Religião

19/06/2020 | domtotal.com

Cristãos na política, não pela política

A volta do constantinismo: o movimento que contradiz as lutas históricas de pensadores e santos católicos contra o pacto nocivo entre fé e política

Pintura que retrata o momento em que Constantino concede a tiara imperial a papa Silvestre I, símbolo da 'doação de Constantino' - (Século XIII).
Pintura que retrata o momento em que Constantino concede a tiara imperial a papa Silvestre I, símbolo da 'doação de Constantino' - (Século XIII). (Domínio público)

Mirticeli Medeiros*

Em tempos sombrios, hora de revisitar algumas páginas da história. Uma frase do cientista político Luís Bresser, me motivou a fazer esse resgate. Ele diz que “embora a religião não seja um requisito das nações, muitas vezes o nacionalismo, no processo de construir e consolidar o estado-nação, usa a religião como instrumento de coesão social e fortalecimento de legitimidade”. E não preciso acrescentar mais nada a essas palavras tão certeiras e atuais.

Não que os cristãos não possam se envolver a política. Entretanto, não lhes é permitido “politizar” a fé, o que é bem diferente. E é essa confusão em relação ao papel do cristão na política que tem desacreditado a própria missão da igreja atualmente. A instituição, de acordo com sua própria Doutrina Social da Igreja (DSI), declara-se neutra, o que não a impede de prezar pela promoção da dignidade humana em toda e qualquer circunstância, justamente por este ser um dos pilares da doutrina cristã.

O tema da justiça social, por exemplo, encontrou amplo espaço nos discursos papais da era contemporânea, a começar pela Rerum Novarum, de papa Leão XIII, considerado o fundador da DSI. E um, em particular, chama a atenção: a rádio-mensagem de Pio XII (Eugenio Pacelli) por ocasião da festa de Pentecostes, em 1941: o discurso que fazem questão de engavetar. Instrumentalizado por olavistas como “último papa anti-modernista”, por causa de seu decreto contra o comunismo stalinista, esse pontífice disse algo que passou despercebido pelos “católicos politizados” da atualidade, os quais sequer folhearam o compêndio da doutrina social da Igreja ao menos uma vez na vida. E isso explica esse fundamentalismo e esse neo ultramontanismo anti-papal do presente.

Papa Pacelli, após defender a propriedade privada e mostrar simpatia pela economia de mercado, como seus predecessores o fizeram, disse algo com a intenção de equilibrar o próprio discurso. Com isso, ele não queria contradizer o que doutrina social católica propunha - a qual, à época, estava em fase de construção e fundamentação: “Chamamos a atenção de todos sobre o seu ponto fundamental, que afirma, como dissemos, a exigência incontestável de que os bens criados por Deus para todos os homens afluam a todos eqüitativamente, segundo os princípios da justiça e da caridade”. Ou seja, a Igreja Católica deixava sinais claros que os valores sociais atestados pelo cristianismo, independente do sistema político dominante, são inegociáveis.

O constantinismo

Há tendência que se observa, em se tratando de catolicismo, desde a época de Constantino, no século IV: o imperador que se fez cristão para executar sua política de expansão. É por isso que os professores de história eclesiástica chamam esse pacto nocivo entre fé e política de “constantinismo”. Por definição, trata-se da instrumentalização da fé e de seus símbolos para fins políticos. E seria, por assim dizer, “a irmã mais velha” do cesaropapismo: quando o imperador, sobretudo na fase bizantina, controlava a igreja e o território. E era tido como “o enviado de Deus” para assumir essa “missão”. E isso se refletiu mais tarde também no Ocidente. Entre os séculos VII e X, em pleno processo de feudalização, os soberanos germânicos praticamente controlavam a eleição do sumo pontífice, por exemplo.

O historiador italiano Sergio Tanzarella, professor da Universidade Gregoriana de Roma, é um dos acadêmicos que repropõe o uso do termo, refletindo sobre os mandos e desmandos do presente. Ele diz que o Concílio Vaticano II, realizado na década de 60, tentou romper com esse constantinismo. Segundo ele, tal “vício de corte” jamais havia sido condenado pela Igreja Católica até então, e foi o teólogo Yves Congar um dos promotores desse movimento de ruptura.

