Religião

29/05/2020 | domtotal.com

Por trás das fake news

A era dos 'mercadores da dúvida e da confusão'

Livro 'Os mercadores da dúvida', de Naomi Oreskes e Erik Conway
Livro 'Os mercadores da dúvida', de Naomi Oreskes e Erik Conway (Divulgação)

Mirticeli Medeiros*

Fake news. Com o advento das redes sociais, o termo se tornou amplamente difundido. Em alguns casos, chega até a ser mal empregado. Quem é escravo de ideologias, sobretudo no Brasil, transforma qualquer ataque a seu messias político numa “perseguição da grande mídia”. Claro, todo e qualquer meio de comunicação possui sua linha editorial, e por mais que o uso de determinadas linguagens pareça forçado, o preocupante é que, hoje, mitos não podem mais ser questionados. E num lugar onde a mídia não questiona, a democracia está com seus dias contados.

Cristalizaram determinadas figuras dentro de uma bolha de santidade, e quando nos deparamos com os “políticos que estão no mercado”, vemos o quanto o brasileiro médio carece de referências. Qualquer “louco da última hora” se apropria do status de libertador hoje em dia. Mas a verdade mesmo é que jamais nos libertaremos de nada enquanto continuarmos canonizando a ignorância de todos os lados.

E não se trata de criar uma “elite cultural brasileira”, incentivando a ascensão de figuras soberbas e “iluminadas” que surgem das prateleiras empoeiradas de uma biblioteca repleta de livros viciados. Mais do que nunca, é necessário incentivar o debate e vencer essa polarização insuportável, a qual impulsiona, ao invés disso, a formação de uma “elite cultural da imbecilidade”. Sem dúvida, gritos, pancadões, palavrões, jargões da lacração e todos os superlativos de um grupo treinado para eliminar todo discurso que se opõe, não salvará o Brasil de absolutamente nada. Pelo contrário: o conduzirá cada vez mais para o buraco.

E o que vemos por aí é um fenômeno novo que não pode ser comparado ao messianismo de Canudos ou aos populismos do século passado, mas colhe desses movimentos alguns elementos. Os especialistas já falam de um neopopulismo, caracterizado por uma “doutrina de ideias” que se desenvolve independente do espectro político no qual se estrutura. Em 2013, o filósofo búlgaro Tzvetan Todorov também falava de um novo messianismo caracterizado pela “promoção de guerras humanitárias”.

O “vamos salvar o Brasil de...” virou slogan de várias propagandas eleitorais, transformando o diferente, o outro, não simplesmente num adversário político, mas em alguém que precisa, em outras palavras, ser atacado na sua dignidade, escorraçado, eliminado e até agredido. O pior de tudo é justificar essa ações com as prerrogativas do “homem de bem” e do “bom cristão”, o que é completamente contraditório.

Sim, o buraco das fake news está muito mais embaixo. São ideologias populares que manipulam discursos e, ainda por cima, os financiam. Falo de quem fatura muito com o pânico, com os negacionismos e com essa “guerra fria” católica. O livro “Os mercadores da dúvida”, dos historiadores Naomi Oreskes e Erik Conway, que já citei em outros artigos, é profético. Os especialistas mostram como cientistas influentes emprestaram sua visibilidade para contestar a ciência a partir de acordos milionários com políticos, empresários e lobistas. O mais chocante é que há religiosos que têm vendido a alma dessa forma, não somente por causa de suas convicções particulares, mas porque os “ismos” do tempo presente se tornaram rentáveis. É mais que fake news; é fazer vista grossa para a incoerência.


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*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.



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