Cultura

25/05/2020 | domtotal.com

Diário de um confinado

Coronavírus trouxe aos pulmões do mundo a degeneração; e às cabeças, a oportunidade de pensar melhor a vida

Aprendi também a ver coisas boas que a televisão nos traz, principalmente as produções disponíveis na Netflix. Se passar incólume pela pandemia, vou decretar a prorrogação do meu confinamento
Aprendi também a ver coisas boas que a televisão nos traz, principalmente as produções disponíveis na Netflix. Se passar incólume pela pandemia, vou decretar a prorrogação do meu confinamento (freestocks / Unsplash)

Afonso Barroso*

Faz pouco mais de dois meses, e já aprendi muita coisa com o meu isolamento. Pra começo de conversa, aprendi a ficar em casa sem reclamar da vida, o que de certa forma eu já sabia fazer, mas aprimorei.

Aprendi a admirar mais a senhora Sônia, que é há séculos minha dona primeira e única, pela preocupação dela em fazer a comida mais saudável e saborosa e pelo cuidado que ela tem com a casa, as coisas da casa e as pessoas da casa (eu, o neto Felipe e a mãe do neto, Lívia).

Aprendi a ler mais, ainda não tanto quanto deveria, mas o suficiente para exercitar com mais frequência o hábito que sempre tive de buscar conhecimento nas obras de grandes mestres do pensamento, em verso e prosa. Se esquecê-los a gente esquece que são geniais, que eles nos ajudam a pensar melhor e, consequentemente, a viver melhor. Nos dias de hoje, é indispensável, por exemplo, ler cronistas como Fernando Fabbrini e alguns outros.

Aprendi a escrever mais, até porque preciso disso como forma e meio de complementar o rendimento da minha parca aposentadoria. Tenho de enviar crônicas para esta excelente revista virtual que tem o sugestivo nome de Dom Total. São publicadas às segundas e quintas-feiras. Escrevo coisas que às vezes agradam até a mim mesmo, que sou exigente à beça e à Bessa (de um Bessa que conheço).

Aprendi também a ver coisas boas que a televisão nos traz, principalmente as produções disponíveis na Netflix. Estão lá as melhores coisas que a tevê pode oferecer, entre documentários e séries de aventuras, filmes policiais, comédias e ficção científica, em muitos casos tudo isso misturado. Aprendi também a ver os noticiários da Globonews e da CNN, que rivalizam em qualidade, com ligeira vantagem para o canal global. E vejo alguns poucos programas de entretenimento.

Aprendi a me divertir com minhas próprias bobagens, como as que escrevo para exibir presunçosamente no meu perfil do Facebook. Os posts que ali assino são muito mais para meu próprio deleite do que para leitura e curtida dos amigos virtuais. Não chegam a ser atraentes e filosóficas como as do grande amigo e frasista Jésus Rocha, e informativas como as de outro Rocha, o excelente jornalista Rubem Ur. Não chegam a tanto, mas gosto das minhas coisinhas assim mesmo. E me alegra saber que tem outras gentes que gostam, além de mim. Poucas, mas tem. E todas de alto nível pensante.

Aprendi também a refletir sobre a exiguidade da vida e a insignificância do ser humano. Personagem celular do confinamento, microscópico e mortífero, o coronavírus trouxe aos pulmões do mundo a degeneração; e às cabeças, a oportunidade de pensar melhor a vida. Saberá Deus da existência desse vilão invisível? Ou será que o Criador abriu mão de vez das suas criaturas racionais, deixando-as à mercê do diabo?

Aprendi ainda (quase escrevi outrossim) que o nome coronavírus vem de corona, porque o raio do vírus tem forma de coroa. E que Covid-19 é uma mistura sintetizada: CO de corona, VI de vírus, e D de disease, que é doença em inglês. O 19 é por causa do ano em que apareceu para pandemizar o mundo.

E aprendi (ou melhor, confirmei), nas minhas visitas às redes sociais, como existem diferenças tão gritantes entre pessoas neste mundo. Algumas são inteligentes, ponderadas, sensatas, que sabem pensar e expor os pensamentos. Outras, ao contrário, parecem desprovidas de cérebro, ou não sabem para que foi feito esse fantástico órgão do corpo humano. Vivem de radicalismo e ofensas.

E de tanto aprender, aprendi ou reaprendi que não sei nada. Ninguém sabe, nem os eruditos, nem os apedeutas, nem os fracos, nem os heróis, nem os superdotados. Somos todos uns micróbios, talvez não tão malévolos como o coronavírus, mas ínfimos, ignorantes, insignificantes, inúteis na maioria das vezes.

Por todas essas razões, resolvi que quando passar a pandemia, se eu a ela sobreviver, vou decretar a prorrogação do meu isolamento com prazo indeterminado. Quero continuar confinado, pensando, pesquisando, me divertindo, me reciclando e aprendendo. Até quando Deus assim o permitir.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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