Religião

22/05/2020 | domtotal.com

Ascensão do Senhor: elevação da humanidade que se rebaixa por humildade

Só pode ser elevado com Cristo aquele que se rebaixar como ele

A Igreja, Corpo de Cristo, comunidade de batizados e batizadas, é sinal da presença constante de Jesus, 'sacramento universal da salvação'
A Igreja, Corpo de Cristo, comunidade de batizados e batizadas, é sinal da presença constante de Jesus, 'sacramento universal da salvação' (Unsplash/ NRD @nicotitto)

Daniel Reis*

No Brasil, o 7º Domingo da Páscoa cede lugar à Solenidade da Ascensão do Senhor, que, segundo os registros históricos, é celebrada na Igreja desde a metade do século 4º. Com uma liturgia riquíssima, desde um variado e bem proposto elenco de leituras conforme os anos A, B ou C, a um belíssimo formulário eucológico baseado em antigos sacramentários e inspirado em homilias patrísticas, a celebração da Ascensão encontra-se bem situada no Ano Litúrgico, próxima ao fim do Ciclo Pascal, sendo um elo teológico-litúrgico apropriado entre o mistério da Ressurreição, que a tudo ilumina, e o envio do Espírito Santo Paráclito, em Pentecostes.

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A ascensão do Senhor, intimamente ligada à sua ressurreição, principia e nos faz antever a meta para a qual, como seus discípulos e discípulas, estamos destinados: o céu! Para usar o neologismo do papa Francisco (cf. Evangelii Gaudium, n. 24), Cristo, com sua ressurreição e ascensão, “primeireou” a glória celeste, que, pela Liturgia, já se realiza mistericamente em nós, como afirmamos na Oração Coleta desta solenidade: “Ó Deus todo-poderoso, a ascensão do vosso Filho já é nossa vitória (...) pois, membros de seu corpo, somos chamados na esperança a participar da sua glória”. Tal oração nos apresenta, assim, a tensão escatológica do “já e ainda não”, pois embora, em mistério, já nos ascendamos com Jesus aos céus, como seu corpo que somos (cf. também a 2º Leitura), ainda não o fazemos em plenitude, quando de lá ele descer para definitivamente nos elevar.

Ainda sobre este “já e ainda não”, é certo que podemos, como Paulo em outros textos que não estão contemplados pelo elenco desta celebração, afirmar que “Nós [já] somos cidadãos do céu” (Fl 3,20), e como “ressuscitados com Cristo”, devemos “aspirar” e nos “esforçar para alcançar as coisas do alto, onde ele está, sentado à direita de Deus” (cf. Cl 3,1-2). É precisamente o que reza a Oração Pós-Comunhão da Ascensão: “Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis conviver na terra com as realidades do céu, fazei que nossos corações se voltem para o alto, onde está junto de vós a nossa humanidade. Por Cristo, nosso Senhor”. Tal prece evoca uma sua “oração irmã”, a Oração Pós-Comunhão do 1º Domingo do Advento, que não por mero acaso, mas por um arco teológico-litúrgico reza: Aproveite-nos, ó Deus, a participação nos vossos mistérios. Fazei com que eles nos ajudem a amar desde agora o que é do céu e, caminhando entre as coisas que passam, abraçar as que não passam”. De forma sutil, esta relação com o Advento se mostra no último versículo da 1ª Leitura da Ascensão  (a mesma nos anos A, B e C): “Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir” (At 1, 11b).

Inspirada biblicamente por esses movimentos anabático e catabático, ascensional e descensional, a Solenidade da Ascensão se apresenta ainda vinculada, necessariamente, ao mistério da Encarnação, no Natal, pois natural e logicamente só pode “subir” aquele que um dia “desceu”. Nós já “vimos a glória” quando “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (cf. Jo 1,14), e pretendemos, por uma vida semelhante à sua, merecer subir com Ele para contemplá-la eternamente. Assim, a Oração Sobre as Oferendas da Ascensão evidencia este Sacrum Commercium (“comércio sagrado”): “Concedei, por esta comunhão de dons entre o céu e a terra, que nos elevemos com Ele até a pátria celeste”. Para tanto, só pode ser elevado com Cristo aquele que se rebaixar como ele. Este é o paradigma para todos nós que esperamos, um dia, subir aos céus com o Senhor. Leia-se a exortação de Paulo aos Filipenses, à qual a Liturgia toma emprestado para aclamar o Evangelho da Paixão, proclamado no Domingo de Ramos e na Sexta-feira Santa:

“Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus: Ele, sendo na forma de Deus, não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo, fazendo-se semelhante aos homens. Reconhecido em seu aspecto como um homem, abaixou-se/humilhou-se, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, Deus o elevou acima de tudo (...)” (Fl 2, 5-9a)

Perceba-se que o texto paulino é claro e preciso ao afirmar que é “por isso”, por não querer usar de seu privilégio divino, por esvaziar-se de sua glória, por assumir uma condição servil, por abaixar-se/humilhar-se, em síntese, por ser obediente, é “por isso” que Ele foi elevado “acima de tudo”. Esta lógica é recorrente nos evangelhos, como quando Jesus alerta para a hipocrisia e vaidade dos escribas e fariseus, afirmando: “o maior dentre vós deve ser aquele que vos serve. Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado” (Mt 23,11-12); também quando conta a parábola do fariseu que, em pé, na sinagoga se exaltava enquanto o cobrador de impostos, de joelhos, pedia perdão, diz: “Este último voltou para casa justificado, mas o outro não. Pois quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado” (Lc 18,14).     

A ascensão de Cristo não está fundada numa demonstração vaidosa de glória e poder mundanos, mas na solidariedade que pregou e viveu. Ele, nossa cabeça e princípio, subiu aos céus, não para afastar-se de nossa humildade, mas para dar-nos a certeza de que nos conduzirá à glória da imortalidade”, reza o Prefácio da Ascensão I. Elevou-se não para si mesmo, mas para elevar a dignidade de todo ser humano, “a fim de nos tornar participantes da sua divindade” (Prefácio da Ascensão II). Retomando a relação teológico-litúrgica com o mistério da Encarnação, note-se a semelhança do Prefácio do Natal III: “No momento em que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se Ele um de nós, nós nos tornamos eternos”. Aperfeiçoando a análise temática no bojo da Oração Eucarística, soma-se o Comunicante Próprio do Cânon Romano: Em comunhão com toda a Igreja celebramos o dia santo em que o vosso Filho único elevou à glória da vossa direita a fragilidade de nossa carne”.

“Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20b), é a proposta da Antífona da Comunhão, retirada do último versículo do evangelho do Ano A.  Não podemos nos esquecer que aquele que subiu aos céus é o Emanuel (Mt 1,23), o Deus Conosco! Ele está à direita do Pai na glória, como professamos no Símbolo da Fé, mas não nos desampara, conforme a promessa constante da 1ª Leitura: “recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas (...) até os confins da terra” (At 1,8). Seu plano redentor não foi e não pode ser paralisado em razão de sua ascensão, já que ele fez de nós, que somos o seu corpo, herdeiros de sua missão: “ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei” (Mt 28, 19-20a – Evangelho do Ano A). A Igreja, Corpo de Cristo, comunidade de batizados e batizadas, guiada pelo Espírito prometido e derramado, continua na terra para cumprir essa promessa, como sinal da presença constante de Jesus, como “sacramento universal da salvação” (Lumen Gentium, n.48). Assim, não fiquemos “parados, olhando para o céu” (cf. Antífona da Entrada e 1ª Leitura: At 1,11a), mas nos empenhemos em elevar nossos irmãos e irmãs caídos à beira do caminho, para que neles o Senhor nos faça experimentar a alegria de tê-lo conosco até o fim dos tempos, conforme sua promessa (cf. Bênção Solene da Ascensão do Senhor).


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*Daniel Reis é leigo, graduando em Teologia e em Direito, pela PUC Minas. Cursou Especialização em Liturgia, pelo Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard e Universidade Salesiana de São Paulo (UNISAL). Assessor da Comissão de Liturgia da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Membro e assessor do Secretariado Arquidiocesano de Liturgia (SAL). Membro do Regional Leste II para a Liturgia, da CNBB. Membro da Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI).



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