Cultura

29/05/2020 | domtotal.com

Novos sustos no ar

A turbulência financeira sacode as aeronaves neste céu de incertezas

A Iata estima que até setembro serão algo em torno de 8 mil aviões no solo
A Iata estima que até setembro serão algo em torno de 8 mil aviões no solo (Unsplash/ Ashim D’Silva)

Fernando Fabbrini*

Centenas de aeronaves encontram-se estacionadas nas pistas e hangares mundo afora por conta da interrupção dramática provocada pela pandemia. No Brasil, Gol, Azul, TAM e as demais enfrentavam nuvens negras já há algum tempo – e agora piorou. No exterior, segundo últimos dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), a situação inédita das companhias é assustadora.

A Virgin despediu mais de 3 mil pessoas, incluindo 600 pilotos. Sua filial, a Virgin Austrália, entrou em concordata, bem como a South African Airways. Nessa mesma situação perigosa estão a Air Mauritius e a Eurowings, ambas de rotas regionais e que eram mantidas de cintos apertados na faixa do baixo custo. A finlandesa Finnair devolveu 12 aviões e despediu 2.400 pessoas.

A Ryanair, uma das precursoras do segmento low cost, estacionou 113 aviões. Mandou embora 900 pilotos no momento e prevê demissão de outra leva nos próximos meses. A Norwegian, que vinha decolando numa trajetória animadora, interrompeu completamente suas rotas de longo curso, devolvendo vários Boeings 787 aos arrendadores. A vizinha SAS também entregou de volta 14 aviões e demitiu 520 pilotos. Resultado do estrago: os países escandinavos, seus acionistas, estão estudando um plano para liquidar ambas e tentar reconstruir uma nova empresa a partir do que sobrar.

Grandes grupos por trás dos nomes famosos andam igualmente em apuros. A IAG, controladora da British Airways, entre outros negócios, abandonou a aquisição da Air Europa e por isso pagará uma multa de € 40 milhões. Nos hangares da British 34 aviões aguardam dias melhores. Funcionários com mais de 58 anos serão convidados a se aposentar. A Lufthansa planeja manter em terra 72 aeronaves em curto espaço de tempo. Já a Iberia, 56 no chão. A Ethiad cancelou 18 pedidos de A350, 10 do modelo A380 e 10 do Boeing 787, além de demitir 720 aeronautas e aeroviários.

Até a riquíssima e poderosa Emirates estacionou 38 gigantes A380. Cancelou pedidos anteriores de nada menos de 150 Boeing 777-X – a maior encomenda do modelo recebida pela fabricante. E como as demais, passou a régua na folha de pagamentos, onde todos os funcionários com mais de 56 anos estão se aposentando compulsoriamente.

O efeito dominó – ou efeito dessa turbulência aérea sem precedentes – atinge, é claro, os fabricantes. Atualmente, há 60 novas aeronaves armazenadas na Airbus sem compradores ou por conta de cancelamentos de pedidos. A Boeing não revela números, mas também vai penando.

Por tudo isso, a Iata estima que até setembro serão algo em torno de 8 mil aviões no solo. Ora: com uma média de 5,8 tripulações por avião (médio e longo curso combinados), isso representa mais de 90 mil pilotos, comissários e pessoal de apoio desempregados. Preocupante e muito triste, seja para os profissionais do setor como para nós, passageiros a trabalho ou turistas em férias.

Aqueles que gostam de acompanhar o tráfego aéreo no site flightradar24 já notaram a redução das silhuetas amarelas nos cinco continentes. No entanto, basta reparar que as linhas de cargas aéreas – como FedEx, UPS, Cargo Lux, Singapore, Cathay Cargo – não esfriaram as turbinas e seguem transportando o que o mundo mais precisa no momento: toneladas de suprimentos e um mínimo de esperança no horizonte.


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*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália



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