Cultura

22/05/2020 | domtotal.com

Mudança de postura e foco - os museus pós-pandemia

É chegado o momento de uma profunda e íntegra revisão dos valores e do trabalho que vem sendo realizado no setor cultural

Não temos ainda uma tradição robusta de investimentos sociais, nem culturais ou artísticos, e não sabemos até que ponto a pandemia que nos assola deixará como legado uma cultura de aportes perenes. Na foto, o Museu Nacional após sua destruição
Não temos ainda uma tradição robusta de investimentos sociais, nem culturais ou artísticos, e não sabemos até que ponto a pandemia que nos assola deixará como legado uma cultura de aportes perenes. Na foto, o Museu Nacional após sua destruição (Tânia Rêgo/ Agência Brasil)

Eleonora Santa Rosa*

Embora não seja tema direto do artigo de hoje, como não fazer menção à saída lamentável e melancólica de Regina Duarte da Secretaria de Cultura, em seu pior papel, cujo comportamento subalterno e alienado acarretou sérias consequências ao já precário e fragilizado segmento no âmbito da composição organizacional da administração pública federal, alvo constante do escárnio e desprestígio do atual governo por meio do esfacelamento dos órgãos, cortes orçamentários, extinções e fusões estapafúrdias, em suma, de um sinistro programa de desmonte levado a cabo por gente que não tem a mais pálida ideia do que significa o lugar da Cultura para o desenvolvimento de um país. Muito terá de ser feito para a reconstrução desta área estratégica, como já tratado nos meus textos anteriores.

A abordagem que me interessa aqui, hoje, não se relaciona a protocolos, medidas de higiene ou outros aspectos necessários à abertura operacional dos museus e outros equipamentos artísticos e culturais emblemáticos, já em curso de modo restrito e cuidadoso em países europeus e algumas cidades americanas, mas a questões conceituais pertinentes à refundação/sobrevivência desses espaços.

Inúmeros e multifacetados ensaios, matérias, entrevistas e reportagens, de excelente qualidade, têm sido publicados em periódicos especializados internacionais e pela imprensa nacional, apresentando reflexões e provocações relevantes, muitas delas ousadas, em momento de descompressão e retomada do funcionamento desses centros e afins. Nesses primeiros passos pós-pandemia, que ainda ameaça a tudo e a todos (a recidiva é uma realidade possível), emergem discussões cruciais que funcionam como alavanca para a adoção de mudanças imperiosas nos mais diversos setores da produção, difusão, distribuição e financiamento da cultura e da arte.

Por dever de ofício recente e atenção permanente, interessa-me, sobremaneira, os entendimentos e as provocações emanados por profissionais na linha de frente de organizações museológicas governamentais e/ou independentes, privadas, de envergadura variada, no exterior, que respondem pela direção e pensamento crítico mais comprometido com a inovação de gestão no esteio da crise provocada pela Covid-19.

Se em nações referenciais, no que tange a políticas públicas de cultura e representação institucional consolidada, a situação é considerada preocupante, e, em muitos casos, gravíssima, pelo fechamento definitivo de museus e demissão massiva de trabalhadores culturais, especialmente aqueles abrigados nos setores educativos, receptivos, de pesquisa e documentação; no nosso caso, é dramática, agravada pelo período obscurantista que atravessamos, tributário de ideias e gestos arbitrários e preconceituosos.

Com expressiva parte de sua força produtiva desempregada/desmobilizada, sublocada e/ou deslocada para outras searas produtivas, assistimos, entre incrédulos e pasmos, a dissolução errática do sistema nacional de cultura e, com ela, a dizimação do legado de dados, experiências e sistematização dos conhecimentos adquiridos desde o período da redemocratização do país, graças à realização de pesquisas e séries históricas contínuas, e de estudos pormenorizados de nossas indústrias culturais.

Complica ainda mais o nosso quadro a rala experiência acumulada no campo da filantropia. Não temos ainda uma tradição robusta de investimentos sociais, nem culturais ou artísticos, e não sabemos até que ponto a pandemia que nos assola deixará como legado uma cultura de aportes perenes.

Em compensação, o paradoxo é que temos uma rara e significativa confluência de incentivos fiscais nas três esferas da Federação, lastreados em renúncia fiscal de impostos (IR, ICMS e ISSQN) no campo cultural. Uma ação importante e ao alcance dos representantes do setor, nas instâncias governamentais e legislativas, seria a mobilização para aprovação emergencial de editais tendo como base esses mecanismos. Ou seja, uma demanda organizada pela utilização das leis e de fundos, em medida excepcional, para programas e projetos prioritários nas áreas de infraestrutura e de geração e manutenção de emprego. Outra alternativa viável a curto prazo é o ordenamento dos gastos dispersos operados por variadas fontes e instâncias do poder público com coesão e foco estabelecidos pelo órgão responsável pelas políticas de Cultura em conjunto com as representações de classe e movimentos independentes.

