Mundo

22/06/2020 | domtotal.com

Donald Trump, graças ao demo, é sempre fonte de notícia


'Graças ao demo' é, evidentemente, um trocadilho com 'graças a Deus'. Não existe figura mais divisora do que ele na cena internacional, um palco onde há de tudo, desde maus adorados a bons achincalhados

Se não tivéssemos outros interesses, poderíamos escrever todas as semanas um folhetim sobre as aventuras e desventuras do homem mais odiado, perdão, mais poderoso do mundo
Se não tivéssemos outros interesses, poderíamos escrever todas as semanas um folhetim sobre as aventuras e desventuras do homem mais odiado, perdão, mais poderoso do mundo (AFP)

José Couto Nogueira*

Donald Trump é o presidente que finalmente tornou realidade todos os preconceitos dos anti-americanos, daqueles que só veem os Estados Unidos como a materialização do Mal – esquecendo-se, ou não querendo saber, que o país foi feito pelos excluídos de todos os outros países, que se juntaram por falta de outra opção, e que ainda não têm uma identidade comum.

(Pode dizer-se “um português,” que logo se conhecem as suas características comuns, mas não se pode dizer um norte-americano, porque são de muitas maneiras.)

Então esquecem-se, ou não querem saber, que é o país em que a polícia mata facilmente um negro, mas que elegeu um negro presidente; que é um país que tem mais universidades que o resto do mundo, mas onde a teoria do criacionismo tem estatuto legal; que foi à Lua e não tem Segurança Social. E por aí afora.

Tudo isto para dizer que Trump não é os Estados Unidos e, como todos os dirigentes, é o produto e não o produtor. Há que tentar o impossível: analisá-lo sobriamente. 

Analisá-lo é fácil, uma vez que, não só tem uma exposição ímpar do Museu Vivo da Terra, como se expõe minuciosamente através da tecnologia universal-intantânea do Twitter. Sobriamente, é mais difícil. Não sei se consigo, mas vou tentar: apenas relatar as notícias trumpianas desta semana, sem meter adjetivos.

Os Estados Unidos estão passando por maus bocados. A começar pela perda do poderio universal (ideológico e material) para a China – todo mundo já viu isso, das grandes cabeças pensantes às almas mais simples.

Contudo, apesar do acordo internacional, essa decadência não pode ser vista da mesma maneira por todo mundo. Na verdade, ninguém pode prever como será uma derrocada antes dela se desenrolar à sua frente. E os pormenores são sempre constrangedores, mesmo para os desafetos. Não é bonito ver uma águia perder as asas – ou, pior, atrapalhar-se com elas.

Então, essa semana correu mal para o (ainda) homem mais poderoso do mundo. Parece até uma tragédia shakespeariana adaptada ao século 21. É preciso não esquecer que para ele a única coisa que interessa, tal como o coronavírus, é reproduzir-se – multiplicar os quatro anos o maior número de vezes possível. (Sim, é inconstitucional, mas para ele a Constituição é sempre contornável)

Primeiro, como pano de fundo, a peste. Nenhum país a previu, mas reagiram de modos diferentes, e não é excessivo dizer que a pior reação foi a da Administração Trump, com exceção talvez, de Bolsonaro. Os Estados Unidos estão à frente com mais infectados e mortos, prestes a ser ultrapassado pelo Brasil. A Covid-19, que é negada por alguns radicais e aprendizes de Feiticeiro, nunca entrou verdadeiramente na realidade trumpeana. 

Donald Trump começou por negar, depois disse que desapareceria com a primavera. A seguir acusou os chineses de o terem apanhado de surpresa, mas considera que deu uma resposta wonderful e, finalmente, essa semana, perante a persistência dos números, que subiram em 20 estados, resolveu passar a ignorar o assunto. Disse na Fox News, citado pela Blomberg: “Estamos muito próximos de uma vacina e muito próximos de um remédio, um remédio realmente bom. Mas, mesmo sem isso, nem gosto de falar no assunto, porque (a epidemia) está desaparecendo, vai continuar a desaparecer”.

A epidemia, para lá da centena de milhares de mortos e dois milhões de infectados, parou a economia do país, causou o maior desemprego desde a Grande Depressão de 1929, e confinou milhões de pessoas. Isto a cinco meses das eleições presidenciais. 

Por mais que a culpa seja dos chineses e a resposta do presidente wonderful, o fato é que os votantes estão descoroçoados. A sua fiel base de 40%, que topa tudo, está nitidamente diminuindo. Os indecisos e os hesitantes que, como se sabe, decidem todas as eleições, mostram-se cada vez mais decididos perante a hesitação de quem os devia orientar.

