Cultura

25/05/2020 | domtotal.com

Memoria real e inventada

Vou embaralhar as cartas, diluir-me e vocês é que adivinhem o que é memória e o que é ficção

Dia desses dilatei as pupilas e dei de usar óculos para enxergar melhor o meu passado que a essa altura, sinceramente, já não sei se é real ou se é inventado
Dia desses dilatei as pupilas e dei de usar óculos para enxergar melhor o meu passado que a essa altura, sinceramente, já não sei se é real ou se é inventado (Anne Nygård / Unsplash)

Ricardo Soares*

Sempre tive boa memória. Mas agora se ela me trai ou se esvai eu a invento. É a licença que me dou desde que fiz 60 anos na Córsega. Isso porque também percebi que a memória exata virou coisa de historiador e não de jornalista visto que o jornalismo mudou e mais ainda no Brasil se converte em ficção. E, o pior, ficção cometida por maus escritores.

Isso posto, vou agora embaralhar as cartas, diluir-me e vocês é que adivinhem o que aqui é memória e o que é ficção. Nasci obviamente do encontro carnal do meu pai com minha mãe, concebido num barracão improvisado no que um dia seria Brasília. Nasci, pois, com a nova capital recém-inaugurada e meu destino de neo candango me levou depois, com pai e mãe, para os confins de Minas, onde esperavam novas obras e traquejos. Cresci entre Diamantina e Conceição do Mato Dentro e passei uma temporada em São Gonçalo do Bação, distrito de Itabirito que vem sendo destruído pela mineração. Ali comi muito pastel de angu e feijão com torresmo.

Casei cedo, tive dois filhos e vim para São Paulo, ou melhor, Grande São Paulo, onde bati pernas e fugi de empregos entre Osasco, Guarulhos e Diadema. Ali, num comício, vi uma vez um peão que virou presidente da República e comi pipoca com bacon na companhia de caminhoneiros. Tornei-me um deles um tempo e andei pela Belém-Brasília, Cuiabá-Porto Velho e até na Transamazônica, onde vi um coronel grisalho e ladrão a corromper empreiteiras para que a estrada não passasse em suas terras. Um dia deixei uma carga em Aparecida, que já foi do Norte, e encontrei a fé. Virei sacristão, diácono e só não me tornei padre porque me apaixonei por uma ex-beata com quem fui viver meu segundo casamento.

Depois desse suplício escolhi ter a vida que queria, bicho solto no mundo, sem lenço e sem documento. Aliás, só a cópia autenticada do meu RG. Andei a esmo criando barriga e nadando de braçada quase nada quando me disseram que eu já era quase idoso e podia andar de graça no metrô de São Paulo, muito além de Brás, Bexiga e Barra Funda. Assim fiz e faço evocando Adoniran Barbosa, Geraldo Filme e Paulo Vanzolini, provas de que São Paulo nunca foi o túmulo do samba. Aliás, por conta de amar samba, desprezei todas as hediondas duplas sertanejas.

Dia desses dilatei as pupilas e dei de usar óculos para enxergar melhor o meu passado que a essa altura, sinceramente, já não sei se é real ou se é inventado nesse quase ocaso de uma civilização que eu jamais havia imaginado.

*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.



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