Religião

22/05/2020 | domtotal.com

A ignorância canonizada

De pseudointelectuais a pseudocatólicos: bem-vindo ao mundo onde intelectualidade significa negar todo saber constituído

Um dos
Um dos "exemplos de intelectualidade" atuais, Ítalo Marsili disse em uma live que professor no Brasil "não sabe trabalhar porque é burro". Na foto, o cotado para assumir Ministério da Saúde em entrevista para TV Brasil (Divulgação/ TV Brasil)

Mirticeli Medeiros*

Quem nunca ouviu falar, ao menos nos últimos 4 anos, algo sobre “construir a elite cultural brasileira”? É isso mesmo: pequenos grupos surgem com a pretensão de apropriar-se da cultura, esvaziando completamente o seu significado. Posso imaginar quantos sociólogos se contorcem ao se depararem com tais definições, sobretudo em se tratando de um país tão plural quanto o nosso.

Como se não bastasse tanta ignorância, seus idealizadores ainda agregam uma lista de teorias negacionistas, que encontram nos “youtubers” da última hora um espaço para uma ampla difusão. Aquele “toque” que faltava para enterrar de vez o legado de pessoas que, através de sua produção cultural e de sua religiosidade – a mais pura –, construíram o país. “Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração são necessárias as obras”, já dizia padre Antônio Vieira.

Estamos no tempo em que o saber não serve mais à transformação de uma realidade, mas para atrair o alter ego da imbecilidade. Certamente, burro não é o professor que trabalha horas a fio em sala de aula, de modo que o conhecimento transmitido possa dar um rumo à vida de tantos. Burro é quem faz do seu conhecimento raso um instrumento de alienação.

Não precisamos dos sons ensurdecedores dos “pancadões da guerrilha” e de todas essas demonstrações de virilidade na base do grito. Precisamos do banho gelado que nos derruba do pedestal e nos convence que não somos melhores que ninguém. E o conhecimento não serve somente para ser compartilhado, mas para humanizar. Serve para agregar pares, não para criar a confraria dos apreciadores de vinho que vomitam palavras em latim e transformam a caridade em letra morta. Estamos fartos desses “elitizados” que decoram uma lista de documentos da Igreja, mas rejeitam os cordéis da espiritualidade feita de encontro pessoal com o sagrado.

Negam vacinas, mudanças climáticas, concílios e até a legitimidade do papa. A verdade é que todos viraram sabe-tudo inspirados em quem não sabe nada. Ou seja, na verdade é uma ameaça à cultura em seu sentido mais amplo: a cultura feita de devoção popular e da religiosidade que não se aprendem nas rubricas de uma missa extraordinária do rito romano.

E tal tendência envenenou muitos ambientes católicos, além de causar mais estragos que podemos imaginar. Começaram a questionar o Vaticano II, depois passaram aos bispos e, por fim, chegaram ao líder máximo da Igreja Católica. Transformaram político ruim em a “personificação do mal menor” e santos da atualidade em ameaças à ordem pública por causa de seu trabalho social. Instrumentalizam a teologia, a filosofia e caricaturaram o cristianismo como a religião dos intragáveis.

O que antes parecia abominável se tornou aceitável desde que corresponda à agenda ideológica “do meu grupo”. Nos tempos de ouro da Renovação Carismática Católica, por exemplo, aquele pacifismo cristão pré-constantiniano fazia parte do discurso de qualquer bom pregador. Quantas vezes eu, na minha juventude, escutei alguém dizer que “filmes violentos não constroem” ou que “as nossas únicas armas são o rosário e a palavra de Deus”.

Hoje, há quem se diz cheio do Espírito Santo, mas não falta às aulas do clube de tiro e é um expert em calibre de armas. Não falta espaço para convulsões tridentinas, revoluções das saias e para lounge dos “intelectuais” que gastam os seus charutos da ignorância nas redes sociais. Tudo farinha do mesmo saco e da mesma ideologia assassina. Canonizam a ignorância. Desfazem santos. Santificam os demônios. Farisaísmo travestido de “renascimento do cristianismo”. Cristianismo reduzido a pó.



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