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19/05/2020 | domtotal.com

Recursos desumanos: RH para desesperados

Série é sinal de alerta para tempos ainda mais duros pelos quais passaremos

Recursos Desumanos é minissérie de 6 episódios em cartaz na Netflix
Recursos Desumanos é minissérie de 6 episódios em cartaz na Netflix (Divulgação)

Alexis Parrot*

Se hoje padecemos sob a crise do coronavírus, é bom não esquecer que, uma vez controlada a situação, outras crises pré-existentes – agudizadas pela debacle econômica gerada pela pandemia – explodirão globalmente, como a fome, a desigualdade social e o desemprego. Porque disponibilizado neste momento pela Netflix, Recursos desumanos traz também esta reflexão em seu bojo; um sinal de alerta para tempos ainda mais duros pelos quais obrigatoriamente passaremos.

Vítima inapelável desses gênios do marketing contratados para rebatizar produtos estrangeiros em nossa língua pátria, a minissérie francesa chega até nós risivelmente renomeada. O título original, Derrapagens (muito mais sugestivo), perdeu-se totalmente na (má) tradução apenas para dar lugar ao trocadilho infame – pecado copiado da edição brasileira do livro que inspira o programa, de 2015.   

Um executivo de RH, desempregado há seis anos e sem perspectivas de conseguir reposicionar-se no mercado de trabalho por ter ultrapassado a barreira dos 50, vive de bicos e subempregos, lutando para manter o mínimo de dignidade no processo. A deterioração do apartamento em que vive com a mulher (financiado a perder de vista há três décadas e apenas a alguns anos da quitação definitiva) reflete seu estado de espírito e de como andam os alicerces daquela família, corroídos pela revolta e amargura.

A esperança brilha novamente quando o convite para uma seleção de emprego na sua área profissional surge no horizonte. Porém, o que parecia ser o caminho da salvação vai desmoronando rapidamente e uma série de dilemas éticos desafia o personagem. A cada escolha, uma nova reviravolta dramática se impõe, reconfigurando seu caráter e colocando à prova seus princípios. De um lado do campo de batalha, o homem comum; do outro, a voracidade capitalista das grandes corporações.

No papel principal, um impressionante e grave Eric Cantona – cada vez mais parecido com François Cluzet (de Intocáveis), mas em versão rústica. Ao se aposentar dos gramados no auge da carreira, há pouco mais de vinte anos, o ídolo do Manchester United espantou o mundo e decepcionou torcidas ao declarar que havia perdido a paixão pelo futebol. De lá para cá, tem buscado inspiração na arte, principalmente pintando e atuando em filmes.

Entre o ateliê e a tela grande, seu auge ainda é o doce e despretensioso À procura de Eric, de Ken Loach, de 2009 (onde interpreta a si mesmo); mas nem por isso este Recursos desumanos não significa um pênalti bem batido – para honrar seu passado de artilheiro com uma metáfora futebolística.   

Ao encarar com seriedade um personagem completamente diferente dele próprio e da imagem de enfant terrible da época de chuteiras e vestiários (da qual muito ainda se aproveita, interpretando papéis semelhantes em filmes sem importância ou em contratos publicitários), Cantona escalou um importante degrau. Sua construção do desesperado pai de família falido, desconfortável por estar na própria pele até nos raros momentos de alegria, é crível, pungente e se mantém sempre coerente, mesmo com as constantes mudanças de curso obrigadas pela narrativa; esta sim o maior problema da série.       

O que começa como promissor thriller político nos três primeiros episódios, descamba para uma revisitação meia boca de diversos clichês do filme clássico de prisão e se transforma em fraco drama de tribunal. Quando, no desfecho, retoma a origem, muito da força original já tinha ido por água abaixo, graças à extensão exagerada. Sobraram episódios e faltou história para preenchê-los.

A narração do protagonista que pontua o roteiro é completamente dispensável. Relembrando e comentando cada passo do caminho que levou seu personagem até ali em certa altura da narrativa, é a única hora em que Cantona derrapa, beirando a canastrice.

Além disso, enquadrado em close-ups e olhando diretamente para a câmera, o artifício parece um alien enfiado a fórceps em um corpo que não é seu, de tão antiorgânico. É como se estivéssemos assistindo a dois filmes diferentes, um interferindo no outro; uma sensação parecida àquela de quem vai zapeando entre canais.  

Incapaz de neutralizar estas deficiências do roteiro, além de oscilar entre gêneros e estilos, o diretor Ziad Doueriri (merecidamente aclamado por O insulto) perdeu uma boa chance de honrar à altura a tradição francesa do cinema político, ao invés de apenas evocá-la.      

Quando começamos a assistir à série, é impossível não pensar em O corte, de Costa-Gavras, ou em O valor de um homem, de Stéphane Brizé. Trata-se de duas obras recentes que trabalham as exatas mesmas questões desenvolvidas em Recursos desumanos, porém, com objetivos críticos e estéticos mais claros e sem concessão nenhuma à pulp fiction

(RECURSOS DESUMANOS – Minissérie em 6 episódios em cartaz na Netflix.)

O início de uma nova revolução francesa?

O ator Vincent Lindon, de filmes com declarado teor político como Bem-vindo (sobre a questão dos refugiados na cidade portuária de Calais), Em guerra (onde vive um líder sindical em meio a uma violenta greve de operários) e o já citado O valor de um homem (pelo qual foi premiado com a palma de melhor ator em Cannes) está sacudindo a França – e tudo por causa de um vídeo veiculado nas redes sociais do Mediapart, um site independente de notícias.

No post, Lindon lê uma tocante e corajosa carta aberta onde denuncia a crise de saúde por que passa o país, critica fortemente a atuação do governo Macron no enfrentamento da pandemia e levanta questões escancarando as desigualdades que o vírus apenas acentua por onde quer que passe.

Sugere a criação de um novo imposto, batizado por ele de Jean Valjean (o personagem central de Os miseráveis, de Victor Hugo), a ser recolhido sobre a taxação de fortunas, principalmente aquelas oriundas de evasão fiscal, para garantir uma renda mínima de dois mil euros durante a extensão das medidas de quarentena para todos aqueles desassistidos ou impossibilitados de se sustentarem.

Defende ainda, entre outras medidas, uma reforma constitucional que preveja o impeachment do presidente e de qualquer um que ocupe cargo eletivo. Para ele, é simples: a eleição é um contrato que deve ser cumprido. Se o sujeito não entrega o que combinou na campanha, a porta da rua deve ser a serventia da casa.   

O vídeo, de cerca de vinte minutos de duração, postado no último dia 6, viralizou, já teve mais de cinco milhões e quinhentas mil visualizações, vasta repercussão na imprensa e está obrigando os políticos franceses a se posicionarem. Macron, por outro lado, acusado pelo ator de se achar um rei, ainda não se pronunciou a respeito da carta, como se não entendesse a força das redes sociais. Veremos até quando conseguirá ignorá-la.  

(Agora imagine só uma proposta como essa aqui no Brasil... Taxar fortunas para distribuir dois mil euros por família. Se o Paulo Guedes – que queria dar apenas 200 reais de auxílio emergencial – lê um negócio desses, é capaz de infartar!)




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*Alexis Parrot é crítico de televisão, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL



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