Religião

20/05/2020 | domtotal.com

Papa se vê mais isolado na 'católica' Itália quanto ao ideal de fraternidade

Francisco apoiou o dia de oração inter-religioso em meio a controvérsia italiana sobre muçulmanos

A humanitária e ex-refém Silvia Romano cumprimentada pelo primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte, em sua chegada ao aeroporto de Roma, em 10 de maio de 2020
A humanitária e ex-refém Silvia Romano cumprimentada pelo primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte, em sua chegada ao aeroporto de Roma, em 10 de maio de 2020 (Fabio Frustaci/ AFP)

John L. Allen Jr.*
Crux

14 de maio foi um dia especial de oração universal pela cura do coronavírus proposto pelo Alto Comitê da Fraternidade Humana, um corpo formado depois da viagem do papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos em 2019 e após a publicação do Documento sobre a fraternidade humana que assinou junto com o grande imame de Al-Azhar, Ahmad al-Tayyeb.

Francisco abraçou o chamado para um dia de oração a todas as tradições religiosas no início do mês. De fato, Francisco começou sua missa transmitida ao vivo ontem, referindo-se a essa data. "Somos todos irmãos, como disse São Francisco de Assis", apontou o papa.

"Por esse motivo, homens e mulheres de todas as confissões religiosas hoje estão se unindo em oração e penitência, para pedir a graça da cura dessa pandemia", disse Francisco. (A ironia é que o Alto Comitê da Fraternidade Humana é financiado pelos Emirados Árabes Unidos, que atualmente está envolvido em conflitos na Líbia e no Iêmen pela violação ao embargo de armas da ONU e seu governo tem um histórico decididamente descuidado dos direitos humanos, obviamente isso não apaga a proposta de Francisco, porque sua abordagem parece ser bem-vinda a iniciativas positivas onde quer que elas se originem).

Pelo menos aqui na Itália, no entanto, onde as injunções do papa geralmente têm a mais ampla ressonância porque estar em seu próprio contexto, a iniciativa surgiu em um momento em que muitos italianos não estão com um humor especialmente fraterno.

Em vez disso, o país foi dilacerado por uma controvérsia em torno de Silvia Romano, agora com 24 anos, que atuava como voluntária humanitária no Quênia quando foi sequestrada há 18 meses por militantes ligados ao grupo radical terrorista al-Shabab da Somália.

As notícias de sua libertação em 9 de maio inicialmente levaram à celebração nacional, mas as coisas rapidamente tomaram um rumo escuro quando foi revelada a notícia de que Romano havia se convertido ao Islã durante seu cativeiro e havia adotado o nome "Aisha". Em conversas com funcionários do governo, ela alegou que sua conversão não foi forçada, chamando-a de resultado de uma profunda leitura do Alcorão e da discussão de fé com um de seus captores.

As revelações sobre sua conversão provocaram uma série de comentários particularmente desagradáveis, tanto nas mídias sociais quanto nos círculos políticos. Um dos principais políticos conservadores, Vittorio Sgarbi, sugeriu que Romano fosse processada.

"Se a máfia e o terrorismo são análogos, na medida em que ambos representam uma guerra ao Estado, e se Silvia Romano for radicalmente convertida ao Islã, ela deve ser presa por cooperação material com uma associação terrorista", disse Sgarbi. "Ou ela se arrepende ou ela é cúmplice dos terroristas".

Sgarbi é agora uma das várias figuras proeminentes sob investigação de um promotor de Milão de acordo com as disposições do "discurso de ódio" da lei italiana.

O editor do proeminente jornal conservador Il Giornale, Alessandro Sallussti, comparou a chegada de Romano no aeroporto Ciampino de Roma no domingo, vestindo trajes islâmicos tradicionais, como "ver um prisioneiro de um campo de concentração orgulhosamente vestido como nazista".

