Cultura

29/05/2020 | domtotal.com

A 'moça perdida'

Família perdida, herança perdida, educação perdida, direitos perdidos até perder tudo de vista

'A moedora', de Diego Riveras
'A moedora', de Diego Riveras (Banco de México/ Museo Nacional de Arte, INBA)

Eleonora Santa Rosa*

Na caminhada matutina, seguindo por caminho diferente em função de compromissos domésticos, em dia de céu lindo e vento frio, ao iniciar a descida por uma larga avenida, notei uma mulher ao longe, do mesmo lado do passeio em que estava. Atravessei, e ela fez o mesmo, vindo em minha direção. Ao se aproximar, sinalizei que guardasse distância, ambas de máscara, ela muito aflita, apreensiva, com olhos marejados, pediu-me auxílio a respeito de uma via cujo nome eu não conhecia. De pronto, consultei meu celular e não localizei a rua.

Completamente perdida, disse-me que não sabia ler nem escrever e suplicou para que eu olhasse o papel amarfanhado que tinha nas mãos. Constava nele, mal-escrito em letra miúda, o endereço que buscava. Trouxe consigo o papelzinho para que pudesse mostrar a alguém em caso de dúvida, pois havia decorado a informação. Nervosa, contou-me sobre a sua vida e que estava em BH à procura de um vendedor conhecido que lhe mandou um recado, por intermédio de uma outra pessoa moradora de sua cidade. A mensagem era para que fosse a casa desse ‘cidadão’ porque ele iria presenteá-la com um eletrodoméstico e uma determinada quantia em dinheiro em troca de um bilhete de loteria. Não entendi nada e achei tudo estranhíssimo. Perguntei-lhe do que se tratava, e ela relatou, novamente, a mesma estória. Pedi-lhe que se acalmasse para que pudesse compreender melhor a situação. Nesse ínterim, passa por nós uma caminhante, em sua volta matinal, e pergunta o que estava ocorrendo, contei-lhe, brevemente, o que se sucedia e que tentava, naquele momento, localizar o endereço indicado pela ‘moça perdida’.

Nesse ponto da conversa, ela nos mostra um bilhete de loteria. Espantadas com o inusitado da cena, conferimos o site da CEF para checagem dos números e identificação do sorteio. Dito e feito, bingo! Perplexas com a situação, depreendemos que o recado que a ‘moça perdida’ havia recebido para ir ao encontro da tal pessoa era, na verdade, uma armadilha. Disse-nos que esse homem havia anotado o seu jogo (detalhes ficam para outro momento) e feito uma brincadeira – ‘’caso ela ganhasse, uma parte do prêmio seria dele”.  De fato, ela havia sido contemplada com o primeiro prêmio e o valor era bem expressivo.

Na seqüência, indaguei-lhe sobre seus parentes, não os tinha! Contou-nos, ainda, que quando era muito moça havia sido expulsa por suas tias da casa de seu pai, logo após o falecimento dele, e que as estas obrigaram-na a assinar um documento de dez páginas (carimbando seu polegar em todas as folhas), retirando-lhe tudo, inclusive sua carteira de identidade e demais documentos. Boquiaberta, perguntei-lhe sobre seus patrões, e mais abismada fiquei sobre suas condições de trabalho, com remuneração ínfima e carga extenuante, aos 43 anos de idade, sem direito à carteira de trabalho.

Resolvemos, então, ir a uma agência da Caixa, e a caminhante nos levou em seu carro. Decidimos que eu ficaria com a “moça perdida” no automóvel enquanto ela esclareceria o assunto no banco. Para a sorte da ‘moça perdida’, a atendente informou que o resultado do sorteio já tinha algum tempo, mas que em função da Covid-19 a CEF havia dilatado o prazo de resgate por mais um mês. Frisou, para o espanto da caminhante, que aquele dia era o prazo final da validade do bilhete, e que poderia haver somente uma nova validação, o que foi feito. Ficamos pasmas com a coincidência!

Como a ‘moça perdida’ era analfabeta, explorada pelos patrões e alvo fácil de um espertalhão, sugerimos que procurasse o pároco de sua cidade ou alguém de sua mais estrita confiança que pudesse colaborar, com segurança, na solução das providências necessárias.

Impactada com a notícia, ofereceu-nos uma parte do prêmio em troca de ajuda, que declinamos, e passamos a levantar as possibilidades de auxílio. Sua única preocupação era adquirir uma casa própria, recuperando a dignidade e o que lhe havia sido roubado. Estávamos no carro quando manifestou o desejo de ir ao banheiro e aproveitamos o rápido intervalo de sua saída para conversarmos a respeito da melhor atitude em relação ao imbróglio, pois antevíamos a confusão e a dor de cabeça que essa situação absolutamente extraordinária acarretaria.

Embora não tenha demorado mais do que dez minutos, se tanto, a ‘moça perdida’ mudou de ideia e pediu que a deixássemos em alguma parada de ônibus. Imediatamente voltamos ao local onde tudo começou, ela seguiu em direção ao ponto, eu dei seqüência à minha caminhada e a caminhante tomou o rumo de casa.


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*Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, foi diretora do Centro de Estudos Históricos e Culturais da Fundação João Pinheiro, ex-diretora de captação e Marketing da Fundação Clóvis Salgado e ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio – MAR. Responsável pela primeira fase de concepção e implantação do Circuito Cultural Praça da Liberdade na capital mineira, pela criação do Museu da Cachaça de Salinas e pela concepção e implantação do Plug Minas. Consultora, gestora e estrategista cultural, é diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, onde desenvolveu, dirigiu e/ou coordenou a implantação de diversos projetos de relevância nacional como o Museu de Artes e Ofícios em BH, o Museu da Liturgia em Tiradentes, o Projeto de Educação Patrimonial Trem da Vale em Ouro Preto e Mariana, dentre outros. É autora do livro Interstício.



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