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23/06/2020 | domtotal.com

Taxa de mortalidade da Covid-19 é 150% maior entre indígenas

Novo coronavírus já matou mais 324 indígenas e contaminou outros 4.185

Liderança indígena histórica, Paulinho Paiakan morreu vítima de Covid-19
Liderança indígena histórica, Paulinho Paiakan morreu vítima de Covid-19 (Mídia Ninja)

A taxa de mortalidade da Covid-19 entre indígenas (número de óbitos por 100 mil habitantes) é 150% mais alta do que a média brasileira e 19% mais elevada do que a registrada somente na região Norte, "a mais elevada entre as cinco regiões do país. O cenário é demonstrado na análise sobre o impacto da Covid-19 nessa população feita pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), divulgada nessa segunda-feira (22).

Levantamento do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) atualizado nessa segunda-feira (22), aponta 4.185 casos confirmados e 324 óbitos (incluindo indígenas em contexto urbano).  

A taxa de letalidade, ou seja, quantas pessoas infectadas pela doença morreram, também é preocupante: entre os indígenas, o índice é de 6,8%, enquanto a média para o Brasil é de 5% e, para a região Norte, de 4,5%.

Já a taxa de infecção pela doença por 100 mil habitantes entre os indígenas é particularmente elevada se comparada com a média do Brasil . Ela não é maior do que o índice de toda a região Norte, mas demonstra uma inclinação da curva mais aguda. "Nesta análise, traduzimos em números aquilo que tem sido mostrado e falado pelos povos indígenas desde o início da pandemia: esta é uma população extremamente vulnerável ao novo coronavírus e, como tal, precisa receber um tratamento diferenciado", diz a diretora de Ciência do IPAM, Ane Alencar.

A equipe da Coiab trabalha diariamente com dados de casos de infectados e óbitos levantados e sistematizados, com o objetivo de apresentar informações mais próximas da realidade do que os dados oficiais, disponibilizados pelo Ministério da Saúde. O estudo levanta algumas possíveis explicações para a taxa alta de infecção, mortalidade e letalidade entre os povos indígenas. Além disso, a análise aborda alguns temas como: os sistemas deficientes de cuidados específicos a essa população; o possível baixo grau de imunidade indígena a patógenos exógenos ao seu ambiente; e a problemática da invasão das terras indígenas por atores que podem levar o vírus para dentro dos territórios e comunidades.

"Os dados da Coiab vêm para fortalecer os dados do governo federal. Estamos levantando as informações oficiais das organizações indígenas sobre a realidade que estamos vivendo hoje. É um controle social, que faz parte do trabalho de atenção básica de política de saúde", explica Mário Nicácio, vice-coordenador do Coiab.

Nara Baré, Coordenadora Geral da Coiab, destaca que "devido ao número alto de subnotificações da doença, e a própria omissão do Estado em não acompanhar os casos dos indígenas em contexto urbano, esses números, na verdade, estão muito abaixo do real. Chegamos mais próximo do número de óbitos, mas de suspeitos e infectados, lamentavelmente, eles são muito maiores".

"Trata-se de vidas, de atenção, de acompanhamento, e do trabalho de toda uma equipe que a gente mobilizou para poder, não somente contabilizar, mas dar visibilidade a essa situação. É uma iniciativa indígena que busca esclarecer e orientar o poder público, e dar orientações e encaminhamentos para as comunidades indígenas. Estamos muito preocupados com a pandemia do coronavírus e temendo que aconteça uma morte em massa dos povos indígenas pela falta de apoio do Estado brasileiro", alerta Mário Nicácio.

Subnotificação

Conforme o estudo, os casos de Covid-19 aumentaram consideravelmente entre a população indígena da Amazônia desde que a primeira vítima da doença morreu, no dia 19 de março de 2020. Desde então, a SESAI registrou 2.219 casos, enquanto o levantamento da Coiab contabilizou 1.443 adicionais, totalizando 3.662 casos confirmados, indicando grave subnotificação oficial de 39%. "Esta subnotificação no número de óbitos é consequência, não só, mas também do protocolo oficial que exclui indígenas residentes, mesmo que temporariamente, nas cidades", diz o texto do estudo.

Na conclusão, os pesquisadores ressaltam ser ?urgente que se retome o respeito aos direitos indígenas e o processo de demarcação de suas terras. O nível de resposta às florestas que queimaram no ano passado deve ser maior quando se trata da vida daqueles que as protegem". 

O texto ainda destaca que o "Artigo 231 da Constituição Federal reconhece aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens". Os direitos garantidos na Carta Magna não têm sido aplicados nos últimos anos; muito pelo contrário: o discurso político atual traz a noção oposta e fere as premissas mais básicas, quando o processo demarcatório de terras indígenas têm suas diretrizes revisadas e ações jurídicas movidas para a implementação do marco temporal avançam. "Medidas desta natureza demonstram o grau de esforço que ainda precisa ser feito para que os povos indígenas sejam de fato sujeitos de direito".


Coiab / Dom Total



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