Em cima dessa insistente chatice, que não tem como fazer puf e desaparecer, aconteceu o infeliz caso do assassinato de um negro pela polícia. Um fato aparentemente corriqueiro, acabou sendo gravado por várias câmeras, provocando uma agitação social sem precedentes desde de 1968. Tal agitação transformou-se em um dos mais abrangentes protestos de que se tem memória, não só em dezenas de cidades norte-americanas, mas em todo o mundo. O movimento Black lives matter, que nasceu em 2013 e teve altos de baixos, de repente tornou-se numa corrente universal imparável.

Trump, que nunca esteve à vontade com as reivindicações dos negros e sempre mostrou simpatia pelos supremacistas brancos e pela “lei e ordem”, reagiu da pior maneira, ameaçando por o Exército na rua contra os “desordeiros” – para, em seguida, se ver desautorizado pelas próprias Forças Armadas, que nos Estados Unidos têm a tradição institucional de não se meter em política. Há mesmo uma lei, a Posse Comitatus, de 1878, que as proíbe expressamente de usar força militar contra a população civil.

O problema está longe de resolvido e, muito provavelmente, como em outras ocasiões semelhantes, não tem solução, uma vez que se trata de uma atitude que vem do tempo da escravatura e parece fazer parte da cultura intrínseca do país. O fato é que Trump nem sequer teve o cuidado de disfarçar o problema com os habituais discursos da praxe, e acaba de promulgar uma fraquíssima e diluída reforma policial que será ainda mais enfraquecida no Senado Republicano, chefiado pelo inacreditável fariseu Mitch McConnell, que já anunciou que não cederá um milímetro a um projeto mais incisivo dos democratas.

Com tudo isso fervendo, a Câmara dos Representantes marcou para a próxima semana a discussão de uma lei para tornar o Distrito de Columbia (semelhante ao Distrito Federal, de Brasília) o 51º Estado americano. O tema, que não vinha à baila desde 1993, não é totalmente pacífico, nem apenas geográfico. Caso se torne um estado, Columbia irá fornecer mais dois senadores, certamente democratas, e ganhará várias regalias que os republicanos não têm interesse em conceder à capital. 

Além disso, a presidente da Câmara de Washington é negra, Muriel Bowser, que, para resumir a sua posição, mandou escrever Black lives matter de amarelo, em letras garrafais na avenida onde Trump passa todos os dias quando sai da Casa Branca. Também sobre esta lei, Mitch já deu o seu veredicto: “Enquanto eu for o líder da maioria no Senado, nada disto vai a lado nenhum.”

Parece que chega, para uma semana agitada. Mas não.

Foi anunciada pela prestigiada editora Simon & Schuster a publicação de dois livros sobre Trump que prometem ser ainda mais demolidores do que as dezenas de livros que já saíram sobre o presidente. Poder-se-ia pensar que, neste capítulo, não seria possível revelar nada de pior do que já tenha sido revelado por jornalistas investigativos, ex-funcionários da Casa Branca e especialistas políticos. Mas o pior é sempre possível, como se diz em Ciências Sociais.

O primeiro livro, O gabinete onde tudo aconteceu, é da autoria de John Bolton, que foi o terceiro asessor de segurança Nacional de Trump, durante 17 meses, entre 2018 e 2019. Bolton é uma figura controversa, agressiva e nacionalista. Subiu nas presidências de Ronald Reagan e George W. Bush, tornando-se com este último embaixador dos Estados Unidos nas Nações Unidas, órgão que detestava. Tem sido, ao longo dos anos, um dos mais violentos defensores duma política externa linha-dura, a favor de atacar a Coreia do Norte e o Irã. Parecia perfeitamente enquadrado dentro das ideias extremas de Trump, mas na realidade são dois nacionalistas diferentes: o presidente quer retirar os Estados Unidos da arena internacional, Bolton quer interferir em toda a parte. Enquanto assessor, liquidou o tratado nuclear com o Irã e o das armas nucleares de médio alcance com a Rússia. E defendia o reforço da Otan, que Trump considera uma despesa inútil.

Nunca deixando de dar a sua opinião a um presidente que não gosta de ouvir opiniões, deixou claro que não gostava do “namoro” do seu chefe com Kim Jong-un e com Vladimir Putin. Finalmente, as posições dos dois tornaram-se irreconciliáveis e demitiu-se em setembro do ano passado. Trump diz que foi ele que o demitiu, por Twitter, é claro.

