Religião

21/05/2020 | domtotal.com

Semana Laudato si em um país governado por perversos e nefastos

Pandemia rasga o véu da desigualdade social e dos problemas ambientais

Deniane Tavares Batista, de 16 anos, descansa em rede após ser tratada com ervas medicinais após sintomas da Covid-19, na comunidade Wakiru
Deniane Tavares Batista, de 16 anos, descansa em rede após ser tratada com ervas medicinais após sintomas da Covid-19, na comunidade Wakiru (AFP/ Ricardo Oliveira)

Élio Gasda*

Na semana em que papa Francisco renova seu “chamado urgente” para que todos reflitam e respondam à crise ecológica, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) anuncia que o desmatamento da Amazônia em abril foi 171% maior que o mesmo mês em 2019. Foram 529 km² de floresta derrubada. “O grito da terra e o grito dos pobres não aguentam mais. Cuidemos da criação, dom de nosso Deus Criador”, disse Francisco durante seu convite para a celebração da Semana Laudato si' (16 a 24/05).

Diante da maior crise sanitária dos últimos cem anos é ainda mais urgente a discussão sobre desmatamento, mudanças climáticas, as tragédias ambientais e seus impactos sobre as comunidades mais pobres. “Tudo está interligado”, basta pensar que uma mutação de um vírus na China modificou a forma de trabalho, educação, saúde e a economia do mundo. Escancarou o desprezo pela casa comum.  

A pandemia rasga o véu da desigualdade social, principalmente no Brasil. Os desmatamentos na Amazônia acontecem exatamente no momento do distanciamento social. A crise sanitária virou oportunidade para grileiros, garimpeiros e madeireiros avançarem sobre áreas protegidas, principalmente sobre as terras indígenas. Seus povos estão entre os mais vulneráveis à Covid-19. Segundo a Funai, 350 casos foram confirmados entre os índios brasileiros. Quase 100 mortos! Junto com o aumento de mortos pela Covid-19 está o crescimento de assassinatos de lideranças indígenas.

As discussões no Congresso giram em torno da Medida Provisória 910, que agora é Projeto de Lei 2633 que prevê a regularização fundiária e o licenciamento ambiental. Para ambientalistas essa é uma forma do governo de legalizar o roubo das terras públicas, avançar com o agronegócio, e com a mineração em território indígena. Outra pauta é a Lei Geral de Licenciamento Ambiental que pode retirar direitos dos povos indígenas e quilombolas, e colocar em risco as Unidades de Conservação (UC). Na calada da noite é esse o debate dos políticos no legislativo.

O desgoverno em nada colabora para o cuidado da casa comum. Em pouco mais de um ano Bolsonaro realizou o maior desmonte da política de proteção ambiental brasileira. Desconstruiu o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, transferiu o Serviço Florestal Brasileiro para o Ministério da Agricultura, flexibilizou e reduziu multas ambientais. Seu discurso incentiva a invasão de áreas protegidas. Já liberou o uso de 621 tipos de agrotóxicos. Foram 118 em plena pandemia! Contesta dados oficiais de desmatamento na Amazônia. Foi responsável pela interrupção dos recursos do Fundo Amazônia que tinha como fonte Noruega e Alemanha, dinheiro que financiava centenas de projetos.

Muitos outros desmanches poderiam ser enumerados. Uma gestão marcada por tragédias ecológicas, crimes ambientais e ineficiência em combater rompimento de barragem (Brumadinho), desmatamentos, incêndios no Pantanal, derramamento de óleo na costa litorânea brasileira e agora a Covid-19. Teremos menos brasileiros, mas o número de famintos e desempregados vai aumentar.

O descaso com o meio ambiente, com a saúde e a vida da população mais pobre, o ecocídio são marcas do capitalismo que “impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão nem na destruição da natureza. Este sistema é insuportável: não o suportam os povos. Nem sequer o suporta a irmã Mãe Terra. Por trás de tanto sofrimento, morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava "o esterco do diabo": reina a ambição desenfreada de dinheiro” (papa Francisco).

No próximo dia 24 o mundo comemora os 5 anos da primeira encíclica inteiramente dedicada ao ensino da Igreja sobre o meio ambiente e a ecologia humana. O documento assinado por Francisco insiste em uma conversão ecológica com o objetivo de salvar a mãe terra e preservar os recursos naturais e garantir as gerações presente e futura um desenvolvimento humano sustentável e melhor qualidade de vida. “Que tipo de mundo queremos deixar para aqueles que nos sucedem, às crianças que estão crescendo?” Essa é a pergunta que não quer calar, mas como lembra Francisco “...não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode por a questão de forma fragmentaria”.

Interrogar-se sobre o sentido da existência e os valores que estão na base social da vida reforça a “esperança de abraçar e praticar o novo paradigma da ecologia integral, o cuidado da casa comum”. A Laudato si' é um convite a conversão integral. Somos todos responsáveis em repensar um novo modelo de desenvolvimento não predatório que valorize e respeite a criação e os direitos humanos. Uma tarefa política e social. Para cristãos uma “exigência de fé”. Uma tarefa nada fácil, mas possível. Laudato si' nos ensina a construir um mundo melhor juntos.


Receba notícias do DomTotal em seu WhatsApp. Entre agora:
https://chat.whatsapp.com/GuYloPXyzPk0X1WODbGtZU

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)



Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.
EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!