“Nunca foi registrada uma denúncia nem nos tempos nos quais a igreja tinha uma estreita ligação com o feudalismo, detinha do poder temporal, os papas e bispos eram senhores com corte, protegiam os artistas, se comportavam como Césares. Isso nunca foi repudiado pela Igreja. Nunca houve, até aquela data, um programa concreto de saída da era constantiniana”, disse.

A questão romana

Basta nos lembrarmos também da chamada “questão romana”, movimento que ficou conhecido como a tentativa dos papas de retomarem o poder temporal após a queda do estado pontifício, em 1861, sob o pontificado de Pio IX. Após uma série de tratativas, foi criado o Estado da Cidade do Vaticano, em 1929, através do chamado Pacto lateranense. Naquele ano, foi firmado um acordo entre o papa Pio XI e o ditador Benito Mussolini para garantir a soberania da Igreja Católica num território desmembrado da Itália, onde fica localizada a sede da Igreja Católica hoje.

A verdade é que foi difícil para os papas “largar o osso” após a perda dos territórios pontifícios, os quais estavam sob a jurisdição do bispo de Roma por causa de uma lenda medieval chamada “a doação de Constantino” - a Constitutum Costantini. O filólogo italiano Lorenzo Valla descobriu, em 1440, que se tratava de um documento falso e, por conseguinte, o imperador jamais teria feito, de fato, essa doação. Esse texto, sobretudo na idade média, serviu para respaldar o domínio papal sobre a cidade de Roma, sobre a Itália e sobre todo o território imperial.

“A percepção da permanência de um modelo constantiniano foi um elemento recorrente nos anos que precederam o concílio. O professor Friedrich Heer, da Universidade de Viena disse que a ação de Constantino teria influenciado por muitos séculos a Europa através da politização da teologia e a sacralização da política”, ressaltou Tanzarella.

Os políticos “religiosos”

E não podemos deixar falar do cristianismo positivo de Adolf Hitler, que fez despontar a revolta do grande Dietrich Bonhoeffer, o mártir do protestantismo e da chamada “Igreja Confessante”, que profeticamente lutou para que a sua instituição não fosse instrumentalizada pelo Terceiro Reich.

A meu ver, não podemos dizer que exista um sistema político que se assemelhe ao nazismo ou ao fascismo na atualidade. Porém, podemos falar, sim, que esse despertar do sentimento religioso, para auxiliar na difusão de algumas ideologias políticas, é uma das fortes estratégias de mobilização que copiam fielmente as adotadas pelos regimes totalitários. Ou se esqueceram que Mussolini - diga-se ateu e anticlerical -, estabeleceu que o ensino religioso católico era uma das disciplinas que não poderiam ficar de fora da grade curricular das escolas italianas? Só para citar um exemplo.

A liberdade da igreja é inegociável. E transformar político em “messias” contradiz justamente essa liberdade que lhe é própria. Ora, se um político acaba se tornando a personificação do bem, ele acaba tomando lugar do profetismo da instituição. Uma igreja partidária jamais testemunhará Jesus Cristo. E foi foi o próprio catolicismo a reconhecer que essas brechas dadas à politização da sua mensagem, só serviram para desvirtuar o seu papel. Foi o próprio Bento XVI a atestar, inclusive, que foi providencial que a igreja perdesse o seu poder temporal, justamente para “que Cristo pudesse resplandescer”. 

É por isso que, “a cada papado que passa”, os sumo pontífices articulam a própria diplomacia em torno de questões fundamentais, centradas, sobretudo, na promoção da dignidade humana; esquivando-se de conflitos e promovendo o bem comum. Sendo assim, esses católicos do “auê”, que fazem questão de acentuar ainda mais a polarização em seus discursos, não representam, nem de longe, o catolicismo contemporâneo. Pudera, afinal, muitos deles pararam em Trento...

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.



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