Religião

22/05/2020 | domtotal.com

Por que estais a olhar para o céu?

O cristão não pode continuar a olhar para o céu à espera de uma intervenção divina

Padre Júlio Lancelotti na inauguração do espaço de higienização em São Bernardo no Sindicato dos Metalurgicos, um exemplo de fé que não cruza os braços, mas busca ser sal e luz
Padre Júlio Lancelotti na inauguração do espaço de higienização em São Bernardo no Sindicato dos Metalurgicos, um exemplo de fé que não cruza os braços, mas busca ser sal e luz (Adonis Guerra)

Gustavo Ribeiro*

No fim da perícope de Atos dos Apóstolos que narra a Ascensão do Senhor, “dois homens vestidos de branco” (cf. At 1,10) fazem uma pergunta aos discípulos, que ante a partida do Mestre continuam a contemplar a subida e se esquecem que a partir daquele momento eles precisam fazer valer os aprendizados do tempo em que passaram juntos, porque ali começava, verdadeiramente, a missão cristã.

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A pergunta está colocada, como uma lembrança às comunidades cristãs primitivas, para que não se apegassem demais ao que virá sem antes viver o que deve ser vivido na história, lugar da revelação de Deus.

Podemos passar a vida numa contemplação passiva dos seus movimentos. Ou podemos nos posicionarmos no sentido de transformá-la. É uma escolha. Às vezes, essa escolha se dá por um movimento de autonomia pessoal, mas nunca de maneira solitária. A fé cristã é individual, mas é sempre vivida em comunhão de irmãs e irmãos. É sempre a comunidade que nos sussurra: “por que você está aí olhando para o céu, quando a criação geme em dores de parto?” (cf. Rm 8,22).

A pergunta dos “dois homens vestidos de branco” é retórica. Mas propõe um posicionamento, propõe uma práxis que transborde a experiência da fé.

Sei que causarei polêmica, mas gostaria de citar a tese onze, de Teses sobre Feuerbach, propostas por Karl Marx, publicadas em 1845: “Até agora os filósofos se preocuparam em interpretar o mundo de várias formas. O que importa é transformá-lo”. Não estaríamos, nós cristãos, na mesma situação? Parados a contemplar os movimentos históricos sem nos colocarmos à disposição para a transformação necessária da sociedade?

E quando digo isto não estou propondo restaurar a cristandade como querem alguns sectários, saudosistas de tempos em que a Igreja possuía “relevância” social, mas vivia em regime de vassalagem como correspondente dos interesses dos poderes políticos e econômicos.  

Houve um tempo na América-Latina em que a Igreja (parte dela) esteve comprometida com os movimentos de libertação dos sistemas de morte que se instauraram e ceifavam inúmeras vidas, sobretudo as dos pobres. E lá estavam as Comunidades Eclesiais de Base que faziam de suas capelas e liturgias espaçotempos de comunhão da Palavra, da Eucaristia e das lutas. Ali, afetiva e efetivamente, vivenciava-se a acolhida do Reino, descruzavam-se os braços e se baixava os olhos para a realidade. E, ao mirá-la, podia-se construir alternativas para que a vida fosse valorizada, protegida e florescesse.

Esta semana, mais um adolescente preto foi morto por força da ação violenta estatal nas regiões periféricas do Rio de Janeiro. João Pedro era o nome do menino, que estava em casa brincando com os primos, quando a polícia pulou o muro atirando em suposta perseguição a traficantes. Como cristãos, não ficar de braços cruzados ante a ação racista do Estado no combate às drogas, que tem se mostrado a cada dia mais ineficaz, ficando somente o componente de ódio em suas ações. Ora, não basta que não sejamos racistas, é necessário que sejamos antirracistas, lutando contra qualquer sinal de preconceito racial. E perguntando às nossas estruturas eclesiais: onde estão as pessoas pretas? Que funções ocupam? E por que estão onde estão? O que nossas comunidades fazem de fato para frear a violência que extermina a juventude periférica do nosso país? Isto apenas como início de um movimento muito maior que devemos realizar.

Neste tempo de pandemia, quando milhares morrem, não por mera fatalidade da doença, mas pela escolha deliberada de alguns, sobretudo, das estruturas político-econômicas, não podemos continuar a olhar para o Céu à espera de uma intervenção divina na realidade, para frear este caos instaurado.

