Cultura

19/06/2020 | domtotal.com

Temos todo o tempo do mundo?

O amargo travo na boca reverbera o que o coração sente e sabe

Perfil do tempo, obra de Salvador Dali
Perfil do tempo, obra de Salvador Dali (wikimedia)

Eleonora Santa Rosa*

Semana de deslocamentos necessários não necessariamente confortáveis, mas essencialmente intransferíveis. Semana de sensações afetivas afetadas, de tempo estendido para revisita ao passado não tão passado, não tão presente, eco de pensamentos sobre gestos, episódios, comportamentos, passagens não tão passageiras, de pontas apontadas para recorrência de sentimentos latejantes trazidos pelo balanço do ar, acima do mar e das cadeias das montanhas de Minas.

Semana de retorno sonoro a Renato Russo, passageiro de desencarne precoce (nada é precoce sob outra jurisdição), a Tempo perdido, canção que adoro, recém- resgatada por belas interpretações de tantos que dizem a tantos outros sob a generosa articulação de Dado Villa Lobos, parceiro-amigo do doce irascível 'líder' da banda, testemunha de suas nuances de sofrimento, de exílio interno duríssimo rumo à debacle da vida não suportada em seu próprio tempo.

Quarentena agora imposta a todos, melancolicamente agravada em países à mercê de asnos governantes que conduzirão imensas hordas de involuntários ao terreno final. Não serve o consolo de que serão submetidos ao duro jugo da História, mas que não expirem antes da rodada final.

Ao reouvir, por diversas vezes, a música de Renato, a controversa sensação que não teremos todo tempo do mundo.

No passeio solitário pela cidade, a melancolia das ruas em outono frio, de olhos distantes e perdidos dos poucos que transitam a pé, caminhada repleta de presságios, perguntas, rememorações, desconfortos com a realidade cotidiana da urbe, fora da cidadela da casa e do ambiente doméstico amigável e acolhedor.

No aeroporto deserto no dia seguinte, a patética imagem da merda a que chegamos, como humanidade, e o Brasil pela contribuição avassaladora de todos os erros.

Este é o retrato fiel do país em dissolução  pela devastação de seus equívocos, de sua inércia, negligência, malemolência; de seu  acomodamento imoral com a servidão, com a escravidão, com a falta de educação; de tergiversação com os princípios éticos e morais básicos, da saúde de seus cidadãos. Enredados em nossa própria armadilha rumamos ao desconhecido sob a direção de insano personagem.

O amargo travo na boca reverbera o que o coração sente e sabe: o futuro ainda demora.

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem! Selvagem!
Selvagem!

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos

 Então me abraça forte

E diz mais uma vez

Que já estamos

Distantes de tudo

Temos nosso próprio tempo

*Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, foi diretora do Centro de Estudos Históricos e Culturais da Fundação João Pinheiro, ex-diretora de captação e Marketing da Fundação Clóvis Salgado e ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio – MAR. Responsável pela primeira fase de concepção e implantação do Circuito Cultural Praça da Liberdade na capital mineira, pela criação do Museu da Cachaça de Salinas e pela concepção e implantação do Plug Minas. Consultora, gestora e estrategista cultural, é diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, onde desenvolveu, dirigiu e/ou coordenou a implantação de diversos projetos de relevância nacional como o Museu de Artes e Ofícios em BH, o Museu da Liturgia em Tiradentes, o Projeto de Educação Patrimonial Trem da Vale em Ouro Preto e Mariana, dentre outros. É autora do livro Interstício.



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