Religião

21/05/2020 | domtotal.com

Banalidade do mal: a burocratização religiosa?

A banalização do mal ronda o cidadão de bem em sua busca pelo cumprimento do dever

A conivência da população com o regime nazista é exemplo de banalização do mal. Na foto, memorial de Auschwitz
A conivência da população com o regime nazista é exemplo de banalização do mal. Na foto, memorial de Auschwitz (Jean Carlo Emer/ Unsplash)

Marcos Aurélio Trindade e Keller Reis Figueiredo*

Hannah Arendt (1906-1975) foi uma filósofa judia de origem alemã, autora de vários livros onde desenvolveu diversos conceitos, dos quais se destaca o que chamou de “banalidade do mal”, ainda hoje polemico e incompreendido.

“Nós cristãos católicos devemos despertar, buscar entender o mal que nossos irmãos sofrem pela perseguição religiosa em países que são de minoria religiosa.”

O conceito de “banalidade do mal” aprofundado por Hannah Arendt, no livro Eichmann em Jerusalém, trouxe-lhe as críticas da comunidade judaica e também a polêmica que ainda se mantém. O livro surgiu na sequência do julgamento em Jerusalém de Adolf Eichmmann, raptado pelos serviços secretos israelitas na Argentina em 1960, e que a filósofa acompanhou para a revista The New Yorker.

Nesta obra a filósofa defende que, em resultado da massificação da sociedade, se criou uma multidão incapaz de fazer julgamentos morais, razão porque aceitam e cumprem ordens sem questionar.

Eichmann, um dos responsáveis pela solução final, não é olhado como um monstro, mas apenas como um funcionário zeloso que foi incapaz de resistir às ordens que recebeu.“Quando somos massificados pela religião e vivemos uma fé sem o uso da razão, corremos o risco de sermos injustos, não discernimos o certo e o errado, e podemos praticar o mal. Sem fazer julgamentos morais, aceitamos e cumprimos ordens sem questionar. Temos como exemplo parte o fanatismo religioso, que é capaz de cometer atrocidades em nome da fé que professa. Não há amor, tolerância, respeito pelo próximo e pelas minorias religiosas.”

O mal torna-se assim banal.

Como fundamentar a superfluidade da vida humana perante sua burocratização que desconhece ou ignora sua condição humana diante da calamidade, banalizando atitudes com a prática do mal. Com o olhar voltado ao julgamento de Otto Adolf Eichmann, como compreender sua mecanicidade em relação às regras e diretrizes legalizadas e legitimadas pelo sistema nazista? Como compreender o entendimento da parte de Eichmann do que é o mal e sua relação com o dever profissional, assim como relacionar o que pensa aquele que sofre algo que subentendesse um malefício?

“Se formos cristãos mornos, podemos ser como burocratas da religião, superficiais, que desconhece ou ignora a condição humana diante da calamidade, passamos a banalizar a atitudes e nos tornamos pessoas más. Assim fica a pergunta: qual deve ser a nossa posição perante a realidade da Igreja que Sofre?”

Refletir a teoria “arendtiana” acerca do entendimento sobre a banalização do mal e seus fundamentos teóricos trata-se principalmente de algumas características que fizeram parte do julgamento de Eichmann, e sua importância para compreensão do homem burocrático que a partir de uma ética profissional promove o mal, legalizado e institucionalizado pelo sistema político.

“Imaginemos o que se passa com os nossos irmãos cristãos católicos que são perseguidos por homens burocráticos, que a partir de um fundamentalismo religioso promovem o mal, legalizado e institucionalizado pelo sistema político e religioso de seus países. Essa é uma face do mal que uma parte da Igreja Cristã Católica resiste.”

Devido a grande importância e atualidade da filosofia proposta por Hannah Arendt e suas significativas contribuições para o debate filosófico, tanto político como ético, sendo o tema bastante pontual, esta será nossa diretiva: a questão ética do homem burocrático e sua normalidade perante o mal praticado e institucionalizado pelo sistema político e religioso.

Segundo Arendt, no banco dos réus não estava um sádico, mas um homem assustadoramente normal, que cumprindo às vezes de um bom funcionário, e obediente, buscando alcançar metas estabelecidas, desenvolvia, diga-se de passagem, muito bem o seu trabalho. Da mesma forma acontece com os fundamentalistas islâmicos, na maioria das vezes são pessoas completamente normais, que perderam a capacidade de se sensibilizar com o mal, de ver o certo e o errado.

A partir da descrição de Arendt, iremos traçar um caminho que caracterize a superfluidade do homem burocrático que age com naturalidade e orgulho o seu labor. Buscaremos fragmentos que demonstrem a institucionalização do mal como algo constituído, arraigado em sistemas políticos e religiosos, que a partir de um discurso civilizador promove a violência e a coerção. Que não remontam tempos antigos, mas tempos atuais, onde a violência não mais se vincula com aspectos emocionais ou irracionais, mas como parte integrante de um processo civilizador, que sendo monopolizado pelo Estado, abre mão da violência para salvaguardar o próprio Estado. Onde a religião é usada como um meio para se ter o controle social e a manutenção do Estado.

Nós cristãos católicos do Brasil, o que podemos fazer?

Como devemos nos posicionar?

O diálogo inter-religioso é o começo para criar um movimento por respeito, tolerância, justiça, como podemos agir?

Marcos Aurélio Trindade é graduado em Filosofia pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação – FAPCOM-SP. Bacharel em psicologia pela PUC-MG, pesquisador de bioética e publicou a obra em parceria com o Bioeticista Dr. Christian de Paul Barchifontaine: 'A Bioética social e suas implicações filosóficas'. Email: marcos.trindade2014@gmail.com Keller Reis Figueiredo é graduado em Filosofia pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação – FAPCOM, Administração, especialista em filosofia clínica pelo Instituto interseção e especialista em filosofia para o ensino médio pela UNIFESP-SP. Email: kellerreis.f@gmail.com.



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