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18/06/2020 | domtotal.com

Companheiras de cama

É um alento esticar os braços na cama larga e achar essas companhias

Leitura é consolo em meios aos desalentos
Leitura é consolo em meios aos desalentos (Unsplas/ felipe pelaquim)

Ricardo Soares*

Hoje acordei com os olhos inchados. Não de chorar. Mas, talvez, de tanto olhar coisas ruins que, como se dizia antigamente, ?forçam as vistas?. E antes que pudesse ver as lamentáveis notícias do dia, olhei para as minhas companheiras de cama, aqui do lado. Não, não me transformei num sultão abastado com um harém ao meu dispor. Minhas companheiras, no caso, são encadernações novas e antigas, edições recentes ou passadas dos livros muitos que dormem ao meu lado. O melhor antidoto para os tempos de pandemia. Pelo menos no meu caso.

Tenho gravitado num interior inglês do século 19 nas desventuras de Judas, o obscuro, de Thomas Hardy, que as vezes dá espaço, vez e voz a um escritor de dupla personalidade embutido na sempre aterrorizante ficção de Stephen King. O livro é A metade negra. E quando me canso desses horrores fictícios, entro num Brasil real, mais ingênuo e passado, retratado por Mário de Andrade no seu belíssimo O turista aprendiz. E quando lembro que estou no distópico 2020, busco consolo em outra distopia, que aconteceu em décadas passadas nos Estados Unidos na ficção de Philiph Roth, em Nemesis, que tem como pano de fundo uma pandemia de poliomielite.

Aí quero ir mais longe e estou quase a concluir Os mímicos, de V.S. Naipaul, passado entre Londres e uma ilha imaginária nos limites dos colonizadores ingleses. Aí engato o fim do livro Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, uma impressionante ficção científica delirante que usa o tempo todo e com maestria o bordão ?é assim mesmo?.

E, infelizmente, ?é assim mesmo? a eterna vida de exploração aos mais pobres e humildes retratada no clássico Germinal, de Émile Zola, que leio tardiamente, mas antes tarde do que nunca. E antes tarde do que nunca que você leitor ou potencial leitor descubra os deleites da leitura, excelente companhia em pandemia ou não pandemia. Aí, além dos livros que citei, você pode passear pela Luanda de Pepetela, por onde também trafego nesses dias em Se o passado não tivesse asas, ou ainda redescobrir a Copacabana de Luis Alfredo Garcia Roza, em Achados e perdidos.

Não sei se perdidos estamos ou perdidos ficaremos. Só sei que ao esticar meus braços na cama larga e achar essas companhias é um tremendo alento para tanto desalento.


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*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários. No site da editora Penalux www.editorapenalux.com.br está em pré-venda 'Devo a eles um romance' seu mais recente livro.



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