Como temos nos alertado uns aos outros sobre a necessidade de nos cuidarmos de acordo com as orientações da ciência e das autoridades sanitárias; mas também de nos articularmos para socorrer os irmãos que sofrem com as implicações econômicas do distanciamento social. E para além de apenas fornecer cestas básicas ocasionais, que são urgentes agora, devemos questionar porque o Estado não tem dado o suporte necessário a todas estas pessoas? Por que tantos estão desempregados? Por que os pobres continuam pobres e há quem aumente suas riquezas, acumulando mais e mais? Por que a desigualdade existe?

São questões que parecem alheias às realidades da fé e das perspectivas do Céu, porém estas perguntas estão diretamente relacionadas com a vivência mesma da fé cristã, que não deve estar, de maneira nenhuma, desvinculada da vida de fato, das realidades mais extremas do que significa ser humano. Assumidas, inclusive, historicamente por Deus ao se encarnar e se solidarizar com a humanidade nascendo do seio de uma mulher palestina na periferia do Império Romano. E padecendo o Filho pelas consequências da ação violenta do poderio político-religioso de sua época em uma cruz, da qual o Pai o resgatou da morte, ressuscitando-o no terceiro dia. E cujo evento nós celebramos agora.  

Uma das atitudes mais nefastas e que colocam as vidas de muitos em risco está o fato de desconfiarmos e até desdenharmos da razão e das ciências num movimento em direção a uma suposta fé.

E, sobre isto, o teólogo belga Edward Schillebeeckx, em sua obra Soy un teologo feliz, diz que "é necessário sermos crentes racionais... É cada vez mais necessária a racionalidade, sobretudo, para uma reação ao fundamentalismo, que mina cada vez mais a Igreja. O fundamentalismo, presente também, hoje, em algumas comunidades cristãs, leva ao obscurantismo. É um grande perigo, porque nega a razão humana. É certo que não se deve deixar a razão humana como suficiente em si mesma, porque se corre o perigo de chegar a um puro positivismo. A fé cumpre a função de crítica e de correção para não cair no racionalismo e fechar-se ao mistério. Sem a razão humana a fé se converte em fundamentalismo. Ambas, fé e razão, cumprem a função de crítica recíproca".

Voltar os olhos para a realidade é buscar alicerçar nossa fé na esperança da promessa que o Mestre nos fez e fincar os pés na história, conscientes de nossa missão a ser realizada no mundo, sendo sal e luz, unindo-nos como irmãs e irmãos, recebendo o Reino e fazendo-o germinar em nossas experiências, lugar onde Deus continua a se revelar e a se dar a experimentar.

Como reflexão final e, também, como oração, possamos professar nossa fé no Cristo Ressuscitado, que ascende aos Céus e nos pede uma ação comprometida no mundo, com o poema de dom Pedro Casaldáliga, profeta do Araguaia, “A paz inquieta”:

Dá-nos, Senhor, aquela PAZ inquieta
que denuncia a PAZ dos cemitérios
e a PAZ dos lucros fartos.

Dá-nos a PAZ que luta pela PAZ!
A PAZ que nos sacode
com a urgência do Reino.
A PAZ que nos invade,
com o vento do Espírito,
a rotina e o medo,
o sossego das praias
e a oração de refúgio.
A PAZ das armas rotas
na derrota das armas.
A PAZ do pão da fome de justiça,
a PAZ da liberdade conquistada,
a PAZ que se faz “nossa”
Sem cercas nem fronteiras,
que é tanto “Shalom” como “Salam”,
perdão, retorno, abraço…
Dá-nos a tua PAZ,
essa PAZ marginal que soletra em Belém
e agoniza na Cruz
e triunfa na Páscoa.

Dá-nos, Senhor, aquela PAZ inquieta,

que não nos deixa em PAZ!


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*Gustavo Ribeiro é natural de São Vicente de Minas/MG. Atualmente residindo em São José/SC, onde trabalha como Analista de Pastoral Sênior em um colégio católico. Graduado em Teologia. Graduando em Pedagogia. E pós-graduando em Gestão Escolar. Poeta nas horas vagas, que são poucas.



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