Religião

28/05/2020 | domtotal.com

Ecumenismo: em defesa da vida, contra as forças da morte

Em tempos de pandemia, Semana de Oração pela Unidade Cristã torna-se mais necessária

Segundo a  'Ut unum sint', 'os crentes em Cristo não podem permanecer divididos'
Segundo a 'Ut unum sint', 'os crentes em Cristo não podem permanecer divididos' (Pixabay)

Élio Gasda*

Que todos sejam um (Jo17, 21)! Esse foi o desejo de Jesus na última ceia. A reconciliação da humanidade com Deus e das pessoas entre si é um dos maiores desafios cristão. Ninguém foi feito para viver só, mas existe na humanidade uma tendência para segregação.

Este ano a Igreja celebra 25 anos da encíclica Ut unum sint (UUS), que é um apelo à unidade, dentro da Semana de Oração pela Unidade Cristã. Preparada pelas Igrejas cristãs de Malta e Gozo a semana tem como tema “Eles nos demonstraram uma benevolência fora do comum” (At 28,2) e como o lema “Gentileza gera gentileza”!

O tema, escolhido ainda em 2019, não poderia ser tão atual. A ideia inicial era colocar em evidencia os migrantes e refugiados que em várias partes do mundo enfrentam os perigos por terra e mar para fugir da pobreza, dos desastres naturais e das guerras. Enfrentam as indiferenças políticas, econômicas e humanas. Entre eles estão cristãos e não cristãos. Todas as vidas importam.

Em tempos de pandemia o evento torna-se mais necessário. “Os crentes em Cristo não podem permanecer divididos” (UUS, 1) precisam de coragem e vontade sincera para superar o egoísmo. Papa Francisco alerta que “a indiferença egoísta é uma crise pior que a pandemia”, nos leva a incapacidade de cuidar do outro, daquele que está solitário, abandonado e doente, mas também é uma “oportunidade para nos prepararmos para nosso futuro coletivo”.

O esforço de recuperação precisa envolver a todos. Caso contrário, “não haverá futuro para ninguém”. É preciso misericórdia com os que estão vulneráveis. No Brasil antes mesmo da pandemia mais de 23 milhões de brasileiros faziam parte do saldo perverso de pessoas em situação de vulnerabilidade financeira e social, em maior número os negros, as mulheres, homossexuais e trans.

A grande motivação para a Semana de Unidade é para que todas as comunidades, independente de sua tradição confessional, celebrem Pentecostes, maior representação da unidade. Prova de que a diversidade fortalece e une para uma só ação: a caridade. Como a comunidade de Malta acolheu Paulo e outras pessoas após um naufrágio, precisamos agir com extraordinária bondade, acender a fogueira para aquecer corações aflitos e fornecer suprimentos aos que tem fome física e de justiça.

Tudo o que ameaça a sobrevivência da humanidade precisa de ser enfrentado em conjunto. “A unidade cristã só será autêntica quando a desigualdade social entre cristãos for superada” (dom Manoel João Francisco). O evangelho, a fé, a esperança, os dons do Espirito Santo nos unem para além das igrejas, mas é o amor e a caridade que nos une em um mesmo propósito, a acolhida do outro.

A unidade cristã emerge da consciência diante dos grandes problemas sejam eles sociais, políticos, ambientais, econômicos, mas sem priorizar a colaboração apenas entre cristãos, pois “tudo está interligado”. A vida plena é responsabilidade de todos.

Ecumenismo é o processo de busca unitário. O termo ecumênico tem origem na palavra grega oikouméne e significa mundo habitado, no sentido de povo civilizado aberto a cultura e espaço geográfico. Restringir seu sentido em unidade das igrejas cristãs é não se abrir ao diálogo do pluralismo religioso: “a unidade do Espírito harmoniza todas as diversidades”... “a diversidade é bela quando aceita entrar num processo de reconciliação”(Evangelii gaudium, 230).

O ecumenismo é uma prioridade do pontificado de Francisco, um convite ao trabalho conjunto “para dar voz ao grito dos pobres”, para que não sejam abandonados às leis de uma economia que muitas vezes considera o homem “apenas como consumidor”, ou um descarte, vida substituível.

As vidas brasileiras estão assim, sendo destratadas pelo desgoverno Bolsonaro. Não importam, são apenas CPFs, se morre é substituível. Na economia de Paulo Guedes não há espaço para dor, para o luto, apenas para a vida das grandes empresas. Ecumenismo não é apenas um movimento favorável à união das igrejas cristãs. É compromisso fraterno pela justiça e pela paz. Diante deste projeto de morte, os cristãos devem defender a dignidade humana. Ninguém pode ficar indiferente na luta pela vida. Religiões cristãs não podem compactuar com a violência e nem despertar sentimentos de ódio.

O que une os cristãos é o amor ao próximo. Gentileza gera gentileza: “O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles” (Mt 7, 12).


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*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)



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