Religião

15/05/2020 | domtotal.com

N'guzo, n'guzo: religiosidade e espiritualidade dos negros escravizados

As tradições ancestrais dos escravos lhes ofereceram suporte existencial para os sofrimentos vividos

Para Candomblé de Angola não existe diferença entre a vida cotidiana e a religião
Para Candomblé de Angola não existe diferença entre a vida cotidiana e a religião (Setur)

Guaraci M. Santos e Carollina Garcia de Barcelos*

A origem dos africanos trazidos escravizados ao Brasil mudou muito em três séculos, uma vez que ela dependia dos acordos feitos entre a colônia, Portugal e as potências europeias, devido aos interesses cambiantes existentes entre essas. De modo genérico, podemos dizer que os povos da África negra são classificados em dois grandes grupos étnico-linguísticos: os sudaneses e os bantu. Os sudaneses são divididos em duas categorias: oriental e central, que compreendem os núbios, nilóticos e báris, além dos povos do Golfo da Guiné, mais conhecidos como os nagôs e os iorubás. Os bantu, por sua vez, são povos subsaarianos, localizados entre as terras que vão desde a costa do Oceano Atlântico até a costa do Índico, também se estendendo ao sul, até o Cabo da Boa Esperança. Os bantu representaram o mais expressivo contingente de mbundu (negros) feudatários e traficados nos primeiros séculos para as terras brasileiras. Diante disto, podemos nos indagar: qual a importância da religiosidade e espiritualidade desses povos para o suporte existencial e espiritual aos mbundu escravizados nosso país?

A saber, ambos os grupos citados acima são étnica e culturalmente diversos, esses, contudo, tiveram expressiva influência na cultura nacional brasileira, por meio de suas línguas, culinária, artes, música, seus saberes e representações místico-religiosas, sendo essas últimas o berço para a manutenção e divulgação de todas as outras. Visto que é no campo religioso brasileiro, e a partir dele, levando em conta seus grandes desafios enfrentados, como a intolerância religiosa, vivida até os dias de hoje, que as culturas africanas, a grosso modo, desbravam caminhos a fim de preservarem suas identidades de origem, que se manifestam em suas expressões culturais, como por exemplo no maracatu e no samba, e em suas manifestações religiosas, de tradição bantu, dentre as quais podemos citar os Candomblés de Angola.

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Para esta tradição, não existe diferença entre a vida cotidiana e a religião: uma está diretamente imbricada na outra. Os cultos aos seus antepassados são um fazer contínuo entre os adeptos e seus canjerês (comunidades) religiosos, seja por musambu (reza), muimbu (canção), ou ukudla (oferendas). Os mbundu bantu se referenciam cotidianamente em seus antecedentes e com esses têm uma vida compartilhada no kuriá (comer), ao se levantar pela manhã e ao ir dormir à noite.  Uma vez que, para eles, Deus age, e deve agir, por meio dos seres humanos, a religião deve procurar propiciar a esses um mínimo de bem-estar possível para suas existências. Neste sentido, esses povos buscam por meio de seus afazeres “religiosos”, ou sua religiosidade, um equilíbrio entre a fé em Deus e a fé nos seres humanos, algo indispensável para esses.

A religiosidade africana de tradição bantu é particular. Contudo, não se constitui como sendo independente ou egoísta, mas, por outro lado, manifesta-se de forma expansiva, visando o bem-estar comunitário. O muntu (ser humano) e o canjerê (a comunidade) formalizam a religiosidade e a experiência religiosa, expressando-a de forma participativa e integrativa. Nessa tradição, entende-se que não há como os muntu se manterem vivos sem o canjerê, pois um justifica a existência do outro, mutuamente. É somente no canjerê que se acredita ser possível, por meio da prática devocional, se constituir humanamente. Neste sentido, o canjerê funciona como ordenador da existência desses povos, visto que preza pela simplicidade dos rituais coletivos e penaliza de forma precisa o blasfemador e o separatista. Qualquer ato de tal sorte gera uma kizila (tabu), uma interdição religiosa que só será resolvida ou suspensa com o aval dos n’ganga (curandeiros). Logo, os povos subsaarianos bantu, detém a crença numa existência factual, promovida por uma vivência místico-religiosa ao mesmo tempo pessoal e comunitária.

Essa crença propicia uma infindável espiritualidade, fundamental e mística, que requer uma conjunção com a transcendência. Ou seja, trata-se da busca por uma fidedigna religiosidade, da qual o mandamento primário, de onde provém a base ética e expressão cultural, impele a uma contínua e elaborada percepção da participação do mundo invisível e das necessidades dos seres que nele habitam e que se mostram a todo momento conectados com a vida humana. Como efeito disso, cria-se um dever moral e uma presteza em direção à prática mística (magia), uma vez que esta ultrapassa permanentemente a tangibilidade dos seres, sua real proporção efetiva e sua densa materialidade, mesmo considerando que os povos bantu acreditam que A realização deste zelo e a sua dedicação promovem o próprio bem-estar material e social. Para este grupo étnico, a natureza de sua espiritualidade reside em uma convicção tri-partidária, que concebe os seres humanos ao mesmo tempo como representação, exemplo e parte do planeta, por meio do qual, em sua existência cíclica, possa se reconhecer como significativo e absolutamente comprometido.

