: branca, cristã, eurocêntrica, racista, conservadora, rígida, patriarcal, versus uma cultura, não branca, não cristã, não eurocêntrica, antirracista, não conservadora, flexível e não patriarcal promove a nossa forma de pensar que perdura por séculos. O que é cristão e branco é correto e divino; o que não o for é incorreto e demoníaco.

É nesta lógica que reforçamos os mecanismos de exclusão social pautados em discursos velados de racismo. 

O sagrado afro por ora é rechaçado e/ou embranquecido para ser aceito. O racismo religioso tem em muito sido o principal mecanismo de poder para dominar e por vezes manter à margem negras e negros em nossa sociedade. Pensar através de uma epistemologia afrodiaspórica, em que se dispensa um Deus branco salvador, em que o pecado não faz sentido algum, e não se pode terceirizar a culpa e acusar que suas más ações são obras do demônio faria com que mecanismo racial de poder se quebrasse.

Ter um pensamento religioso antirracista requer um considerável esforço para além de um discurso midiático propagado pelos feeds eternos. É necessário mudar as mínimas posturas diárias e a maneira de enxergar o outro e tudo que o cerca.


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* Cassiana Matos de Moura é pedagoga, mestre em Ciências da Religião pela PUC Minas, professora, palestrante e livre pensadora sobre cultura antirracista e feminismo. cassianamatos@hotmail.com



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