Religião

05/06/2020 | domtotal.com

O imperativo do amor: lutar pela libertação

O cristão deve combater, com os mesmos meios que Jesus usou, toda forma de autoritarismo e opressão

Um presbítero da Igreja Episcopal senta-se em protesto na frente da polícia enquanto bloqueiam a 16th Street perto de Lafayette Park e a Casa Branca em 3 de junho de 2020 em Washington, DC
Um presbítero da Igreja Episcopal senta-se em protesto na frente da polícia enquanto bloqueiam a 16th Street perto de Lafayette Park e a Casa Branca em 3 de junho de 2020 em Washington, DC (Drew Angerer/ Getty Images via AFP)

“O amor é o sentimento mais libertário que existe! Ele revoluciona e não requer nenhum tipo de aquiescência da outra parte para ser exercido.” (SABBAG, Ângela Beatriz)

Daniel Couto*

Em tempos de opressão e conflitos, os cristãos se perguntam: o que fazer, tendo em vista a nossa fé? Qual deve ser a postura daquelas e daqueles que, assumindo a sua missão batismal, seguem a boa notícia de Jesus? Como o Cristo viveu e, de igual modo, como posso fazer da minha vida um espelho desse modelo de humanidade?

O cristianismo é uma religião da libertação e do amor, tendo, na encarnação do Deus-menino o movimento da divindade que se debruça sobre a humanidade para que, assumindo a nossa natureza, possa nos elevar até a dignidade divina. Isso não rejeita a humanidade para apontar um caminho “sobre-humano”, mas mostra que, em nossa natureza e condição, somos capazes de seguir o caminho proposto por Jesus. Ele é a Palavra visível, pois com todos os nossos sentidos somos capazes de ser fiéis à Palavra de Deus, buscando a paz e a justiça. É no seguimento dos seus passos, que apontam para o Reino, que vamos nos formando como corpo eclesial.

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Retomando essa experiência do convívio com o Senhor, podemos identificar diversos momentos onde ele se confronta com os fariseus, com os poderes instituídos e com os próprios discípulos para “alterar” a lógica dominante, apontando que é no amor e na caridade que se constrói os princípios da fidelidade a Deus. Ele impede o julgamento público da mulher adúltera, ele se baqueteia com os “cobradores de impostos”, se enfurece com a profanação do templo pela mercantilização da fé, se curva e toca os excluídos da sociedade restaurando para eles a saúde e a dignidade. Jesus é, no modo genuíno, político ao se posicionar contra a opressão, ressaltando, inclusive, que há uma distinção entre o que é “de Deus” e o que “é de César”. Como ação pública libertária, o Cristo está constantemente fazendo uma revolução política que o leva, inclusive, à condenação.

A realeza do Filho de Deus, portanto, não é autoritária, ao contrário, se demonstra como um reinado de amor, doação e serviço. Para isso, é preciso combater toda a forma de autoritarismo, fazendo da fé o guia para a ação. Na presença do Messias, os discípulos se formaram como comunidade de partilha, de escuta, de caminhada. Ao ressuscitar e enviar o Espírito, Jesus dá, aos seus seguidores, o mandato de continuar as suas obras, e não apenas de contemplar o seu mistério divino. A ação política iniciada pelo mestre deve ser ampliada, para os quatro cantos da terra, por cada um e cada uma que assume, para si, o título de cristão. Essa ação, sobretudo, deve ser de combater, com os mesmos meios que Jesus usou, toda forma de autoritarismo e opressão. “Ide, pois, e anunciai o Evangelho a toda criatura” não é somente uma demonstração de fé, mas, principalmente, a responsabilidade do resgate da dignidade (vida) humana.

Quando as primeiras comunidades eram perseguidas pelo Império Romano, e precisavam viver na clandestinidade para sobreviverem, esse confronto com o autoritarismo se demonstrou de maneira visceral: ou lutamos para sobreviver; ou somos condenados às arenas. Essa confrontação se dava, sobretudo, na demonstração de um modelo de vida, e de humanidade, que se diferenciava, profundamente, daquele costumeiro do império. Após séculos de repressão, ao ser assumida como a religião romana oficial, o cristianismo venceu a luta contra o autoritarismo se tornando, de algum modo, mais uma ferramenta de opressão. O que a Igreja passou a representar, se imbricando na política de uma maneira muito diferente da proposta por Jesus, distanciou-se da libertação e começou a flertar com a estrutura hierárquica e autoritária da burocracia de Roma. Os cristãos deixaram de ser o contraponto para ser o “poder instituído”. A força revolucionária do novo modelo de humanidade passou a ser entendido “dentro da organização romana”. Das casas e da comunidade, os cristãos passaram para os palácios e decretos. Mas será que a proposta do Reino de Deus estava, de fato, esquecida?