Em níveis mais baixos, o veneno nas mensagens de mídia social e os comentários postados no final dos artigos de notícias tem sido generalizado. Uma postagem em um grande site de notícias, de alguém identificado como "Max", dizia: "Eu a teria deixado na África", enquanto outro, chamado "Rocco", sugeria "ela tem que ser enviada de volta e deve pagar qualquer que seja o custo dessa operação".

Essas reações têm raízes profundas na Itália, intensificadas na última década pela crise europeia de migrantes e refugiados e percepções de que o país está sendo "invadido", principalmente por imigrantes muçulmanos vistos por alguns como incompatíveis com a identidade cultural da Itália. Mesmo agora, depois de mais de dois meses em que Matteo Salvini ficou praticamente invisível por estar fora do poder, ele e seu partido de extrema-direita Lega ficam à frente de qualquer outra facção política do país, com uma base estável de cerca de 30% de apoio.

Nesse contexto, os líderes católicos têm se esforçado bastante para defender a fraternidade e a paz. Na véspera do dia fraterno de oração, o jornal do papa, L'Osservatore Romano, publicou um editorial extenso da poeta e escritora italiana Daniele Mencarelli, denunciando o que chamou de "incrível sequência de julgamentos imundos".

"Sem compaixão, o homem se apresenta como juiz, cometendo a negação mais clara e abominável da mensagem cristã", escreveu Mencarelli. "Nossa era é uma era bulímica de julgamentos", continuou. "Sabemos com perfeição o que os outros estão fazendo de errado e estamos prontos para atirar pedras sem piedade. Felizmente, ainda existe uma forma de humanidade que ama e que serve os outros". "Bem-vinda de volta, Silvia", concluiu Mencarelli, "leve o tempo que precisar".

O editorial baseou-se nos elogios anteriores à coragem e ao desejo de Romano de servir, demonstrados pelo Avvenire, o jornal da conferência episcopal italiana, que a chamou de “embaixadora de uma Itália melhor” e pela ampla revista católica Famiglia Cristiana, que a denominou "Um exemplo para nossos jovens".

O cardeal Gualtiero Bassetti, de Perugia, presidente dos bispos italianos, disse que todos os italianos devem sentir que Romano é sua filha, chamando-a de "uma jovem mulher com coragem, e essa força interior é certamente o que a salvou".

Não está claro se esta campanha de compaixão está rompendo de forma razoável os preconceitos em torno da situação. Il Giornale publicou uma peça em resposta, intitulada “Uma Igreja entusiasmada pela conversão”, criticando os comentários católicos oficiais como representando o tipo de Igreja que apela aos “católicos hipócritas, bem como aos inúmeros ateus, agnósticos, espiritualistas, panteístas” e assim por diante.

O jornal reservou uma matéria especial para o padre Enrico Parazzoli, pároco de uma pequena paróquia de Milão que, com a presença da família de Romano, disse que sua conversão merece "grande respeito" e que "só ela pode dizer se o Islã é a resposta certa para sua vida".

"Talvez ele não tenha percebido", escreveu Il Giornale, "mas ao dizer isso, o padre Enrico renunciou ao cargo de padre. Os padres têm a missão apostólica da evangelização da Igreja, e quem parar de evangelizar e começar a abençoar a 'alcoranizada' de alguém não é mais credível e deve mudar de emprego, talvez seja contratado por uma dessas magníficas ONG islamófilicas”.

A justaposição não planejada do Dia de Oração de 14 de maio e a controvérsia de Romano na Itália, portanto, talvez ilustrem duas verdades.

Primeiro, o papa Francisco não perderá oportunidade de abraçar os apelos à fraternidade humana e à solidariedade inter-religiosa, não importa de onde eles venham. E segundo, os desafios à fraternidade em uma era polarizada não parecem recuar tão cedo.


Publicado originalmente por Crux


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Tradução: Ramón Lara

*Siga John Allen no Twitter em @JohnLAllenJr.



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