Religião

05/06/2020 | domtotal.com

Lutar contra os autoritarismos: uma exigência da fé

Quando discursos religiosos vão na contramão do bem comum é sinal de alerta para se refletir a respeito de sua legitimidade

Mariann Edgar Budde, bispa da diocese episcopal de Washington, DC, discursa em uma Vigília de Oração Solidária perto da Igreja Episcopal de São João em 3 de junho de 2020, como manifestantes para protestar contra a morte de George Floyd
Mariann Edgar Budde, bispa da diocese episcopal de Washington, DC, discursa em uma Vigília de Oração Solidária perto da Igreja Episcopal de São João em 3 de junho de 2020, como manifestantes para protestar contra a morte de George Floyd (Olivier Douliery/ AFP)

Felipe Magalhães Francisco*

O poder religioso não deve interferir no Estado. A separação das esferas do religioso e da política são fundamentais para uma democracia. Porém, o exercício político, na compreensão de política como busca pelo bem-comum, é dever de todos os cidadãos e cidadãs, sejam eles religiosos ou não. Independentemente do credo, as religiões inspiram o desejo de bem-comum. Quando discursos religiosos vão na contramão disso, é sinal de alerta para se refletir a respeito da legitimidade desses discursos.

A religião cristã, majoritária em nosso país, tem uma responsabilidade enorme neste cenário. Ela nasce de um anúncio fundamental: o Reino de Deus. A metáfora empregada por Jesus não deve nos levar a uma confusão conceitual, interpretando o que ele anunciava como se fosse uma teocracia. Logo, discursos que buscam fazer de toda a nossa nação um país cristão, religiosamente falando, não está indo de acordo com a inspiração primeira do cristianismo.

Todo anúncio religioso feito por meio da imposição, ainda que bem-intencionado, é autoritário. E o Reino de Deus em nada se assimila ao autoritarismo: basta que voltemos à pedagogia de Jesus para perceber isso. E essa perspectiva coloca todo cristão e cristã na oposição efetiva contra toda tendência autoritária: não só não busca impor o autoritarismo, como se coloca contrário a toda tentativa que flerte com isso. É preciso ter sempre vivo na memória, isto é, trazer sempre ao coração a postura dos primeiros cristãos e cristãs que, ainda que perseguidos pelos poderes, viviam como os melhores cidadãos e cidadãs.

O Brasil tem avançado numa escalada autoritária e notas de repúdio não são suficientes para conter esse mal. O autoritarismo já chegou ao mais alto do poder. E uma rede bem financiada de apoiadores – inclusive contando com influenciadores que se dizem cristãos e católicos – tem feito todo um trabalho nocivo à democracia, inclusive por meio de fake news para colaborar com o avanço do discurso e da política do ódio. A oposição a isso é um imperativo cristão, nascido do próprio Evangelho: “Entre vós não deve ser assim!” (Mc 10,43).

O Dom Especial desta semana se debruça sobre a temática do autoritarismo – aqui incluso o fascismo – criticado na perspectiva de uma fé verdadeiramente genuína e evangélica. No primeiro artigo, Fascismo ontem e hoje: variações sobre o mesmo tema, Fabiano Veliq aponta para o significado do fascismo, desde sua origem, refletindo sobre seu papel nocivo na sociedade, sobretudo nestes nossos tempos de hiper-informação. Em seguida, temos o artigo Os totalitarismos como negação radical do Reino de Deus, de Rodrigo Ferreira da Costa, no qual analisa a questão do poder, contrapondo-o ao significado do Reino de Deus. Por fim, coroa nossa reflexão Daniel Couto, com o artigo O imperativo do amor: lutar pela libertação, em que reflete sobre o específico da ética cristã, o amor, ao qual nenhum seguidor e seguidora de Jesus deve se furtar, em contraponto ao autoritarismo.

Boa leitura!


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*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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