Religião

12/06/2020 | domtotal.com

Redes de evangelização ou porta-vozes do governo?

Nenhum sistema econômico ou político se equipara ao Reino de Deus

O diálogo entre religiões e poder público não é problemático, desde que seja republicano e eminentemente ético
O diálogo entre religiões e poder público não é problemático, desde que seja republicano e eminentemente ético (Unsplash/ Mario Caruso)

Felipe Magalhães Francisco*

Muitos de nós fomos surpreendidos com uma notícia, amplamente veiculada, de uma reunião do presidente da República com alguns parlamentares, da chamada ?Bancada Católica?, e alguns representantes de emissoras de ?inspiração católica?, entre os quais, padres bastante famosos. A reunião, em si, não é motivo de escândalo. Chocou-nos foi a manchete, que anunciava que ?TVs católicas?, por verbas governamentais, ofereciam apoio ao governo. Mais chocante ainda, foram algumas das falas, públicas porque disponíveis em vídeo.

Tão estarrecedora a explícita barganha por parte de alguns ali naquela reunião, que o repúdio veio de várias frentes, inclusive de emissoras que não haviam autorizado alguns que se diziam seus representantes de falar em nome delas. A Comissão da CNBB responsável pela área lançou contundente nota de repúdio a essa barganha vergonhosa e absolutamente antievangélica, bem como outras instituições que trabalham com comunicação de inspiração católica e, mais que isso, evangélica. Uma análise criteriosa da reunião, bem como do ambiente eclesial-político que tornou possível tal situação, pode ser encontrada no artigo A Igreja se vendeu para o governo?

A Doutrina Social da Igreja é bastante clara quando aponta que nenhum sistema econômico ou político se equipara ao Reino de Deus: logo, a Igreja não deve se aliar a nenhum destes poderes, sobretudo aqueles que são de necropoder. As democracias modernas têm um pilar fundamental para que existam: a laicidade do Estado, que inclusive é fundamental para o livre exercício da fé. O diálogo entre religiões e poder público não é problemático, desde que seja republicano e eminentemente ético. Em se tratando de cristianismo, a baliza do posicionamento deve ser claro: o Evangelho de Jesus Cristo,

Não há quem duvide da importância dos meios de comunicação para a evangelização. É greve, porém, quando esses meios, ditos de inspiração cristã e católica, estão em posse de vozes dissonantes do Evangelho e não seguem um critério teológico sério e comprometido como base. E essa é uma crítica que deve ser feita para além do que ocorreu na fatídica reunião. À qual propósito, verdadeiramente, essas emissoras estão destinadas? Se for, realmente, à evangelização, elas precisam servir ao Evangelho e não ao interesse mercadológico, tampouco reacionário.

No Dom Especial desta semana, fazemos ecoar a evangélica indignação à proposta explícita de barganha, tal como já assinalado, a partir daquilo que o Evangelho de Jesus nos inspira. No primeiro artigo, Dialogar ou barganhar?, Gustavo Ribeiro tece uma crítica à postura adotada pelos que compunham ?a mesa? daquela reunião, conclamando à profecia, tão urgentes nestes nossos tempos. Rosana Bones, com o artigo Mídia bolsonarista, pseudo cristã, elabora uma reflexão a respeito dos meios de comunicação social, na perspectiva do Evangelho e da ética cristã. Encerra nossa reflexão, César Thiago do Carmo, com o artigo Estúdios de sangue como o chão do palácio de Pilatos, no qual conclama a uma tomada de postura legitimamente evangélica, a fim de que todo o aparato da comunicação, disponível aos cristãos e cristãs seja, verdadeiramente, de anúncio do Evangelho de Jesus Cristo.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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