Religião

05/06/2020 | domtotal.com

Os 'totalitarismos' como negação radical do Reino de Deus

Totalitarismos invertem a lógica do poder-serviço vivida e ensinada por Jesus pela violência da dominação do homem pelo homem

Ao lavar os pés dos discípulos, Jesus ensina que poder é serviço
Ao lavar os pés dos discípulos, Jesus ensina que poder é serviço (Artur Widak /NurPhoto via AFP)

Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

O Reino de Deus está no centro da pregação de Jesus. A metáfora Reino dos céus no pensamento bíblico-judaico é uma realidade dinâmico-escatológica. Quando o seu reino chegar, Deus será o Senhor e trará a salvação para o ser humano. Com Jesus esse Reino fez-se próximo; Deus vem, está às portas. O próprio Jesus anuncia a proximidade do Reino de Deus (Mc 1, 15) e aponta o seu agir-no-mundo como a irrupção dele entre nós (Mt 11, 2-5), por outro lado, ele ensina os seus discípulos a rezarem pela vinda do Reino (Mt 6, 10). Isso mostra que historicamente o Reinado de Deus ainda não se plenificou. Essa reserva escatológica evita, por um lado, identificar qualquer figura humana ou ideologia política com o Reino de Deus; e, por outro, ela não nos deixa cair no comodismo, numa espera passiva por um “último dia”. Porque a salvação tem uma dimensão histórica, já acontecendo no nosso “hoje”, mas não plenamente.

Quando pensamos a relação de poder, quase sempre vem à nossa mente a dialética governante-governado, senhor-escravo, opressor-oprimido, dominador-submisso. Nesse sentido, os “totalitarismos” nas suas mais variadas formas seriam a evidência máxima do poder, ou seja, da dominação total do homem pelo homem. Mas o caminho apresentado por Jesus e o seu projeto de Reino de Deus apontam para outra direção. Para Jesus, o verdadeiro poder não é mandar, dominar, mas servir. Por isso diz aos seus discípulos: “Sabei que os que são considerados chefes das nações, as dominam, e os seus grandes impõem sua autoridade. Entre vós não seja assim. Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que serve, e quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja o servo de todos” (Mc 10, 42-44). Ele mesmo se declara como um servidor da humanidade (Mc 10, 45). Nesse sentido, a autoridade, o exercício do poder, só é legítimo se estiver em função dos outros, se for lava-pés. Tudo o que foge da lógica do serviço é mundano e negação do Reino de Deus.

Leia também:

O fascínio pelo poder-dominação é uma tentação constante no coração dos homens e mulheres. No pecado de Adão e Eva, descrito no Gênesis, já se encontra o desejo de grandeza e poder (cf. Gn 3, 1-7). Entre os discípulos de Jesus também reinava a tentação de saber quem era o maior, ou seja, quem mandava mais, quem tinha mais poder. Isso porque o poder-dominação dá status, visibilidade, sustenta o ego ferido. Por isso, o gesto de Jesus de se inclinar e lavar os pés dos seus discípulos é um “escândalo” para aqueles que compreendem o poder como dominação-submissão, pois sendo Senhor e Mestre Jesus lava os pés dos seus servos (cf. Jo 13, 1-17). Este gesto de Jesus é tão revolucionário que seus próprios discípulos tiveram dificuldade para compreendê-lo. Mas Jesus é radical ao afirmar: “Sereis felizes se o praticardes” (Jo 13, 17). Mas será que no campo da política, também é possível pensar essa relação de poder-serviço?

Na polis grega, berço da democracia, a praça pública é o lugar por excelência de fazer política, ou seja, é o espaço público que permite, pela liberdade e pela comunicação, o agir conjunto e, com ele, a geração do poder. Como afirma H. Arendt, “o poder em seu sentido verdadeiro nunca pode ser possuído por apenas um homem; o poder vem a ser misteriosamente, por assim dizer, quando quer que homens ajam ‘em concerto’, e desaparece, não menos misteriosamente, quando quer que o homem esteja só. A tirania, baseada na impotência de todos os homens que estão sozinhos, é a tentativa da hybris de ser como Deus, investido de poder individualmente, em completa solidão”.

O campo da política é o do pensamento plural, é o pensar no lugar e na posição do outro. Não mais o eu consigo mesmo, mas o diálogo com os outros com os quais devo chegar a um acordo.  A sua natureza é dialógica, por isso ela surge não no homem, mas entre os homens. Desta forma, a liberdade e a espontaneidade dos diferentes homens são pressupostos necessários para o surgimento de um espaço entre homens onde só então se torna possível a política. Haja vista que politicamente não existimos no singular, mas coexistimos no plural. Assim, o isolamento destrói a capacidade política do homem, pois elimina sua faculdade de agir conjuntamente.  

Observa-se que, na modernidade, houve a inversão dos valores que deu à economia a prioridade sobre a política. Desta forma, a política, que na democracia ateniense, ocupava o espaço público, é expulsa cada vez mais deste em função do crescimento do mercado e do interesse das pessoas em cuidar da vida privada. O espaço público foi invadido pela produção e pelo consumo, e o trabalho, como fonte produtora de riquezas passa a ser visto como a própria essência do homem. Com isso, a política perdeu o seu ideal de liberdade e de realização de uma sociedade justa e passou ser um conjunto de procedimentos pragmáticos para chegar ao poder e mantê-lo. Em nome da segurança e da manutenção da ordem, restringe-se a liberdade, reprime a espontaneidade humana e cresce a corrupção do poder pela violência.

Em nossos dias temos assistido uma nova onda de governos “autoritários” que acreditam mais na força das armas do que no poder do diálogo, da ação conjunta. No Brasil, por exemplo, temos um presidente que coloca em descrédito as instituições e que tenta governar pela “caneta”. Um governo que censura a imprensa, que questiona a história dos fatos, que coloca em dúvida as instituições, a ciência, que diz que a participação da sociedade civil em Conselhos de Direitos atrapalha governar, que quer controlar até o que o professor ensina na sala de aula, que interfere na Polícia Federal para benefício particular, que desautoriza os órgãos oficiais de inteligência e mantém um sistema paralelo de informação, que mantém a propaganda política através das “fake news”... Esse governo dá sinais claros de que não é democrático, e sim violento e despótico.

O ensinamento de Jesus acerca do poder-serviço tem muito a nos ensinar no exercício da autoridade, não somente dentro da Igreja, mas também na sociedade e na política. Pois quando o poder deixa de ser serviço aos outros, e se torna dominação, imposição pela força, já não é mais autoridade e, sim, violência. Para vencer essa ameaça da violência contra o poder, faz-se necessário recuperar o espaço público, da ação e do discurso, no qual os homens agem em conjunto e exercem a sua liberdade política. Bem como, superar a ideologia da propaganda, da mentira, pela capacidade do pensar em conjunto. Uma vez que o verdadeiro poder é fruto de uma reflexão conjunta que visa à formação de uma vontade comum a partir da experiência da pluralidade humana que é a condição básica da ação e do discurso, logo, da política. Como afirma Hannah Arendt: “a forma extrema de poder é o todos contra um, a forma extrema da violência é o um contra todos”. Neste sentido, os “totalitarismos” são a negação radical do Reino Deus e do projeto cristão, porque eles invertem a lógica do poder-serviço vivida e ensinada por Jesus de Nazaré pela violência da dominação do homem pelo homem.


Receba notícias do DomTotal em seu WhatsApp. Entre agora:
https://chat.whatsapp.com/GuYloPXyzPk0X1WODbGtZU

*Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com Especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia – Teresina-Piauí



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!