Religião

29/05/2020 | domtotal.com

Amor e misericórdia: faculdades indispensáveis à construção de uma vida de sentido

Amor é não-morte, condição de transcendência que abre a possibilidade da experiência de sentido.

Por vezes, a ilogicidade do amor precisa ser invocada para mantermo-nos abertos à diversidade humana
Por vezes, a ilogicidade do amor precisa ser invocada para mantermo-nos abertos à diversidade humana (Unsplash/ Helena Lopes)

Anderson Dias Gonçalves*

Nossa suprema felicidade ou infelicidade depende da qualidade do ser com o qual nos unimos através do amor.
(Espinosa,
Tratado sobre a emenda do intelecto)

O amor/caridade é uma das virtudes teologais que mais desafia o ser humano, na possibilidade de sua expressão ética. A sua prevalência como potência humana tem sido ameaçada por tempos escusos e obnubilados, diante do egocentrismo humano, que sustenta cada vez mais a busca da autossuficiência como fonte de verdadeira felicidade. Esquecendo da horizontalidade do ser, destinamos nossas experiências a contatos superficiais e vazios através da relativização da importância que tem a relação humana na construção de uma experiência de transcendência. Buscar uma vida de sentido, como já sabemos, só é possível quando admitimos a condição humana como abertura para a relação com o outro. Relação essa que se dá por meio do diálogo que, por sua vez, torna-se o contexto propício para partilhar vivências e construir um saber compartilhado que fundamenta a experiência humana, na possibilidade da sua constituição como ser em relação.

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Recorrendo ao conceito de amor, em Espinosa, entendemos a origem dos afetos que experimentamos e, portanto, o lugar que ocupa o tema do amor. Entendendo o amor como uma composição de um prefixo de negação (“a”) e a abreviação da palavra morte (“mors”), Espinosa nos revela a essência dessa virtude que nos direciona para toda possibilidade de vida. Aqui entende-se que o amor é não-morte, numa perspectiva que supera a condição puramente física, mas também adquire a condição de transcendência como possibilidade de experiência de sentido.

Acredito que essa potência humana é tratada com bastante profundidade pela experiência profética de Oseias, que nos faz lembrar a condição do amor na perspectiva do hino que Paulo apóstolo apresenta na sua carta aos Coríntios (1Cor 13,1-13). É nesse amor doação que se fundamenta a profecia de Oseias, que nos mostra uma perspectiva altamente ética, espelhada no cuidado que o Absoluto apresenta para com sua criação e em especial para com aqueles a quem se dá a conhecer.

Se o povo peca por falta de conhecimento de Deus (cf. Os 4,6), fica evidente que o mundo que nos rodeia precisa identificar essa faculdade do amor sem medidas, cuja procedência e origem está em Deus, para que voltemos à origem criacional no sentido de identificarmo-nos à imagem e semelhança dele. Como seres capazes de amar, só o podemos fazer na capacidade de expressarmos misericórdia em relação ao outro diferente de mim. Começando pela abertura à relação pelo diálogo, atitude tão ameaçada pela ditadura da opinião presente na polarização política atual, é preciso reconhecer que a morte se faz presença no fechamento para a construção de saberes compartilhados.

No drama pessoal de Oseias fica evidente que a infidelidade que causa danos irreparáveis sempre será superada pelo amor daquele que é Absoluto, permitindo-nos afirmar que de fato não há nada que possa nos separar do amor de Deus (cf. Rm 8,39), mas que a impossibilidade de experimentá-lo se inicia quando há a incapacidade de olharmos para as pessoas na perspectiva da misericórdia. Este pilar teológico do ato profético que nos convida a sair para um encontro de sentido com o outro, revela a necessidade intrínseca do ser humano de ser aberto à relação dialogal. Ato difícil em tempos de isolamento, mas que somente representa um agravamento diante de uma realidade já estabelecida pelo contexto atual, marcado pelo individualismo exacerbado. Triste quando acreditamos em poder assumir o lugar de Deus para julgar  indiscriminadamente, achando que é possível conhecer a totalidade do outro e reduzi-lo numa categorização desumanizadora. Chegamos a promover o ódio e a divisão justificados por um conhecimento limitado que nos faz esquecer que cada ser é um universo, cujo mistério aí também habita e damo-nos o direito de acreditar e propagar a maior punição que por séculos fora disseminado: dizer quem estará ou não com os vasos cheios de azeite no dia da chegada do Noivo tão esperado.

Querer misericórdia e não sacrifício, conforme anunciado por Oseias (6,6), passa pela capacidade de saber, até em nossas palavras, que somos seres em construção e em perene crescimento pelas experiências que acumulamos, para que haja mais prevalência na esperança anunciada de que Deus é um lar para onde sempre poderemos voltar. Há uma beleza encantadora na diversidade que nos rodeia e ela precisa ser enaltecida para criarmos experiências de vida, de amor em Espinosa, de misericórdia em Oseias. O profeta percebe que a origem do mal vivido por Israel passa pela incapacidade de perceber o querer de Deus na perspectiva de viverem o afeto dentro de uma relação de amor e bem-querer. Por vezes, a ilogicidade do amor precisa ser invocada para mantermo-nos abertos à diversidade humana, que nos coloca num processo de ampliação contínua da consciência possível.


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*Anderson Dias Gonçalves é aluno do curso de Teologia, na PUC-Minas campus Uberlândia.



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