Religião

26/06/2020 | domtotal.com

João Batista, a radicalidade do anúncio

A radicalidade do anúncio de João Batista o coloca na esteira dos grandes profetas bíblico

Batismo de Jesus por João retratado pelo artista Dosso Dossi
Batismo de Jesus por João retratado pelo artista Dosso Dossi (Reprodução/ uffizi.it)

Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

"Apareceu um homem enviado por Deus, que tinha o nome de João. Ele veio para dar testemunho da luz e preparar o povo para a vinda do Senhor" (Jo 1,6-7; Lc 1,17), assim é apresentado João Batista na Antífona de Entrada da missa da solenidade do Santo. Mas quem foi João Batista? Os Evangelhos o descrevem como uma voz que clama no deserto e que chama ao arrependimento (Lc 3, 1-6). Uma testemunha fiel que viu e testemunhou o Cordeiro de Deus (Jo 1, 34-38). Um homem que vive a profecia antes mesmo de nascer, pois ainda no seio de sua mãe anuncia com alegria a chegada do Messias (Lc 1, 41). Um pregador corajoso que não tem medo de denunciar o pecado de soldados e reis (Lc 3, 7-14). Um asceta humilde que se alegra ao saber que aquele que ele anunciara havia passado à sua frente: "O amigo do esposo regozija-se com a voz do esposo. Nisso consiste a minha alegria, que agora é completa: importa que Jesus cresça e que eu diminua" (Jo 3,29-30). Um profeta. Sim, é mais que profeta, é o "maior entre todos os nascidos de mulher", dirá o próprio Jesus (Lc 7,28). Celebrar, pois, este santo precursor é reconhecer a importância da profecia na vida e na missão da Igreja, que nos impede de cair no "legalismo moral" e na doença do "alzheimer espiritual".

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A celebração da natividade de João, o Batista, é, com Maria, a única festa litúrgica que a Igreja dedica ao nascimento de um santo. A data do nascimento de João foi fixada a partir da cronologia sugerida pelos textos dos Evangelhos: três meses após a anunciação do Senhor e seis meses antes do Natal. Filho de Zacarias, o sacerdote emudecido, e de Isabel, a idosa estéril, o nascimento deste menino será uma dádiva divina como indica o seu próprio nome: Johanan em hebraico (no grego Joannes) significa "Deus recorda-se da sua misericórdia". De fato, o Senhor jamais poderia esquecer a "aliança feita a Abraão e à sua descendência para sempre". Esta também será a sua missão: acordar a memória do povo, chamando-o à conversão, e anunciar a vinda do Messias esperado.

Animado pelo Espírito Santo, Zacarias assim falou sobre a missão do seu filho: "E tu, menino, serás profeta do Altíssimo, pois irás à frente do Senhor preparando os seus caminhos, para dar a seu povo o conhecimento da salvação, na remissão de seus pecados, graças às entranhas de misericórdia de nosso Deus, pelas quais, do alto, nos visitará o sol nascente para iluminar os que estão nas trevas e na sombra da morte, e dirigir nossos pés no caminho da paz" (Lc 1, 76-79).  Tudo isso se manifestou tempos depois, quando João começou a batizar no rio Jordão, chamando o povo a se preparar, com gestos de penitência e arrependimento. Mas João não precedeu Jesus apenas no nascimento e na pregação, ele o precedeu também numa morte violenta, quando por falar a verdade foi decapitado na prisão a pedido do rei Herodes (Mt 14, 1-12).  

A radicalidade do anúncio de João Batista o coloca na esteira dos grandes profetas bíblicos. Suas palavras fortes revelam o caráter profético de sua pregação: "Crias de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para chegar? Produzi, pois, frutos dignos de vosso arrependimento" (Lc 3, 7-8). Frutos estes que não estavam relacionados com o culto ou prescrições rituais, mas com a vida cotidiana, com a ética do bem viver: "quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem, e quem tiver comida, faça o mesmo!" (Lc 3, 11). É interessante notar que a pregação de Jesus segue essa mesma radicalidade profética, quando, por exemplo, no seu discurso escatológico (Mt 25, 31-46), ele coloca como critério de julgamento universal a ética, a caridade, e não o culto.  

Celebrar a solenidade de João Batista é lembrar a cada um de nós, batizados e batizadas, que a profecia na Igreja não é uma opção, e, sim, uma urgência. A ausência do profetismo implica na perda da memória da promessa e da esperança de andar em frente seguindo os vestígios do Senhor. Como nos recorda o papa Francisco: "o profeta é um homem de três tempos: promessa do passado, contemplação do presente, coragem para indicar o caminho para o futuro". No passado, "o profeta está consciente da promessa e tem no seu coração a promessa de Deus, tem-na viva, recorda-a, repete-a. Depois, olha o presente, olha o seu povo e sente a força do Espírito para lhe dirigir uma palavra que o ajude a levantar-se, a continuar o caminho para o futuro", acrescentou o papa.

Para usarmos metáfora do papa Francisco, podemos afirmar que João Batista foi também um homem de três tempos, pois, ao denunciar a injustiça e o pecado do povo, chamando-o ao arrependimento, ele faz memória da aliança do Senhor e de sua infinita misericórdia que acolhe e perdoa um coração arrependido e, ao mesmo tempo, com seu anúncio, ele anima o povo no caminho da fé, porque Deus visitará o seu povo e o conduzirá no caminho da paz. De fato, quando nos falta a profecia, perdemos a memória da promessa, caímos "no pragmatismo cinzento da vida cotidiana da Igreja, na qual aparentemente tudo procede dentro da normalidade, mas na realidade a fé vai se deteriorando na mesquinhez. Desenvolve-se a psicologia do túmulo, que pouco a pouco transforma os cristãos em múmias de museu" (EG, n. 83).

Assim como Moisés conclama a "todo povo de Deus a ser profeta" (Nm 11,29), a Igreja hoje também precisa desse espírito profético. Pois ser profeta, não é simplesmente ser um crítico, um "recriminador de profissão". O verdadeiro profeta fala da esperança, anuncia com radicalidade a justiça do Reino, denuncia as injustiças e desvios da fé, mas ?sempre abrindo as portas de par em par e pondo em risco inclusive a pele pela verdade e para restabelecer as raízes e a pertença ao povo de Deus" (papa Francisco). Todos nós, batizados e batizadas, somos chamados (as) a assumir a nossa vocação profética. Pois o espírito da profecia nos arranca do fechamento no legalismo, nos liberta do "clericalismo" e nos faz abrir portas para o futuro.

Que saibamos acolher cada criança que nasce e reabre o futuro para o mundo, pois "em cada nascimento a novidade irrompe no mundo" (Hannah Arendt). Que a voz dos jovens profetas possa ressoar em nossas comunidades eclesiais e na sociedade, pois "um jovem tem algo de profeta e deve se dar conta disso. Deve estar ciente de que tem as asas de um profeta, a atitude de um profeta, a capacidade de profetizar, de dizer, mas também de fazer? (papa Francisco). Por isso, falando diretamente aos jovens, o papa diz: "a Igreja necessita do vosso entusiasmo, das vossas intuições, da vossa fé. Fazem-nos falta!" (Christus Vivit, n. 299). Que o exemplo, a intercessão e a inspiração profética de São João Batista, que anunciou a vinda do salvador do mundo e o mostrou já presente no meio dos homens, nos faça cada vez mais profetas da alegria, da esperança e da paz. Pois somente a profecia pode curar a Igreja da sua mudez e da sua esterilidade.


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*Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia ?" Arquidiocese de Teresina-Piauí.



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