Coronavírus

19/06/2020 | domtotal.com

Pesquisadores da UFMG criam sistema que neutraliza o coronavírus no ar

Em fase de testes, sistema usa ultravioleta e deve chegar ao mercado em preço acessível

Pesquisadores Alexandre Leão, Gregory Kitten e Thalita Arantes com o protótipo: tecnologia aberta
Pesquisadores Alexandre Leão, Gregory Kitten e Thalita Arantes com o protótipo: tecnologia aberta (Acervo Pessoal/Alexandre Leão)

Giulliana Santos*

Um grupo de pesquisa multidisciplinar da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) está desenvolvendo um sistema de ventilação de ar que neutraliza o novo coronavírus. Projetado para funcionar em ambientes médios, com cerca de 25 metros quadrados, o equipamento tem como objetivo neutralizar, através da luz ultravioleta, o novo coronavírus.

O sistema é feito de MDF cru, papel de alumínio, ventilador e uma lâmpada UV-C. O equipamento tem cerca de 90 centímetros de comprimento e inativa o vírus quando ele recebe a luz ultravioleta. O coronavírus desse modo, fica incapaz de contaminar. A ideia é que ele seja instalado em quartos de hospitais e ambientes residenciais que abrigam pessoas da área de risco da Covid-19. O sistema ainda está em fase de testes.

O materiais utilizados na construção do aparelho são baratos e por isso, o grupo de pesquisa estipula que o equipamento chegue ao mercado por menos R$ 400. O baixo custo do protótipo é o ponto alto do projeto, já que outros aparelhos do tipo custam cerca de R$ 1,4 mil.

O Dom Total conversou com o cientista da área de imagem multiespectral, doutor Alexandre Leão, engenheiro e professor do Departamento de Fotografia e Cinema da Escola de Belas Artes da UFMG, sobre o protótipo que neutraliza o coronavírus no ar.

Professor, como o estudo teve início? O grupo de estudo envolve pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, certo?

Alguns professores pesquisadores da UFMG tiveram acesso a um documento da Comissão Internacional de Iluminação, com sede na França e ramificações em vários países. Essa comissão disponibilizou no final de março, em função da pandemia, um documento interno que estuda o uso da ultravioleta como forma de desinfecção do ar e de superfícies. Lendo esse documento que tinha um foco mais voltado para a desinfecção do ar, começamos então a conversar entre pesquisadores e um foi indicando o outro para o projeto. Vimos a necessidade do grupo de pesquisa ser multidisciplinar, já que um experimento desses, apesar da sua simplicidade, quando se olha para o equipamento, a validação técnica científica é extremamente complexa.

Então, juntamos pesquisadores da área das Ciências Biológicas, fundamental, já que nosso objetivo é a desinfecção do ambiente por meio da inativação de vírus. Tivemos também a parceria com profissionais e professores pesquisadores da área de Engenharia, que fazem os cálculos de velocidade do ar, vazão, sabem qual é a capacidade de circulação do ar do equipamento, sua estrutura física, sua resistência. Temos participação de pesquisador e professor da área da Física, exatamente pela ultravioleta ser uma radiação. Ele nos ajuda a entender como que isso seria impactante, como se calcula dose, qual que é o nível de energia que ela emite. E pesquisadores da área da Arquitetura também, que estudam velocidade, de vento e de vazão. Eu trabalho na área de multiespectral, com energias de vários comprimentos de onda, que vão na faixa visível e também na faixa de ultravioleta.

Como esse equipamento age contra o coronavírus?

O grupo multidisciplinar teve início partir do documento Comissão Internacional de Iluminação e assim começamos a pesquisar vários artigos, várias pesquisas internacionais, que já apontam claramente e já comprovam como é, com fortes evidências, a eficácia da ultravioleta na área de desinfecção diária e superfície. Isso já existe em diversos países, sendo usado de forma muito bem estruturada. Tem vários países e fabricantes de equipamentos de circulação de ar-condicionado, digamos assim, de grande porte que utilizam a ultravioleta dentro do sistema de ventilação.

A ultravioleta não pode ficar em contato com o ser humano. Ela faz mal para a pele, pode provocar queimaduras e problemas de visão. A longo prazo pode provocar até câncer. Por isso a ultravioleta deve ser utilizada de uma forma fechada. Essa foi a ideia do projeto: fazer uma caixa que promovesse que o ar passasse dentro de um sistema fechado, em que a ultravioleta não vai em direção ao ambiente e às pessoas. O ar contaminado passa  dentro dessa caixa inativando, assim, os vírus. Ela também atua com bactérias e mofos. A energia, o AVC, tem forte atuação rompendo as ligações de DNA e RNA.

O projeto ainda está em fase de testes?