Retomando o princípio evangélico, sabemos que o “maior mandamento” de todos é o amor. Somente ele é capaz de nos modificar, de tal forma, que as relações com o mundo são transformadas a partir da ótica/mediação de Jesus. O amor ilimitado e sem condições, que deve ser oferecido de maneira ampla, considerando a diversidade, a dignidade, a comunhão e a esperança, é a bandeira pela qual os cristãos devem marchar. O amor é o “impulso de ação” dos cristãos. A ocupação dos espaços deliberativos com o discurso do amor, agindo política e socialmente, é a responsabilidade colocada nos “ombros” do cristão junto com a veste batismal. Na perspectiva cristã, cada pessoa é entendida dentro do contexto da sua relação comunitária, de pertencentes à família humana, sem a exclusão ou discriminação de qualquer um dos quais partilham a mesma natureza.

Esse “impulso de ação” é entendido, em algumas perspectivas filosóficas, a partir do conceito de imperativo. Ele é determinado como um caminho “necessário” para aqueles que, de algum modo, decidem segui-lo. Enquanto a filosofia se debruça sobre imperativos morais, atribuídos a toda a humanidade pela partilha da razão, o imperativo da fé cristã é o amor. Em outras palavras, só é possível se considerar cristão se, e somente se, o sujeito age “necessariamente” no mundo a partir do imperativo do amor. Toda e qualquer postura política e social que visa a imposição de um modelo intransigente sobre os outros, negando a diversidade e oprimindo as expressões individuais é, fundamentalmente, contrário ao imperativo do amor. O amor acolhe, acompanha e suporta (cf. 1 Cor 13, 4-8). Por isso, o cristão deve se posicionar, e agir, contra o autoritarismo, o racismo e o fascismo que, camuflados, inclusive dentro da própria instituição da fé, buscam silenciar a “boa notícia do amor”.

Na sociedade contemporânea, onde o cristianismo adquire várias faces, é preciso tomar cuidado com a propagação de ideais excludentes e autoritários que utilizam a linguagem e os símbolos religiosos para seguir, exatamente, o movimento contrário daquele proposto por Jesus. Não se pode usar a estrutura hierárquica, a divisão dos ministérios e a inserção em uma comunidade para agir de modo autoritário. Nenhum exercício religioso cristão pode ser discriminatório, uma vez que se funda em Cristo e, deste modo, na inclusão e no amor. Uma Igreja autoritária é uma igreja “desviada” da Palavra. Os muitos cristãos que fazem barulho pedindo medidas violentas e reivindicando um regime autoritarista não se deixaram transformar pela encarnação. Esses “fiéis” contemplam um Deus-Poderoso assentado no trono e esquecem que o maior mistério da fé é a abreviação do Verbo, tornando-se “um conosco”.

O imperativo do amor é aquele que nos mostra que Deus não está acima, mas do lado do seu povo. Ele é um agente político que, incansavelmente, se coloca na defesa dos mais pobres, excluídos e injustiçados. O distanciamento da fé e da política, reivindicados na virada da modernidade, buscava, exatamente, libertar a sociedade do autoritarismo. Porém, por outros meios, essa marca nefasta da nossa existência retorna, em cada tempo, com discursos e propósitos renovados. Se a religião e o estado não podem se fundir em uma mesma instituição, precisamos ter a consciência de que um sujeito não existe de maneira isolada, princípio da Igreja, e é na partilha e na “vida comum” que se sustenta a política.

Deste modo, é “imperativo cristão” lutar contra qualquer forma de exclusão, discriminação, autoritarismo e injustiça. Quando as bandeiras de movimentos libertários são levantadas, o cristão tem a oportunidade fazer luzir sua veste batismal e participar ativamente da “luta do povo”. A vida e o ensinamento de Jesus nos ajudam a enfrentar com coragem qualquer forma de “subjugação” da humanidade e nos faz, claramente, lutar pela dignidade humana. Como vivemos no tempo, e a cada momento somos confrontados por questões novas, a nossa orientação é sempre a mesma: na dúvida, volte a Jesus. Voltando ao encontro com o Cristo, “ser humano em plenitude”, percebemos que ser um agente consciente da política é uma ação de amor! O imperativo do amor, o imperativo cristão, o imperativo da fé é ser “um com os irmãos” na luta pelo reino de paz, justiça, igualdade e esperança.


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*Daniel Couto é doutorando em Filosofia pela UFMG



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