Durante o inquérito que levaria à tentativa de impugnação de Trump,  manteve-se calado, recusando-se a depor na Comissão da Câmara dos Representantes. Parecia que não queria trair a confiança que tivera com o presidente, mesmo discordando dele. Mas depois, não se sabe porquê, mudou de ideia.

O gabinete onde tudo aconteceu será publicado na próxima terça-feira, mas vários veículos de comunicação já o têm, como a CNN e The New York Times. O que ele conta é extremamente prejudicial para o ex-chefe, primeiro porque é o mais próximo colaborador de Trump a falar, e depois pelo que diz.

Bolton escreve que Trump pediu a Xi Jinping que o ajudasse a vencer as eleições presidenciais de 2020, pois é importante para os agricultores americanos, uma das suas bases mais fiéis, o aumento das exportações de soja para a China. Esta franqueza, ou fraqueza, perante o “inimigo”, deixou Bolton particularmente furioso.

Também conta que o presidente elogiou o internamento em campos de concentração dos muçulmanos Uighur, além de desabafar que alguns jornalistas deviam ser “executados” e considerou que seria bacana invadir a Venezuela.

Segundo ele, as investigações sobre a impugnação de Trump, especialmente as do procurador especial Müller, deviam ter averiguado não apenas a Ucrânia, mas outros episódios em que usou negociações comerciais e investigações criminais para se favorecer politicamente. E descreve episódios concretos em que Trump pediu favores pessoais a ditadores que via favoravelmente, como Racip Erdogan e o já citado Xi Jinping.

Além disso ignorava as situações mais básicas da política internacional, como quando perguntou se o Reino Unido tem armas nucleares ou a se a Finlândia faz parte da Rússia.

Os advogados de Trump e o ministro da Justiça, William Barr, estão tentando impedir a publicação do livro, mas já é tarde e há poucas possibilidades de conseguirem. O argumento seria que Bolton revela segredos de Estado. O Ministério da Presidência (State Department, equivalente ao Ministério das Relações Exteriores) nada disse sobre o assunto, mas Trump não resistiu e twettou, nessa quinta-feira:

“O livro do maluco (wacko) John Bolton, considerado 'excessivamente chato' pelo New York Times, só tem mentiras e histórias falsas. Só falava bem de mim até o dia em que o despedi. Um doido chato e desiludido que só queria fazer guerras. Nunca percebia nada, foi ostracizado e felizmente descartado. Um parvalhão (dope)!”

O outro livro que vai sair é da autoria de Mary Trump, filha do irmão mais velho de Donald, Fred Trump Jr., que morreu em 1981 de alcoolismo, depois de ter se afastado dos negócios da família. Mary é psicóloga e, segundo ela própria revelou, foi quem contou ao The New York Times as trapalhadas fiscais do tio. O livro tem um nome longo e sugestivo: Demais nunca é demais: como a minha família criou o homem mais perigoso do mundo. Segundo o The Guardian, o livro revela o clima tóxico que existia na família e que está na origem da sua visão distorcida do mundo.

Na informação divulgada pela Simon & Schuster, Mary resume a obra como “um pesadelo de traumas, relações destrutivas e uma mistura de negligência e abuso, que explica o funcionamento íntimo duma das famílias mais poderosas e disfuncionais do mundo". 

Os advogados de Trump também estão tentando proibir essa publicação, o que será ainda mais difícil, uma vez que não poderão alegar quebra de “segredos de Estado”.

Finalmente, Trump sofreu duas derrotas no Supremo Tribunal de Justiça, apesar deste ter uma maioria de conselheiros conservadores. A primeira foi confirmar a impossibilidade de um empregador recusar dar trabalho a uma pessoa por ser LBGT. 

Em outra decisão, o Tribunal manteve que jovens que entraram com os pais ilegalmente nos Estados Unidos e depois cresceram e tornaram-se cidadãos “normais” – com trabalho e família – não podem ser deportadas. O programa que lhes dava essa garantia, o Daca (Deferred Action for Childhood Arrivals) tinha sido instituído por Obama e foi sempre um cavalo de batalha de Trump.

Claro que estas derrotas jurídicas têm um valor apenas simbólico, nada comparável com casos substanciais, como a pandemia de Covid-19 e a agitação civil do movimento Black lives matter.

Se não tivéssemos outros interesses, poderíamos escrever todas as semanas um folhetim sobre as aventuras e desventuras do homem mais odiado, perdão, mais poderoso do mundo. Mas até agora nenhuma seria tão humilhante como esta. Ou Deus é justo, ou há mesmo coisas do demo.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.



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