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23/06/2020 | domtotal.com

Spike Lee faz a coisa certa

'Destacamento Blood' não é apenas mais um filme de guerra

Cena de 'Destacamento Blood'
Cena de 'Destacamento Blood' (David Lee/Netflix)

Alexis Parrot*

Bem no início de Faça a coisa certa, o personagem DJ de Samuel L. Jackson anuncia (como quem avisa) de sua cabine de rádio FM: "a cor do dia é o negro". A vizinhança majoritariamente composta por negros e latinos naquele canto do Brooklyn encara um dos dias mais quentes do ano, o que só faz aumentar a tensão racial. Quanto mais sobe a temperatura, os ânimos também vão se acirrando até o caldo entornar de vez.

Os dias continuam infernais trinta anos depois e Spike Lee volta à carga, levantando sua bandeira novamente. Na hora em que o movimento "Vidas negras importam" toma as ruas do mundo inteiro, o diretor nos brinda com mais uma história da negritude, sua missão assumida a partir do primeiro curta-metragem. O filme é Destacamento Blood (Netflix) e a denúncia que faz sobre a participação dos negros norte-americanos na guerra do Vietnã é de fazer Lyndon Johnson e Nixon se revirarem de vergonha no túmulo.

Enquanto nos EUA o movimento pelos direitos civis dos negros era esmagado violentamente, milhares de afro-americanos (em número absurdamente desproporcional, se comparado com a quantidade de soldados brancos) eram enviados para morrer na Ásia por uma causa que definitivamente não era deles. Desde a guerra de secessão o discurso patriótico cobrava esse engajamento, muito embora a pátria nunca tenha demonstrado gratidão alguma pelo sacrifício, guerra após guerra.

Verdadeiro griot da causa negra, Lee é também refinado cineasta, com estilo próprio e inconfundível. Seus filmes atingem rara articulação entre militância e estética e nos acertam como verdadeiros socos no estômago. Não por acaso, os créditos iniciais de Faça a coisa certa mostram a estreante Rosie Perez dançando uma coreografia que simula uma luta de boxe ao som de Fight the power, do Public Enemy. Ninguém nunca vai poder acusá-lo de não ser claro quanto a que veio e para que.

Quatro veteranos voltam ao Vietnã atual para recuperar os restos mortais do líder de seu esquadrão, caído em combate, além de resolver outras pendências também enterradas desde a época da guerra. A aventura assume outros contornos à medida que avança, revolvendo memórias e questionando princípios arraigados nos personagens.

Temas como paternidade, lealdade, honra e patriotismo emergem em plena selva e são tratados de forma transparente e adulta pelo diretor, enquanto a história do movimento negro vai sendo recuperada, sem didatismo e de forma orgânica dentro da narrativa. Cumprida a missão original, os remanescentes entoam não o protocolar rest in peace, mas rest in power - descanse na força, em tradução livre - emulando toda a retórica do movimento black power dos anos 70. 

Poderoso é também o elenco, com protagonistas e coadjuvantes completando-se uns aos outros, cada um com tons próprios de interpretação e funções bem demarcadas na história. Esta vai e volta no tempo, ancorada em soluções simples e poéticas, evitando distrações. Se Scorsese tivesse visto este filme antes de fazer O irlandês, talvez poupasse metade do orçamento gasto em efeitos especiais de rejuvenescimento em Robert DeNiro e companhia limitada. 

Delroy Lindo vive o grande momento de sua carreira, ao encarnar de maneira intensa o paranoico e agressivo Paul, um papel extenuante do ponto de vista de físico e emocional. O monólogo que ele faz olhando para a câmera enquanto anda sozinho pela selva é daquelas cenas que justificam a existência do cinema. O teor do texto, mais assombroso ainda, é praticamente uma declaração de guerra (ou de legítima defesa, como defendia Malcolm X) ao establishment branco e ao governo de horror encabeçado por Trump.

Se não for indicado ao Oscar no ano que vem, podem mandar fechar a Academia de vez.

Chadwick Boseman, reconhecido pela dignidade que trouxe ao Pantera Negra, é outro que rouba a cena a cada aparição como o soldado morto na guerra. Se o filme da Marvel fez com que crianças negras finalmente pudessem ter um herói com quem de fato se identificar no universo de parque temático habitado pelo Capitão América, Viúva Negra e Homem de Ferro, este Destacamento Blood usa o ator de forma mais radical ainda.   

Com firmeza, carisma e doçura, Boseman encarna agora um misto de anjo e assombração. Sua lembrança é a consciência que faz com que os amigos mantenham os pés no chão e fiéis às lutas que realmente importam, notadamente muito mais as coletivas do que as individuais. E na vida real, não em Wakanda.

Ainda que Apocalypse now seja até citado de forma bem humorada, para quem espera o típico filme de guerra do Vietnã, esta decepção acaba sendo o trunfo da produção. Esqueça Nascido em quatro de julho, Amargo regresso e até Platoon. A guerra aqui é outra e ainda não terminou. Continua sendo travada - nas ruas de Minneapolis, Minnesota, Washington e tantas outras cidades.  

Sem titubeios, a maturidade de Spike Lee como realizador levanta questões urgentes, mas de maneira tão bem conduzida que eleva a militância a outro patamar. Destacamento Blood é um grande filme e também uma convocação para que nos posicionemos e façamos a coisa certa.

(DESTACAMENTO BLOOD - filme de Spike Lee em cartaz no Netflix)

*Alexis Parrot é crítico de televisão, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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