Um outro caminho seria uma proposição aos grandes players dos patrocínios incentivados e/ou diretos, como as federações das indústrias e do comércio e congêneres, de uma agenda básica de investimentos direcionados a um rol de atividades e ações preestabelecidas em plano de incremento e reestruturação do setor, extramuros.

Em relação aos museus e aos desafios que ora se impõem, é essencial lembrar que são espaços icônicos da sociedade, com especial significado e lugar no amálgama das comunidades e na construção da ideia do coletivo, possibilitando sentidos de transcendência, pertencimento, identidade e descoberta de novos mundos.

A sobrevivência ou melhor a permanência dessas instituições está profundamente relacionada à sua acepção como serviço público essencial, “que cria alternativas para os efeitos devastadores da pandemia”.  Nesse sentido, é chegado o momento de uma profunda e íntegra revisão (ou refundação) dos valores e do trabalho que vem sendo empreendido. Sua missão reparadora é estratégica e é preciso coragem para promover as mudanças nas linhas de pensamento, priorizando as ideias e práticas de cooperação, compartilhamento, associativismo, inovação, transformação e ruptura de posições acomodadas e acomodadoras.

É fundamental que os museus sejam o lugar da solidariedade, que funcionem em prol da descentralização cultural, da democratização de bens e serviços, de reequilíbrio distributivo de investimentos (não focados tão-somente na sua própria coleção), na exteriorização de seus saberes construídos através do legado de muitos, da experimentação.

A crise instalada, de abrangência mundial, oferece a chance de revisão de modelos de funcionamento e gestão, de administração e composição de conselhos e de fontes de patrocínio desses equipamentos, podendo significar um erro fatal a não remodelação de sua configuração, de seu modus operandi, de sua cultura de atuação e inserção.

Inaugura-se um novo tempo, tempo da arte nas ruas, da arte pública, da priorização da relação dos museus com as comunidades, do extravasamento de seus programas educativos e de formação, conectando de modo mais intenso e duradouro saúde, educação, cultura, arte, história, memória, inovação, passado, presente, futuro, tudo ao mesmo tempo agora. “Museologia à serviço da comunidade”, inversão da lógica do público com base no turismo predador, da prevalência da mentalidade mercantil em conselhos e decisões. A fadiga do modelo vigente já era evidente, assim como as fissuras do mundo dos curadores descolados da realidade, a serviço de seus enormes egos.

Se por um lado, a realidade aponta déficits gigantescos, desmobilização, demissões, cancelamentos de exposições, adiamentos, encolhimentos, encerramentos e falências etc., por outro, emerge do mundo pós-pandêmico a oportunidade de revisão radical dos princípios de organização e funcionamento do setor, da formulação de programas intersetoriais e transversais nas mais diversas esferas públicas, com foco na comunidade, e atração de novas modalidades de parcerias e de atração de capital.

Sentido de reparação, visão local, caráter público, serviços comunitários, equitativa distribuição de aportes e a certeza de que os artistas saberão lidar com os desafios, mas precisam estar vivos e ativos, respeitados e considerados, enfeixam o corolário do que aqui foi exposto. “Estamos no limiar de uma nova ética de investimentos na história que liga a prática artística à organização comunitária à e construção de movimentos mais permeáveis e participativos”, os museus têm lugar estratégico nesse novo mundo. Do contrário, debacle sem fim!


*Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, foi diretora do Centro de Estudos Históricos e Culturais da Fundação João Pinheiro, ex-diretora de captação e Marketing da Fundação Clóvis Salgado e ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio – MAR. Responsável pela primeira fase de concepção e implantação do Circuito Cultural Praça da Liberdade na capital mineira, pela criação do Museu da Cachaça de Salinas e pela concepção e implantação do Plug Minas. Consultora, gestora e estrategista cultural, é diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, onde desenvolveu, dirigiu e/ou coordenou a implantação de diversos projetos de relevância nacional como o Museu de Artes e Ofícios em BH, o Museu da Liturgia em Tiradentes, o Projeto de Educação Patrimonial Trem da Vale em Ouro Preto e Mariana, dentre outros. É autora do livro Interstício.



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