Cultura TV

26/05/2020 | domtotal.com

A concessão meio pública de Silvio Santos

Retomada do debate da democratização dos meios de comunicação no Brasil é pauta urgente

Cobertura do governo sem perspectiva crítica pela Record e SBT se assemelha mais a propaganda e assessoria de imprensa do que jornalismo
Cobertura do governo sem perspectiva crítica pela Record e SBT se assemelha mais a propaganda e assessoria de imprensa do que jornalismo (Alan Santos/PR)

Alexis Parrot*

Era o final dos anos 80 e Boris Casoy fez história à frente do TJ Brasil no SBT, inaugurando no país a figura do âncora à frente de um telejornal. Embora seu bordão "é uma vergonha" tenha desbotado com o passar dos anos, naquela época era uma sensação, junto com os comentários críticos que fazia após a exibição das reportagens.

Depois veio o Aqui Agora, que trouxe para a televisão a linguagem popular dos programas policiais de rádio. Apesar do gosto pela pauta pingando sangue e atravessar a barreira da ética em inúmeras ocasiões, o formato influencia até hoje. Pode ser considerado o pai de atrações como Balanço Geral e aquilo que o Datena e seus imitadores fazem, estranhamente sem nenhum constrangimento aparente.

De lá para cá, o jornalismo na emissora de Silvio Santos foi perdendo o protagonismo, equipes e investimentos. Passou por fases em que era simplesmente desativado ou escanteado para a madrugada, até chegar ao cúmulo da aberração que é o Primeiro impacto, apresentado por duas criaturas alienígenas que respondem pelo nome de Marcão do Povo e Dudu Camargo.   

Mas nada se compara ao espetáculo mambembe que pudemos acompanhar durante o último final de semana. Apesar de fartamente divulgado pela imprensa especializada, não custa engrossar o coro dos colegas que cobrem e analisam nossa televisão. Se não para  denunciar os desmandos de Silvio Santos, pelo menos alardeá-los quantas vezes for possível.

Após o ministro do Supremo Celso de Mello ter derrubado o sigilo das imagens relativas à fatídica reunião presidencial que resultou no pedido de demissão do ministro da Justiça, Sergio 'Telegram' Moro, parece que o patrão ficou temeroso de se unir ao cordão que (com razão) cairia matando sobre Bolsonaro.

Depois de algumas idas e vindas, acabou derrubando a exibição na sexta à noite do Jornal do SBT, principal telejornal da emissora. Sua intenção óbvia era garantir que o tal vídeo revelador não fosse sequer citado durante a programação do canal. Por falar em negacionismo, Silvio é desses que acredita ser suficiente não olhar para um fato para que ele deixe de existir.

Após a suspeita de que a atitude teria sido motivada por alguma reclamação vinda do Planalto, o marido de sua filha Patrícia, o deputado federal potiguar Fabio Faria, foi ao Twitter no dia seguinte para desmentir qualquer insinuação:

"Mentira, mentira, mentira. Jamais houve reclamação do governo sobre a divulgação do famoso vídeo no SBT. O governo comemorou o vídeo. Jamais o Silvio aceitaria qualquer tipo de interferência. Tanto que o vídeo vai na íntegra hoje no programa dele que é o de maior audiência do SBT." 

Depois de assistir ao tal vídeo, Silvio mudou mesmo de ideia e, por concordar que sua divulgação favoreceria o presidente, decidiu colocar tudo no ar. Como é de seu feitio, acabou recuando novamente e o que se viu na telinha do SBT foi um compacto editado de apenas nove minutos, mas com direito a todos os palavrões possíveis.

Recuando um pouco no tempo, no dia 18 de abril, foi revelada no UOL por Cristina Padiglione uma recomendação feita por Silvio Santos de próprio punho, direcionada aos funcionários do SBT, na verdade uma indireta diretíssima. Dizia a nota:

"A minha concessão de televisão pertence ao governo federal e eu jamais me colocaria contra qualquer decisão do meu 'patrão' que é o dono da minha concessão. Nunca acreditei que um empregado ficasse contra o dono, ou ele aceita a opinião do chefe, ou então arranja outro emprego."

Juntando lé com cré, tudo se encaixa como em um quebra-cabeças. O genro disse a verdade sobre o homem do baú não aceitar interferências na direção de sua emissora – mesmo porque isso nem seria necessário. Silvio está mais fechado com Bolsonaro do que o velho da Havan.

Erra grosseiramente, porém, ao entender que o dono de sua concessão é o capitão. A concessão não é particular, militar ou sequer presidencial; é pública. É conosco, o povo, e não com Bolsonaro que ele tem compromissos e a quem deve qualquer tipo de explicação. Divide com ele o entendimento casuísta o proprietário da Record, o empresário da fé Edir 'nada a perder' Macedo – mas vale lembrar que o lugar que ocupam hoje já foi cativo da Globo durante muitos anos.  

Essa distorção, quer seja por ignorância, casuísmo, interesse ilícito ou político, é um dos principais motivos que justificam para ontem a retomada do debate da democratização dos meios de comunicação no Brasil.

Silvio, mais anacrônico impossível, pisa na bola a cada nova oportunidade que surge. E, quando não surgem, ele mesmo as cria, sem dificuldade alguma. Como diria Boris Casoy nos bons tempos, "é uma vergonha".

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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