Religião

18/06/2020 | domtotal.com

Bispos da Argentina condenam 'espionagem ilegal' de clérigos pelo governo

Espionagem do clero e até do atual papa aconteceu nos governos Macri e Kirchner

Mais conhecido como
Mais conhecido como "Padre Pepe", José Maria Di Paola diz que muitos em sua paróquia planejavam votar em peronista nas eleições argentinas ao se lembrarem de ter mais renda disponível durante tais administrações (David Agren / CNS)

Inés San Martín*

Os bispos da Argentina condenaram veementemente os "crimes de espionagem ilegal" que foram supostamente perpetrados durante o governo de Mauricio Macri, que liderou o país entre 2015 e 2019.

"Nada pode justificar as escutas telefônicas ilegais ou as pressões que supostamente se destinam a ser exercidas sobre as vítimas de tais ações", expressa uma declaração da Comissão Nacional de Justiça e Paz dos bispos argentinos.

A declaração foi divulgada após várias alegações de que a antiga administração nacional espionou ilegalmente pelo menos um bispo católico – Jorge Lugones, de Lomas de Zamora e presidente da comissão de bispos que divulgou a declaração – e vários outros sacerdotes.

Lugones, um jesuíta, foi ordenado bispo em 1999 pelo então arcebispo Jorge Mario Bergoglio, de Buenos Aires, hoje papa Francisco.

Vários relatórios afirmam que o padre Jose di Paola, um dos "padres das favelas" que trabalha com os cidadãos mais pobres da Argentina, também teve seu telefone ilegalmente grampeado.

"A democracia não admite subsolos sombrios que abrigam e facilitam os abusos e as práticas ilegais", diz a declaração da Comissão Justiça e Paz. "A democracia é fortalecida com a institucionalidade e a transparência."

"Um destino ruim nos aguardaria como país se naturalizássemos ou justificássemos certos procedimentos baseados em partidos ou bandeiras políticas", disse a comissão, acrescentando que a espionagem ilegal dos próprios cidadãos da Argentina deve ser condenada, independentemente do partido no poder.

As alegações foram feitas pela diretora da Agência Nacional de Inteligência (AFI) da Argentina, atualmente administrada por Cristina Caamaño, protegida de Cristina Fernandez de Kirchner, ex-presidente e atual vice-presidente do país.

Como diretora recém-nomeada da agência, Caamaño alegou que, durante o governo de Macri, a AFI escutou ilegalmente as comunicações de líderes da oposição, membros importantes da equipe de Macri, jornalistas e um punhado de líderes religiosos, incluindo Lugones e Di Paola.

"Repudiamos procedimentos ilegais de qualquer tipo, apoiamos solidariamente as supostas vítimas dos fatos denunciados, exigimos uma investigação completa e rápida que, respeitando as garantias legais, busque a evidência dos fatos ocorridos e identifique correspondentemente os responsáveis", afirma o comunicado divulgado pela comissão episcopal em 11 de junho.

O presidente da conferência episcopal argentina, dom Oscar Ojea, e seus vice-presidentes, o cardeal Mario Poli e o arcebispo Marcelo Colombo, também condenaram os crimes de espionagem ilegal, pedindo que a prática seja "banida da nossa República" por serem contrárias à democracia e representam um sério prejuízo para a liberdade individual.

No início da semana, Lugones havia recebido o apoio de seus dois bispos auxiliares, que divulgaram uma declaração dizendo que a escuta ilegal do telefone é "impróprio em qualquer democracia e nos convida a refletir e apelar à verdade e à justiça para o bispo e para outras vítimas de uma situação tão infeliz como essa".

A escuta ilegal do governo da Argentina sobre a hierarquia católica não é um fenômeno novo. De fato, Di Paola foi espionado pela mesma agência de inteligência quando Kirchner foi presidente de 2007 e 2015; portanto, quando foi consultado sobre as alegações feitas contra o governo de Macri, ele simplesmente disse: "Não é novidade."

Durante o governo Kirchner – tanto de Cristina quanto de seu marido Néstor Kirchner, que liderou o país entre 2003 e 2007 – o então cardeal Bergoglio também foi espionado. É amplamente divulgado que ele costumava ouvir o rádio muito alto em seu escritório durante reuniões importantes. Seu e-mail também foi supostamente hackeado.

Segundo Gustavo Vera, político argentino próximo ao papa Francisco, Bergoglio estava sob vigilância eletrônica a partir de 2005, mesmo que por um período mais longo. As escutas telefônicas terminaram quando foi eleito para o papado em 2013, mas o período das escutas telefônicas coincide com uma acentuada deterioração das relações entre o governo e a Igreja Católica argentina.

Conversando com Noticias, uma revista argentina, Di Paola disse que não ficaria surpreso se as escutas telefônicas fossem verdadeiras, mas se perguntou por que estaria sob vigilância: "Eles só descobrirão que fazemos o trabalho que fazemos".

Ele então questionou se, talvez, essa situação estivesse realmente dirigida a "atingir Bergoglio" – implicando que ele não era o verdadeiro alvo da espionagem, mas o pontífice.

Publicado originalmente por Crux


Tradução: Ramón Lara

*Siga Inés San Martín no Twitter: @inesanma



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