Brasil Política

22/05/2020 | domtotal.com

Filme queimado

Enquanto Minas vive um desastre econômico sem precedentes, deputados reclamam dos seus gordos salários

Minas Gerais foi pro buraco por conta de desmandos, trapalhadas e leviandades dos governos anteriores que esvaziaram os cofres com invejável talento
Minas Gerais foi pro buraco por conta de desmandos, trapalhadas e leviandades dos governos anteriores que esvaziaram os cofres com invejável talento (Henrique Chendes/ALMG)

Fernando Fabbrini*

Realmente, o poder legislativo nacional não perde uma chance de queimar seu próprio filme. E os eleitos para tais cargos acabam dando razão à frase de um amigo, referindo-se a vereadores e deputados de seu estado nordestino: “são indivíduos que passam quatro anos na boa-vida inventando um jeito de ficar mais quatro.”

O governador Zema – executivo de sucesso tentando aplicar seu conhecimento de vida real à fantasia permissiva da gestão pública – avisou que este mês não tem dinheiro para bancar as fortunas destinadas mensalmente aos demais poderes.

Trata-se de uma simples questão de aritmética; qualquer aluno do ensino fundamental entende. Eram doze laranjas serra-d’água na cesta mineira. Laranjinhas doces, tentadoras, bastava esticar a mão e pegar. Joãozinho tirou cinco; Maria pegou três; Pedrinho, nove. Joãozinho, guloso, e querendo fazer graça para os amiguinhos, pegou mais laranjas de todas as cestas ao seu alcance, onde quer que estivessem. Viram? Agora, por mais que se busque ou se esprema, não tem milagre que faça surgir do nada uma laranjinha murcha ou uma gotinha de suco.

Aritmética básica, absurdamente simples. Minas Gerais foi pro buraco por conta de desmandos, trapalhadas e leviandades dos governos anteriores que esvaziaram os cofres com invejável talento. Como se não bastasse o desastre prévio, o mundo – e Minas faz parte dele, sabiam, senhores deputados? – vem sendo assolado por uma pandemia arrasadora. Indústria, comércio e serviços seguem atolados na lama do vírus até sabe Deus quando. Não há arrecadação; não se recolhem impostos, cofres ainda mais detonados. Acabou. Finito. Fim de papo.

Ah! Mas isso não pode! – arrepiaram. Somos especiais! Como vamos viver com um salário de apenas R$ 25.322,25? Além dos R$ 113.031,45 por mês para contratar funcionários para nossas equipes? E além da verba indenizatória de R$ 27 mil – para locação de imóveis, combustível, alimentação, divulgação de atividades e ações do mandato, locação de veículos, contratação de serviços de monitoramento de redes sociais, manutenção de veículos, entre outras coisinhas?

De vez em quando a Assembleia faz comerciais, dizendo que trabalha muito. Acho engraçado: foram eleitos e estão lá para isso mesmo, ué. O chamado público-alvo, que não é bobo nada, deve assistir e pensar:

—  Pô! Esses caras são muito folgados. Gastando dinheiro nosso para tentar aparecer bem na fita.

Os tais caras não se mancam: vivendo na ilusão da fartura de outrora, pensando apenas na grana deles, aprovaram uma lei onde o governador pode ser acusado de crime de responsabilidade fiscal e ser até impitchmado, caso não arranquem o dinheiro do estado.

Publicitário que fui por muitos anos, acho que será preciso um gênio fantástico da comunicação e da persuasão para, depois do fato consumado, dourar a pílula num lindo comercial. E nele explicar o inexplicável, o repugnante e o intolerável à família confinada vendo TV, fazendo contas para esticar os R$ 600,00 que receberam de ajuda após três dias na fila.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália



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