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12/06/2020 | domtotal.com

Símbolos e narrativas sobre racismo são questionados após morte de George Floyd

Estátuas de líderes associados a práticas racistas e colonialistas são alvo de protestos

Estátua de Winston Churchill, em Londres, marcada com a frase de racista
Estátua de Winston Churchill, em Londres, marcada com a frase de racista (Isabel Infantes/AFP)

Pablo Pires Fernandes

A morte do cidadão negro estadunidense George Floyd, causada por um policial branco em Minneapolis, nos EUA, no dia 25 de maio, não foi uma “morte por sufocamento” durante uma operação policial, termo utilizado muitas vezes pela imprensa mundial. Não foi. O que ocorreu foi um assassinato com evidente prática de racismo. Devemos nos referir de maneira correta, pois as questões simbólicas têm grande impacto na construção das narrativas sobre o racismo, sejam de palavras ou de estátuas.

Nesta semana, a revolta e a indignação despertada por (mais um) caso de abuso policial nos EUA, além de provocar manifestações ao redor do planeta, colocou em xeque alguns destes símbolos – forjados em estátuas glorificantes. Monumentos de “heróis históricos”, de países colonialistas europeus e norte-americanos, foram derrubados ou "violentados". A mensagem, presente e urgente, exigia a revisão da história em relação à escravidão e às responsabilidades de tais “heróis” do passado.

A repercussão do assassinato de George Floyd ainda não cessou. Caminhadas, mesmo em meio a uma pandemia, seguem seu curso e, a cada dia, questionam velhos paradigmas em busca de algo novo, de um sentido outro, que considere o outro, como igual. Uma luta longa e antiga, e sempre derrotada. 

Nesta semana, uma série de símbolos associados ao racismo foram “vítimas”, por parte de ativistas, de “violências”. Mas estas “violências” – agora denominadas vandalismo ou até ações terroristas –, estão levantando dúvidas importantes acerca das construções das narrativas históricas e dos papeis desempenhados por certos líderes tidos como “símbolos nacionais”.

É possível nominar estes atos como vandalismo, a maneira simplista que atende a crenças midiáticas e discursos populistas. No conjunto, porém, é inegável constatar o sentimento comum de revolta diante do racismo arraigado nas relações sociais mundo afora.

A latente indignação, os séculos de opressão acumulados, a conscientização histórica. O brutal e trágico assassinato de George Floyd apenas abriu uma espécie de Caixa da Pandora Negra. O chocante vídeo gravado por uma testemunha foi capaz de colocar negros e brancos do mundo todo contra o racismo. A maculação de estátuas de heróis e reis de várias nações expressam: Basta! 

Esta ação coletiva de repúdio contra símbolos consagrados são um primeiro passo para reescrever a história, sempre feitas de narrativas, heróis e símbolos. Desta vez, espera-se que a palavra seja de quem nunca a teve. O certo é saber que o certo é certo. A história não perdoa. 

Veja abaixo algumas das manifestações desta semana:

REINO UNIDO

No domingo (7), em Bristol, cidade do sudoeste da Inglaterra com passado escravista, uma estátua de bronze do traficante de escravos Edward Colston, instalada em 1895 em uma rua que leva seu nome, foi arrancada de seu pedestal, chutada e arrastada com cordas por manifestantes que protestavam contra o racismo até ser jogada no rio sob aplausos. Uma pichação na estátua do ex-primeiro-ministro Winston Churchill com os dizeres “Foi um racista” recebeu críticas do atual premiê Boris Johnson, que ordenou o cercamento do monumento.

ESTADOS UNIDOS

Em Boston (Massachusetts, EUA), uma estátua do explorador italiano Cristóvão Colombo foi decapitada no parque que leva seu nome, na noite de terça-feira (9). Em Miami (Flórida), outra estátua de Colombo em um parque foi coberta com tinta vermelha e mensagens que diziam "Nossas ruas", Black Lives Matter (Vidas negras importam) e "George Floyd". Uma terceira escultura do explorador foi arrancada e jogada em um lago em Richmond (Virgínia, EUA), na terça-feira. Colombo, durante muito tempo apresentado nos livros escolares como "o descobridor da América", é considerado por muitos agora como um dos responsáveis pelo genocídio dos indígenas.

ESTADOS UNIDOS

Na quarta-feira (10), uma estátua de Jefferson Davis, presidente dos Estados Confederados durante a Guerra da Secessão, que opôs o sul ao norte abolicionista de 1861 a 1865, foi derrubada em Richmond (Virgínia, EUA). No mesmo dia, a presidente da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, pediu a retirada de 11 estátuas do Capitólio que representam soldados e responsáveis confederados, como a de Jefferson Davis.

BÉLGICA

Na Antuérpia (Bélgica), a estátua do rei Leopoldo II (1835-1909) foi alvo de protesto, sendo queimada e parcialmente coberta de tinta vermelha. A ação buscava criticar a atuação do rei belga no Congo, ex-colônia cuja propriedade era do monarca, responsável por um dos grandes genocídios do final do século 19 (10 milhões de mortos estimados) e conhecido por sua atroz brutalidade. Na noite de quinta (11) para sexta-feira (12), outra estátua de Leopold II, no bairro de Auderghem, na capital Bruxelas, foi derrubada, assim como na cidade portuária Ostende. As placas com o nome da avenida Leopold II amanheceram pintadas de vermelho.

NOVA ZELÂNDIA

A cidade neozelandesa de Hamilton derrubou, nesta sexta-feira (12), uma estátua do comandante militar colonial do qual recebeu seu nome. Uma grua retirou a escultura de bronze do capitão John Fane Charles Hamilton da Praça Cívica, após solicitações de vários moradores e de ameaças dos manifestantes antirracistas sobre a derrubada da estátua. A prefeitura de Hamilton afirmou que a retirada da estátua é parte de um esforço para eliminar os monumentos "considerados representativos de desarmonia e opressão cultural".


Dom Total/Agências



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