Já foram feitos vários testes com vírus e tivemos alguns resultados positivos. Os experimentos vão continuar. Nós estamos extremamente otimistas com os resultados e com o tipo de energia de lâmpada que estamos usando. A especificação técnica do equipamento vai ser disponibilizada em pouco tempo. Precisamos finalizar a validação e temos agora em andamento o processo de patenteação do equipamento exatamente para que ele possa ser disponibilizado para a sociedade com segurança.

Em relação aos experimentos, temos resultados positivos feitos com micro-organismo sem ser o novo coronavírus. O vírus Sars-CoV-2 não pode ser utilizado o experimentos dessa maneira. Nós utilizamos vírus mais resistentes exatamente porque se o equipamento elimina esses vírus que não fazem mal ser humano, são vírus ambientais e ele, em tese, vai atuar junto com o  Sars-CoV-2. Não somos apenas nós dizendo isso, a comunidade científica no mundo todo tem feito validações de vários equipamentos e sistemas de iluminação de ultravioleta, utilizando sempre outros vírus.

Estamos analisando agora a possibilidade dem em breve, nas próximas duas semanas, fazermos testes correlacionados com algum tipo de coronavírus. Mas um coronavírus que não seja o Sars-CoV-2 (causador da Covid-19) e sim coronavírus de animal.

O equipamento de neutralização é designado para qual tipo de ambiente?

A capacidade do equipamento é para um ambiente que tenha em torno de 25 metros quadrados, com pé direito de 3 metros. Então vamos pensar em 75 metros cúbicos. O equipamento faria desinfecção desse ambiente com tranquilidade. Ou seja, é um quarto de hospital ou um quarto de uma residência, uma sala também. O equipamento pode ficar ligado 24 horas, mas ele faz a desinfecção num prazo muito mais curto do que isso, depende muito de como o ar dentro do ambiente está circulando. Porque quando há corrente de ar, uma porta, uma janela aberta, o equipamento não terá a mesma eficiência porque o ar está entrando e saindo e não vai passar pelo equipamento.

A ventilação, no geral, é uma situação muito boa em termos de saúde. Ambientes ventilados é uma recomendação da Organização Mundial de Saúde e de pesquisadores de forma geral. Mas quando falamos do equipamento, estamos pensando numa época de frio, em ambientes que precisam ficar fechados e ambientes hospitalares onde a quantidade de vírus é grande. Então, nesses ambientes esse sistema de troca de ar, de desinfecção por um equipamento desse tipo é de grande validade. Nas residências, o objetivo é que esse equipamento possa ser instalado em quartos onde haja pessoas que estão no grupo de risco ou então pessoas que às vezes podem estar acamadas e que recebam ali cuidadores. Pessoas que, no geral, não podem ser acometidas pelo coronavírus pois seria muito arriscado. Então, pensamos nesse tipo de aplicação.

No exterior já existem equipamentos de neutralização, mas sempre com preço muito alto. O equipamento desenvolvido pela UFMG já tem uma média de preço estabelecida?

O nosso projeto visa especialmente o desenvolvimento de um equipamento para desinfecção do ar de baixo custo. Existem equipamentos como esse no mundo, mas no Brasil praticamente não existe nenhum. Chegamos a ter contato com uma aparelho feito em São Paulo que não tinha uma validação científica com o vírus.

Colocar no mercado um equipamento só por colocar não é a nossa intenção. Temos que disponibilizar um equipamento e sentir segurança e confiabilidade de que ele está validado e vai realmente atuar contra esse micro-organismo do momento que é o Sars-CoV-2, que provoca a Covid-19. Esse é o nosso objetivo. Por isso o nosso sistema de validação e experimentação demora pra finalizar.

O preço é o ponto forte do projeto. O custo que vimos de equipamento disponível no mercado mais barato é R$ 1,4 mil. A nossa proposta é de que o equipamento custe menos de R$ 400.

E qualquer um poderá montar o equipamento de neutralização do vírus em casa?

Falando sobre a fabricação, já havíamos imaginado a possibilidade de disponibilizarmos o projeto para qualquer pessoa fazer em casa. Porém, estamos preocupados com a segurança das próprias pessoas porque a energia que estamos sugerindo, da ultravioleta, não é uma energia boa ao ser humano. Ela pode provocar doenças de pele e doença de visão e as pessoas mal orientadas ou acreditando que aquilo não tem uma energia forte, poderiam não vedar a caixa corretamente. Se a o dispositivo mal montado deixar essa luz atingir as pessoas, isso de fato poderia ser bem danoso.

Ou seja, não adianta trabalharmos com desenvolvimento de um equipamento visando a melhoria da saúde das pessoas e, por outro lado, prejudicar a saúde das pessoas porque quem confeccionou o equipamento pode, por falta de orientação ou de conhecimento, cometer um erro e gerar um outro problema. Essa é a ideia. Mas em termos de custo, estamos visando um custo realmente baixo, mesmo sendo produzido por alguma empresa.

*Estagiária sob supervisão do jornalista Pablo Pires Fernandes.


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