Cultura

21/05/2020 | domtotal.com

Famoso e não sei quem é

Apesar de célebres ou importantes, famosos podem ser profundamente desconhecidos

Ferreira Gullar, poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro
Ferreira Gullar, poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro (Greg Salibian/ Wikimedia)

Ricardo Soares*

A recente entrevista do influencer (eita termo besta) Felipe Neto ao programa Roda Viva, da TV Cultura, me fez lembrar a historinha a seguir, que se passa num dia bem claro no Rio de Janeiro, onde, apesar da manhã já estar quase acabando, fazia um calor suportável em Copacabana. Vai ver era outono e eu não me lembro porque ando me esquecendo de outonos de outros tempos.

Um senhor cercado de gatos se aproxima de uma banca de jornal e cumprimenta com voz anasalada o proprietário. O senhor tinha olhos meio fundos, cabelos escorridos de índio velho e um sotaque indefinido. Folheou dois ou três jornais, um deles bem popular, aqueles que se apertar sai sangue, como diz o dito antigo. Mas optou por levar o então vetusto O Globo e o Jornal do Brasil que ainda existia. Mas mesmo já tendo pago pelos jornais, optou por ficar lendo ali, de pé, ao lado da banca, com seus gatos em volta. Alguns transeuntes o cumprimentavam com a cabeça e ele devolvia o gesto gentilmente, o que provava de alguma forma que era conhecido na vizinhança. Rezava, inclusive, uma lenda urbana que ele tinha vivido muito tempo no exterior, onde comeu o pão que o demo amassou, na época da ditadura militar de 1964. E também reza a lenda que, por uma anistia, ele voltou e agora, as vezes, perambula nas ruas de Copacabana com seus gatos e seus velhos sapatos.

Nesse fim de manhã clara, mas não quente, ele lê O Globo bem devagar, de pé, ao lado da banca. Aí chega, quase sorrateiro, um famoso bêbado das redondezas, toca-lhe o ombro e diz alto como se revelasse ao homem a sua própria identidade:

— Ferreira Gullar! Famoso, mas não sei quem é!

Se você pouco sabe quem foi o poeta Ferreira Gullar, fica aqui só um lembrete de sua extrema destreza com os versos mais do que atuais nos tempos de fascismo campeando no desgoverno: “Como dois e dois são quatro/ sei que a vida vale a pena/ embora o pão seja caro/ e a liberdade pequena(...) Como um tempo de alegria/ Por trás do terror me acena/ e a noite carrega o dia/ no seu colo de açucena/ sei que dois e dois são quatro/ sei que a vida vale a pena/ mesmo que o pão seja caro/ e a liberdade pequena”.


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*Ricardo Soares é escritor, documentarista e jornalista. Publicou 8 livros e dirigiu 12 documentários.



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