Brasil Política

18/06/2020 | domtotal.com

Chama o Felipe

Sonho para o meu neto um país onde se possa viver com direito à vida e à liberdade

Ele não parece ligar, por exemplo, à realidade que estamos vivendo, de perspectivas sombrias na vida do país
Ele não parece ligar, por exemplo, à realidade que estamos vivendo, de perspectivas sombrias na vida do país (Ben Mullins/ Unsplash)

Afonso Barroso*

Vejo meu neto Felipe, de 17 anos, fazendo suas atividades e às vezes observando de soslaio as minhas. As dele são várias e a principal é assistir às aulas remotas do Colégio Batista. Está se preparando para o próximo Enem. As minhas são, na verdade, apenas uma: escrever. Foi o que aprendi a fazer razoavelmente, graças ao ensino incomparável dos padres salesianos no Colégio São João, de São João del-Rei, onde fiz os quatro primeiros anos de ginásio. Escrever é a minha atividade e minha diversão, daí que preciso de pouco mais do que isso para bem viver.

O Felipe é um bom menino, inteligente, bom caráter, bom coração. E eficiente: é ele que me socorre quando tenho algum problema no computador. Faltou som, chama o Felipe. Travou, chama o Felipe. Tremedeira na tela, chama o Felipe. Sumiu a imagem, chama o Felipe. Deu um tilt qualquer, chama o Felipe, que ele entende e resolve.

Sim, é um bom menino o Felipe, e bom neto. Só acho que ele não dá muita bola pras recomendações e conselhos do avô. Mas, pensando bem, será que avô sabe dar algum conselho útil? É algo a pensar. Eu, que venho de longe, não tive avô. Tive, sim, um pai-avô, porque era o caçula dos oito irmãos. Ele, o insuperável Seu José Barroso, quase não me deu conselhos. Não precisava. Deu exemplos.

Hoje, na qualidade de avô, não sei se meus exemplos também são bons e se o neto os segue ou seguirá. Talvez nem valha a pena segui-los, porque os tempos meus não são os dele, assim como não são dele as minhas preocupações. 

Ele não parece ligar, por exemplo, à realidade que estamos vivendo, de perspectivas sombrias na vida do país. Não falo da pandemia, porque com isso ele se preocupa, sim. Sabe que tem de tomar muito cuidado para preservar o avô, pois esse velho pertence ao grupo de altíssimo risco, com todas as portas abertas ao vírus. Se pegar a Covid, vai pro saco. 

Acho que ele não se preocupa muito é com o comando da nação. A democracia elegeu para o cargo um capitão reformado que jamais reformou seus conceitos e sua vocação para ditador. É um presidente eleito democraticamente, mas ensaia sem maiores disfarces um golpe na Constituição, sem a qual não há democracia, coisa que ele parece abominar.

Meu neto não sabe bem o que está em gestação nos bastidores fétidos de Brasília, daí a minha preocupação com o futuro dele. Se vier o que eu temo, saberá ele viver sem liberdade, sem poder exprimir suas ideias quando as quiser expressar? Que atitude tomará quando souber que opositores do regime, quem sabe amigos seus de colégio, de classe e videogame, estão sendo presos, torturados, deportados, assassinados? Preciso mostrar-lhe o que é uma ditadura como a que vivemos durante 20 anos, a partir do ano fatídico de 1964.

Eu preciso falar com ele sobre isso, porque realmente me preocupa o processo em curso de enfraquecimento bem planejado da democracia. Todo tirano é mau e esperto. Faz o diabo pelo poder. Sabe como minar gradativamente as instituições e conquistar, com estratégias maquiavélicas, o apoio da turma ignara, de congressistas corruptos e de militares aos quais agracia com cargos e mais cargos no governo. E vai preparando a tacada final com uma tentativa ali, outra acolá, um recuo, outra tentativa, outro recuo, uma medida antidemocrática abortada, novo recuo, dois passos à frente e um para trás na intenção malévola de golpear as instituições com uma facada que pode ser mais fatal do que a que levou na campanha. Tudo parte de uma trama que visa à tomada do poder supremo, em que só ele será soberano, dono da Lei e do Estado. E aí, não só a vaca, mas o rebanho todo terá ido pro brejo.

O Felipe está na alvorada da vida, enquanto eu ocupo o outro lado, o ocaso, o poente. Ao vê-lo assim despreocupado, pensando no Enem e no dia de hoje, não consigo apagar o sonho de que tenha um futuro bem diferente do que se desenha no horizonte da pátria. Quero que seja livre e feliz num regime de democracia plena, de plena liberdade e plenos direitos. Direito de ir, de vir, de pensar, de se expressar, de agir. Rogo a Deus que lhe dê o sonho do avô, não o de um tirano.

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*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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