Mundo

18/06/2020 | domtotal.com

Pressão vivida por médicos africanos é ampliada com coronavírus

Precariedade do sistema de saúde e falta de EPIs dificultam ainda mais a situação

Coleta para teste de coronavírus na África do Sul
Coleta para teste de coronavírus na África do Sul (AFP)

Entre o aumento de infecções, equipamento de proteção escasso e o estresse, os profissionais da saúde que combatem a pandemia de coronavírus na África trabalham sob forte pressão. Esta é a situação na África do Sul, Nigéria e Quênia.

África do Sul

Segundo o Ministério da Saúde da África do Sul, mais de 2 mil profissionais do setor contraíram o vírus e pelo menos 17 morreram. Quase 80% das infecções ocorreram na província de Cabo Ocidental, a principal fonte de infecção do país.

Um médico de uma clínica pública no município de Khayelitsha, na Cidade do Cabo, disse que o fornecimento de equipamentos de proteção estava atrasado e que os médicos estão sob forte estresse.

"Seus colegas são infectados, a morte de um parceiro é algo que afeta, necessariamente", disse ele após solicitar o anonimato. "Se você está em uma zona de guerra e um soldado é baleado e você tem que ir no dia seguinte para a mesma zona de guerra com essa memória, é pesado", afirmou.

De acordo com o presidente do sindicato regional de funcionários de hospital, Gerald Lotriet, seis greves foram realizadas na província de Cabo Ocidental desde abril e 7 mil funcionários deixaram seus empregos diante do risco de contágio.

"Algumas enfermeiras me disseram: 'se eu soubesse da Covid-19, teria entrado para o exército'", disse. "No exército, se houver uma bomba, você precisa fugir e, no nosso caso, eles nos dizem que você precisa se lançar sobre ela", argumentou.

O sindicato nacional de enfermagem planeja registrar uma queixa contra um hospital por expor seus trabalhadores ao vírus, segundo seu secretário-geral, Cassim Lekhoathi.

"Os setores público e privado são deficientes. Adquiriram EPI [equipamento de proteção], mas na linha de frente não há disponível", disse Lekhoathi. "Realmente, é uma pena que nossos membros tenham que recorrer à greve, que é a última coisa desejável no meio de uma pandemia", explicou.

Nigéria

Na Nigéria, o país mais populoso da África, há mais de 800 casos e 11 mortes entre profissionais da saúde, segundo a Agência Nacional de Controle de Doenças (NCDC).

Os médicos dos hospitais públicos, que muitas vezes estão muito deteriorados e subfinanciados, iniciaram uma greve na segunda-feira para protestar contra as más condições de trabalho, incluindo a falta de equipamento de proteção.

"Somos uma espécie em extinção. Nossos membros precisam enfrentar riscos diários de infecção porque não há EPIs suficientes", disse uma pessoa encarregada da Associação Médica da Nigéria. "Em Lagos, alguns trabalhadores da saúde foram detidos pela polícia por supostamente violar o toque de recolher" durante o confinamento, acrescentou.

E à medida que o número de infecções aumenta, o país está ficando sem leitos em salas de isolamento. Em breve não haverá nenhum.

O diretor do NCDC, Chikwe Ihekweazu, insistiu que as autoridades estavam fazendo todo o possível para garantir equipamentos de proteção suficientes.

Quase 16 mil profissionais da saúde foram treinados para combater o vírus, e as autoridades aconselham as pessoas com Covid-19 a ficar em casa, em vez de isolá-las em um hospital.

"A pandemia representou um desafio significativo para os sistemas de saúde em todo o mundo", disse Ihekweazu. "Ainda estamos aprendendo muito", concluiu.

Quênia

Representantes do setor de saúde no Quênia também afirmam que há cada vez mais casos de coronavírus entre os profissionais de saúde.

Segundo o Dr. Chibanzi Mwachonda, secretário-geral interino da União de Médicos, Farmacêuticos e Dentistas do Quênia, a maioria dos médicos infectados não trabalha em hospitais onde a Covid-19 é tratada. Muitos trabalhadores foram infectados na emergência e nos blocos operatórios por pacientes que estavam sendo tratados por outros problemas, disse ele.

Em todo o país, greves e manifestações foram realizadas nas últimas semanas, para protestar contra a falta de equipamentos. No entanto, a mobilização durou pouco, pois o governo prometeu usar parte dos U$ 2 bilhões do fundo de emergência para garantir que o setor de saúde tenha "o material e o pessoal médico necessários" para enfrentar a pandemia.


AFP/Dom Total



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!