Para esses povos há o n’guzo (força vital/poder), o qual é constituinte de todos os seres nele“[...] se fundamenta o misticismo, a mais profunda dimensão da espiritualidade banto” (ALTUNA, 1985, p. 378). Esse elemento é primordial para os povos bantu, é o fundamento a partir do qual sua cosmovisão é constituída, ou seja, seu entendimento, sua existência e concepção de mundo. Uma força propulsora que move o universo e tudo o que nele se encontra. Energia que constitui não só os elementos presentes no mundo físico, mas também aqueles do mundo espiritual, de maneira concomitante e em contínua inter-relação. Os seres humanos são a força em formação, e sua fonte é N’zambiapungo (Deus), um ser supremo que vitaliza o mundo dos swikwenbu (espíritos), ancestrais e tiguluve (antepassados) fundadores dos primeiros clãs, assim como o mundo dos vivos - anciões, pais, filhos, animais e vegetais e minerais. Mundos estes que estão em constante e direta inter-relação, de forma em que a vida seja compreendida como cíclica, concepção que permite a ideia de que os mortos se perpetuam nos seus descendentes vivos. Para os Bantu, vive-se morrendo e morre-se vivendo (ALTUNA, 1985). Logo, a experiência é berço para o nascimento e o desenvolvimento do sentimento/força religiosa pessoal oriunda de N’zambiapungo, o n’gunzo, o qual, ao penetrar os muntu, lhes conferem uma faculdade de ânimo e um significado singular para a sua existência cotidiana e comunitária. O n’guzo tem como objetivo fortalecer a vida, sua importância é central na vida dos povos bantu. Estes se empenham para estarem juntos ou servidos por esta força. Quando as pessoas procuram um n’ganga, em sua grande maioria, elas desejam ampliar o seu contato com esta força vital ou para solicitar que seja diminuído o fluxo dessa força provinda de seus desafetos vivos ou mortos.

As influências dos n’guzos na vida do muntu expressam correspondências ônticas e ontológicas entre essas forças. Ônticas, visto a diversidade e os sentidos dessas forças, o que dificulta as relações do muntu com as mesmas. Como por exemplo a posição hierárquica do mais novo ou do mais velho no canjerê, determina a intensidade e a frequência de como ele será afetado. E ontológicas, no sentido de que o conjunto dessas mesmas forças as quais o mbundu bantu está exposto vão determinar sua realidade e consequente visão sua mundo, influenciando, assim, seu jeito de ser e de viver.   

Dito isto, entendemos que no Brasil os mbundu abika (escravizados), com todo o sofrimento por eles vivido, como por exemplo o racismo étnico-religioso ou mesmo o banzo (nostalgia) sentimento mortal que os acometia no período colonial, só podiam contar enquanto suporte existencial e espiritual com os saberes de suas tradições. Contudo, para os mbundu, os infortúnios e os desequilíbrios na vida não são fatores desafiantes os convocam à reorganização material e espiritual. Visto que, não consideram a impossibilidade de concretização das coisas, por mais difíceis que elas sejam. Contra o kiaba (mal) se valem do princípio de que da alma humana emana uma serenidade, alimentada pela crença na continuidade da existência e no atributo interminável do kiambote (bem), provindo do n’guzo

Um exemplo disto é a criatividade desses povos de se reinventarem no que diz respeito às formas de interações sociais, nas terras brasílicas. Suas vidas comunitárias, que iam desde as senzalas até os quilombos (espaços de opressão e aldeamentos de escravos fugidos) onde se misturavam diversas etnias sem, contudo, caírem na mazunga (desordem) deram origem aos canjerês. Além disso, existiam os batuques, ritmados pelas n’gomas (tambores) agogôs (comes metálicos) caxixis (pequeno chocalho de palha), instrumentos de percussão que, acompanhados pelo kuimba (cantar) e o azuelar (bater palmas), serviam para promover a inter-relação entre os mbundu. Essas expressões criativas os possibilitaram a construção de sentimentos de pertença entre si ou com uma comunidade da qual tenha se tornado membro. Na tradição bantu, a pertença traz essa conotação de se estar em inter-relação existencial, mística-religiosa. Exemplo disso são os nzo (as comunidades de Candomblé de Angola), onde os lugares, as funções e, antes disso, a ancestralidade legitimam as identidades de seus adeptos de forma duplamente solidária. Uma solidariedade vertical, provocada mutualmente entre os antepassados e seus descendentes num víeis de ritualísticas sagradas.  E, outra horizontal, expressa por uma vida participativa, evidenciando um valoroso humanismo. Neste sentido, percebemos que a experiência vivida pelos mbundu africanos e seus descendentes se dá de maneira individual, mas, também, comunitária.

A ideia de que o todo está em cada parte, assim como cada parte compõe o todo é a chave para entender o suporte existencial e espiritual dos mbundu escravizados no Brasil. Trata-se de um entendimento da vida participativa, solidária, sob a perspectiva de se viver em sintonia tonificante com os canais de n’guzo. O legado dos antepassados é um elemento essencial e comum no cotidiano dos mdundu, também na atualidade. Pois, é a partir dele que seus herdeiros constroem suas relações sociais, sempre na perspectiva de que existe um legado étnico e cultural a ser valorizado. Entendimento que diante os pressupostos religiosos e espirituais mbundu que configuram, existencialmente, o corolário dos valores necessários à vida, convoca os afrodescendentes e, também aos afro-religiosos, à responsabilidade para consigo e para com o outro (s).    

Referências:

ALTUNA, Raul R. de A. CULTURA TRADICIONAL BANTO. Luanda: Secretariado Arquidiocesano de Pastoral, 1985.

LANGA; Adriano: Questões cristãs à religião tradicional africana. Moçambique; Braga: Editorial Franciscana, 1992.


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*Guaraci M. Santos é doutorando em Ciências da Religião-PUC/Minas. Carollina Garcia de Barcelos é graduanda no 7° período em Geografia pela PUC/Minas.

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