Religião

05/06/2020 | domtotal.com

Fascismo ontem e hoje: variações sobre o mesmo tema

O fascismo sempre dependeu da manipulação das massas e da informação, fazendo uso do aparato estatal para compor um projeto autoritário

Manifestantes vestindo a camiseta do time Corinthians Antifa em ato de defesa da democracia na Avenida Paulista, em São Paulo, no domingo 31 de maio
Manifestantes vestindo a camiseta do time Corinthians Antifa em ato de defesa da democracia na Avenida Paulista, em São Paulo, no domingo 31 de maio (Ettore Chiereguini/ AGIF via AFP)

Fabiano Veliq*

Nestes tempos da hiperinformação é imprescindível termos cada vez mais claro que muitas das lutas atuais saem da esfera prática e recaem em questões conceituais. A linguagem se torna um campo de batalha da qual não podemos abrir mão. Obviamente que o campo prático é imprescindível para mudanças sociais, mas não podemos esquecer que, como nos dizia Lacan, habitamos a linguagem de maneira íntima. O mundo humano é o mundo da linguagem e, nesse sentido, debater sobre os termos se torna extremamente importante.

Um que tem circulado bastante entre nós é o termo “fascismo”, reaparecendo no cenário mundial por conta da guinada conservadora pós-fracasso de algumas experiências “à esquerda”, sobretudo na América Latina nos anos 2000. No entanto, o termo, como diversos outros, acaba recaindo em confusão conceitual, sendo usado diversamente ao que se deveria entender por isso. Sabemos que os conceitos não são questão de opinião, mas se baseiam em construções históricas que possuem uma carga que não deve ser esquecida. Eles podem ser ressignificados, contanto que se mantenha certa fidelidade à sua construção. Ignorar isso é ignorar a possibilidade de qualquer conhecimento teórico em última instância, o que se encontra na raiz da questão da pós-verdade contemporânea, na qual a opinião do sujeito quer se sobrepor aos fatos, aos conhecimentos, etc.

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A palavra fascismo deriva do termo italiano fascio que significa uma espécie de “feixe” ou “maço”. A acepção mais antiga remete ao fasces latino, machado cercado por um feixe de varas que era levado diante dos magistrados nas procissões públicas romanas para significar a autoridade e a unidade do Estado – esse sentido da palavra é importante, pois, como temos dito, somos habitantes da linguagem. Em A anatomia do fascimo, o cientista político e historiador americano Robert Paxton diz: “o fascismo tem que ser definido como uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia as liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza”.

A definição de Paxton é interessante pois caracteriza o fascismo para além do escopo meramente temporal, o chamado “fascismo histórico”, criado em Milão em 23 de Março em 1919 por um grupo de 100 pessoas declarando guerra ao socialismo por estar contra o nacionalismo italiano. O momento histórico se torna importante, mas vemos que as ideias fascistas se reatualizam e vão ganhando novos contornos, misturando-se a novas tendências. Isso de tal forma a podermos dizer que, embora se conserve como movimento, apresenta-se sob uma face diferente no século 21. Dificilmente alguém se intitulará fascista, embora defenda suas ideais típicas. Os fascistas de hoje insistem em dizer que defendem a democracia para além de qualquer dúvida, o que evidencia a face contemporânea do esvaziamento conceitual e a prevalência da pós-verdade.

O fascismo sempre dependeu da manipulação das massas e da informação, fazendo uso do aparato estatal para compor um projeto autoritário que vai além do âmbito político, mas envolve a cultura e a sociedade. Hoje ele se mostra de maneira idêntica à época do seu surgimento, dependendo das massas para atingir seus objetivos. É por isso que podemos entender como a proposta fascista encontra solo fértil na era da hiperinformação para a sua propagação.

A época contemporânea é marcada pela perda dos referenciais e pelo declínio da noção de autoridade. E o sujeito, sem bússola, passa a procurar incessantemente alguém ou algo que seja capaz de ocupar essa lacuna. Se as saídas relativistas do “viva e deixe viver” se mostram problemáticas, o seu oposto, o mundo das leis rígidas, o mundo dominado pelo Pai poderoso, pelo Duce que me diz exatamente a quem odiar, amar, etc., começa a soar de maneira interessante. É aqui que a tentação fascista encontra solo fértil para proliferar para além das dicotomias (talvez ultrapassadas) de direita e esquerda.

Nesse cenário contemporâneo vemos florescer novamente ideias fascistas como solução simples para temas complexos, mas que são atrativas diante da situação desse sujeito do século 21. O fascismo na atualidade se evidencia não apenas sob sua face perversa, mas sob a máscara de uma defesa por valores elevados. Em grande medida ele revive seus primeiros ideais, mas agora, na era da hiperinformação e da pós-verdade, a manipulação das massas adquire alcance global.

Aqui que percebemos como o capitalismo neoliberal aliado ao fracasso das esquerdas no poder faz uso de ideais fascistas para minar direitos e concentrar riquezas, de forma a podermos afirmar que, para o neoliberalismo, os regimes autoritários podem ser grandes aliados de seus interesses. Por isso não veem problemas nessa escalada conservadora que o mundo se encontra. A tarefa do século 21 talvez seja evitar a tentação fascista e, consequentemente, propor uma nova forma de lidar com os problemas contemporâneos, sem tentar trazer de volta um pai todo-poderoso, na figura do líder salvador, nem cair na falácia contemporânea de que apenas o indivíduo é quem vale, abrindo mão dos laços sociais. Proponho juntamente com Laval e Dadot, em sua obra Comum: ensaio sobre a revolução no século 21, que a saída talvez esteja no resgate da noção de “comum”, pois ao restaurá-la podemos minar por dentro a proposta fascista, mas sem um idealismo ingênuo das saídas propostas até o momento.


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*Fabiano Veliq é formado em Filosofia pela UFMG (2008), mestre em Filosofia pela FAJE (2011), especialista em Teologia pela Faculdade Batista (2012), doutor em Psicanálise pela PUC-MG (2015). Realizou estágio pós-doutoral em Psicanálise na PUC e em Filosofia na FAJE. Atualmente realiza o doutorado em Filosofia na UFMG. É Psicanalista, formado pela Escola Freudiana de Belo Horizonte e professor adjunto do departamento de Filosofia da PUC-MG.



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