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28/06/2020 | domtotal.com

Estudantes africanos temem perder o ano por falta de recursos durante pandemia

Sem aulas presenciais, jovens enfrentam dificuldades para acompanhar atividades on-line

Membros de uma família estudam juntos em sua casa de Cartum, após o fechamento de escolas e universidades pelo coronavírus em março
Membros de uma família estudam juntos em sua casa de Cartum, após o fechamento de escolas e universidades pelo coronavírus em março (Arquivos/AFP)

A estudante sul-africana Kholofelo Mohale recebe feliz a notícia da reabertura de sua universidade, fechada por dois longos meses, devido à pandemia de Covid-19. Isso significa que ela poderá recuperar seu quarto de estudante, rever os amigos e retomar os cursos, ainda que de forma parcial.

"Somos seis em casa", diz essa estudante da prestigiosa Faculdade de Economia Witwatersrand, em Johannesburgo. "Quando todos estamos aqui, mal tem lugar na mesa", conta.

Assim como no caso de outros 100 milhões de estudantes em todo mundo – de acordo com estimativas de especialistas –, a educação de Mohale foi brutalmente interrompida pela pandemia. A jovem foi enviada para casa, onde deveria acompanhar os cursos on-line.

Para ela e para muitos jovens na África subsaariana, porém, a alternativa chegou rapidamente a seus limites. Sem um computador, ou sem um acesso permanente à Internet, o ano escolar se transformou em uma incógnita, com enormes desafios.

Em sua modesta casa no pobre povoado de Alexandra, a estudante sul-africana precisa estudar à noite para ter mais tranquilidade e uma velocidade mínima de Internet. "Espero não ter perdido dois meses", preocupa-se, acrescentando: "tenho que recuperar o tempo perdido".

Se a situação já é difícil para os estudantes pobres da África do Sul, um dos países mais ricos do continente, o quadro é ainda mais complicado em outros lugares.

"Meus pais são pobres. Tiveram que vender parte da colheita para comprar um telefone celular para mim", conta Annet Karabo, de 28 anos, que estuda Ciências Sociais na Universidade Cristã de Mukono, Uganda. "O governo suspendeu as aulas e sequer nos reembolsaram", lamenta.

Em vez de aulas, palavras cruzadas

Estudante de Jornalismo em Douala, na República dos Camarões, Floriane Wiltord critica sua universidade privada por descumprir suas promessas. 

"Nosso estabelecimento garantiu que faria cursos on-line, mas raramente fez isso", reclama. "Sequer era educação a distância. No nosso caso, colocaram cursos on-line que já tinham sido dados antes do fechamento", critica.

O mesmo aconteceu na Universidade de Djamena, capital do Chade. "Não se fez nada para nos permitir continuar os cursos, mesmo a distância", reclama Moussa Nestor, de 25 anos, no segundo ano de Ciências Humanas. "Eu e meus amigos passamos nosso tempo jogando palavras cruzadas", relata.

Para não perder tempo, Amadou Kouyaté, de 24, um guineano que estuda Jornalismo na Universidade de Dacar, capital do Senegal, está trabalhando como entregador de comida para um restaurante. "Foi um período difícil", contou Kouyate, que disse ter experimentado em seu quarto, perto da universidade, um "certo sentimento de solidão".

Porta-voz da Associação de Universidades Africanas, com sede em Gana, Felicia Kuagbedzi afirma que a crise tornou possível chamar atenção para o atraso do continente em relação à educação on-line.

"Um dos impactos positivos é que os estudantes e professores que não eram muito conhecedores de tecnologia começaram a se envolver", diz ela. "Espero que esta tendencia continue depois da pandemia", completou.


AFP



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