Religião

12/06/2020 | domtotal.com

Os católicos da contradição

O farisaísmo que Jesus tanto combateu virou sinônimo de "boa conduta" de muitos católicos da atualidade

Cristãos poloneses publicam nas redes sociais fotos com armas de fogo
Cristãos poloneses publicam nas redes sociais fotos com armas de fogo (Reprodução/Facebook/jestemchrzescijaninem)

Mirticeli Medeiros*

Estamos num tempo de contradições. É uma espécie de mal dos tempos modernos. Após o advento das redes sociais, a retórica conta mais que o discurso coerente. Criam-se posturas para ganhar likes. Se pulverizam “opiniões” à revelia do bom senso. Mais acesso à informação e mais ignorância na mesma proporção. Mais espaço de fala e mais divisão. Mais liberdade e mais prisões ideológicas. O maniqueísmo instalou de novo o caos. E muitos católicos se deixaram levar por esses “modismos” político-partidários que, além de desacreditarem a religião, ameaçam sua missão profética.

O cristianismo, em muitas ocasiões, conseguiu arrebatar-nos de tantas “babilônias”. Mas parece que, dessa vez, são justamente os cristãos a alimentarem a maior das heresias morais: o farisaísmo. Voltamos à era na qual o preceito sobrepassa o encontro. Vendem o evangelho em troca de prestígio. Endeusam políticos, classificando-os como “enviados por Deus” para encherem os próprios bolsos. Transformam a liturgia em espaço de intransigência e propaganda desse ultramontanismo barato – sem papa, però. Expurgam o sumo pontífice – que para os católicos é vigário de Cristo – e permitem que seu nome se misture aos palavrões dos falsos profetas.

A obsessão por essa estética estéril e excludente – que não nos remete à beleza, mas é uma expressão máxima do culto ao ego –, ameaça a beleza inegociável do cristianismo: nossa casa é casa de todos. A praça de São Pedro, arquitetada engenhosamente por Gian Lorenzo Bernini para simbolizar a Igreja que abraça mundo, exprime isso. Mesmo que naquela época a instituição não gozasse tanto dessa prerrogativa, esse monumento nos remete à essa essência.

Lembro-me bem que até uns anos atrás, desrespeitar o papa era típico do mau católico ou “coisa da mídia”. Hoje em dia, é o “papista” – usando uma terminologia do século 16 – a ser perseguido pelos próprios católicos. Os mesmos católicos brasileiros que questionaram a orientação do governo italiano de suspender as missas públicas durante a pandemia flertam com a monarquia. Sentem falta do padroado, será? Não parece muito preocupado com a liberdade da Igreja quem cede a esse constantinismo, uma tendência que ao longo da história instrumentalizou da religião para fins políticos. Contradição pura.

Poderíamos passar o dia inteiro elencando contradições. Sem dúvida alguma, à medida que você foi lendo o texto, vieram-lhe à mente algumas dessas incoerências. São muitas. Fariseus travestidos de cristãos. “Doutores da lei” e propagadores dos bons costumes que fecham os olhos para as injustiças sociais. “Defensores da fé” que semeiam a divisão entre os católicos. “Pró-vidas” que acreditam que a vida dos idosos importa bem menos e fazem arminhas com as mãos. “Fiéis a Roma” que ignoram o bispo de Roma. “Amantes da liturgia” que se revoltam com as missas virtuais – celebradas assim por motivo de força maior –, esvaziando todo o sentido da Eucaristia. “Memorizadores de documentos” que mal leem o Evangelho. Os católicos da contradição.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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