Religião

22/05/2020 | domtotal.com

Ascensão do Senhor e humanidade

A Ascensão do Filho oferece como dom à humanidade sua participação na vida divina

Ascensão de Jesus aponta para o modo de ser humano e diz algo da própria humanidade
Ascensão de Jesus aponta para o modo de ser humano e diz algo da própria humanidade (Karina Carvalho/ Unsplash)

César Thiago do Carmo Alves*

A liturgia da Igreja Católica, no tempo pascal, celebra a solenidade da Ascensão do Senhor. Esse evento não tem conotação historiográfica, mas sim teológica. Está associado ao evento pascal e a expansão missionária da Igreja. Parece ser essa a intenção de Lucas, ao relatar, nos Atos dos Apóstolos, o evento da Ascensão de Jesus (1,6-11). O Filho retorna ao Pai e promete enviar o Espírito Santo. Um da Trindade que assumiu a humanidade, agora voltando para Deus, carrega consigo o jeito humano de ser. Pode-se dizer que com a Ascensão, a humanidade é acolhida de forma definitiva no seio da Trindade.

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Celebrar na liturgia a Ascensão do Senhor não consiste, em última análise, fazer apenas memória do retorno de Jesus ao Pai e tampouco simplesmente celebrar o fim das aparições do Ressuscitado à sua comunidade. A celebração litúrgica dessa solenidade tem impacto no hoje da vida das comunidades de fé e aponta para um modo humano de ser. O Filho de Deus revelou plenamente quem é o ser humano: pessoa abarcada pelo amor de Deus e capaz de amar. É justamente esse ser humano que foi inserido Senhor no seio da Trindade.

Na escola da lex orandi descobre-se que Deus conduz a humanidade à divindade. A oração do prefácio na eucaristia tem por finalidade teológica dar graças a Deus pelo dom da salvação, recolhendo elementos da historia salutis. Na solenidade da Ascensão, o atual missal romano propõe duas opções de prefácios para essa solenidade. Na segunda opção diz: “subiu aos céus, a fim de nos tornar participantes da sua divindade”. Essa participação não consiste somente numa vida além da morte da pessoa, mas, antes, tal participação na divindade de Jesus começa no hoje da história. É ainda enquanto se peregrina sobre essa terra. Dito de outro modo, usando a expressão da Igreja latina, participar da divindade é viver a santidade. Os orientais usam a expressão divinização.

Se a Ascensão de Jesus aponta para o modo de ser humano e diz algo da própria humanidade, então para apreender o que está sendo dito é necessário contemplar os gestos que o Mestre de Nazaré realizou durante sua vida terrena. Isto é, observar como ele vivenciou de forma densa e intensa a sua humanidade. Indubitavelmente, os encontros que Jesus teve com as pessoas demonstram isso. Os encontros são reveladores. Um exemplo, entre tantos que podem ser constatados na literatura neotestamentária, é o caso da mulher samaritana (cf. Jo 4,5-42). Na beira do poço de Jacó ele se revela àquela mulher e, ao mesmo tempo, adentra em sua vida. Oferece a água viva que vem dele mesmo. Uma água que sacia a sede por todo o sempre. É um encontro de corações. Jesus não se importa com o que os outros irão pensar dele conversando com uma samaritana. Afinal, judeus e samaritanos não se dão. O que lhe interessa é tão somente a vida daquela mulher e, por conta disso, oferecer a ela o dom da salvação. Isso é para Jesus o fundamental. É o verdadeiro saciar a sede. A samaritana ao confessar que Jesus é o messias, o enviado do Pai, permite no encontro com ele deixar-se ser verdadeiramente encontrada. Não é um encontro tão somente marcado pelas delimitações geográficas, isto é, estar próximos e dialogar. É algo um tanto quanto mais profundo. É um verdadeiro deixar-se encontrar pelo Mestre de Nazaré. Pode-se dizer, passou-se do geográfico para o existencial-mistagógico. Nesse sentido, Jesus roubou-lhe o coração. Aqui fica claro que o sentido de vida do Filho é a vida boa das outras pessoas, pois essa é a vontade do Pai.

A Ascensão do Filho oferece como dom à humanidade sua participação na vida divina. Por outro lado, aponta para a tarefa irrenunciável de que a busca pela vida em abundância do irmão e da irmã não é algo secundário ou que possa ser relativizado. É um verdadeiro imperativo. Assistimos essa semana ao aumento exponencial da morte de pessoas com COVID-19. Fala-se ainda que esses números estejam subnotificados. Algo que precisa ser apurado. Uma humanidade tocada pela Ascensão de Jesus tende a ser solidária com vidas ceifadas por uma pandemia, por exemplo. É capaz de transcender a polarização política dicotômica, pois antes de tudo deseja a vida. Fazer piadas de mortes como temos visto o Presidente da República fazer, é simplesmente não compreender existencialmente e espiritualmente o que se celebrará no próximo domingo. Defender política genocida é antes de tudo não estar do lado do Deus da Vida e, portanto, não valorizar a participação da vida em Deus levada ao céu por Jesus.


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*César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.



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