Religião

30/05/2020 | domtotal.com

Por uma profecia do amor e da misericórdia

Oseias lê a relação entre Deus e povo desde a ótica do amor, o que influencia o Novo Testamento

Foi com a profecia de Oseias que a compreensão da aliança ganhou contornos mais afetivos
Foi com a profecia de Oseias que a compreensão da aliança ganhou contornos mais afetivos (Unpslash/ Roman Kraft)

Felipe Magalhães Francisco*

Oseias é um dos mais antigos profetas escritores. Sua atuação remonta ao século oitavo antes do nascimento de Jesus. Podemos considerar que sua profecia foi um divisor de águas no pensamento bíblico, de modo que influenciou sobremaneira outros profetas e até mesmo o Novo Testamento. Seu olhar teológico é original e bastante existencial: a partir de uma experiência tão própria, soube ler a relação entre o povo e Deus, pintando-a de modo surpreendente, tal como poderá ser lido num dos artigos deste nosso Dom Especial.

A aliança, termo chave para compreender a relação entre o povo de Israel e Deus, é uma palavra buscada no contexto dos pactos de vassalagem, muito comuns nos tempos antigos, entre os povos do Oriente Próximo e Médio. O risco do uso da palavra era que se considerasse o pacto entre o povo e Deus, num tom meramente jurídico e formal. Para a fé, porém, a eleição de Israel para ser o povo da aliança diz respeito à própria promessa que Deus havia feito aos patriarcas, e revela uma situação bem mais profunda que um simples acordo.

Foi com a profecia de Oseias que a compreensão da aliança ganhou contornos mais afetivos, na linguagem, quando ele usa a metáfora do casamento para expressar o significado da relação entre o povo e Deus. Essa aliança é, pois, uma aliança de amor; o que ajudou a realçar o olhar profético de Oseias. O amor, porém, não está imune ao fracasso, o que implica a necessidade – tão própria do amor verdadeiro – da misericórdia e do perdão. Não é à-toa, como se pode perceber, que a profecia de Oseias tenha ecoado tão fortemente no Novo Testamento e, em consequência, na leitura cristã sobre a comunhão com Deus, à qual somos chamados por pura graça de amor.

A mensagem cristã, para ser legítima, eficaz e possível para nossos tempos, deve ser transmitida bebendo na fonte daquilo que nos inspira Oseias. Afinal, foi isso que Jesus, de uma maneira radicalmente nova, mostrou-nos ser possível: relacionarmo-nos com Deus por amor, de forma gratuita. O mundo está cediço de sentido e apenas um Deus verdadeiramente Amor pode ser uma possibilidade efetiva para nossos tempos. Os cristãos e cristãs, nesse sentido, se quiserem bem cumprir sua missão, devem anunciar esse Deus ao mundo, se necessário, usando palavras, tal como nos exortou Francisco de Assis.

O cristianismo precisa ser profético, em nossa história. Beber da fonte de Oseias, para dele aprender uma pedagogia, é um caminho bastante legítimo e iluminador para nossa missão. É nesta perspectiva que nos dedicamos a lançar um olhar sobre a profecia de Oseias, neste Dom Especial. No primeiro artigo, Infidelidade e Amor, Márcia do Nascimento nos situa no contexto histórico e existencial do Profeta Oseias. Em seguida, Claudio da Silva nos propõe o artigo Rompimento pela infidelidade; perdão por amor, no qual lança um olhar sobre a teologia de nosso Profeta. Por fim, Anderson Gonçalves atualiza a compreensão teológica para nossos tempos, com o artigo Amor e misericórdia: faculdades indispensáveis à construção de uma vida de sentido.

Boa leitura!




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