Ciência e Tecnologia

27/06/2020 | domtotal.com

Teorias conspiratórias do movimento antivacina se expandem durante pandemia

Desinformação prejudica crença na eficácia da ciência pela sociedade

Pesquisador trabalha na vacina contra o novo coronavírus em um laboratório da Universidade de Copenhagen, na Dinamarca, em 23 de março de 2020
Pesquisador trabalha na vacina contra o novo coronavírus em um laboratório da Universidade de Copenhagen, na Dinamarca, em 23 de março de 2020 (AFP)

Um estudo da revista Nature estimou que, dada "a recente explosão de teorias antivacinas na Internet", "a rejeição da vacinação contra o SARS-CoV-2 pode intensificar surtos epidêmicos, como foi o caso do sarampo, em 2019". No ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou "dúvidas" sobre vacinas como uma das dez ameaças à saúde global.

De acordo com uma pesquisa do Wellcome Trust, em 2018, 7% das pessoas questionadas em 140 países acreditavam que as vacinas não eram seguras, enquanto 11% não tinham uma opinião sobre isso.

O movimento antivacina já se lançou no combate ao ainda inexistente antígeno contra a Covid-19, divulgando na Internet todo o tipo de desinformação sobre o tema: desde que será puro veneno até que serão introduzidos chips eletrônicos no corpo da população.

Um exemplo recente é o vídeo Plandemic, que acumula milhões de visualizações no Youtube e em outras plataformas desde maio. Entre os inúmeros dados falsos expostos no material, está que "as vacinas mataram milhões de pessoas".

O vídeo destaca ainda uma lista de substâncias com nomes perturbadores (fenoxietanol, cloreto de potássio e outros), presentes nas vacinas em quantidades tóxicas - o que também não é verdade.

Essas publicações são acompanhadas por milhares de comentários de usuários da Internet, muitos dos quais asseguram que não pretendem ser vacinados contra a Covid-19.

Embora a retórica antivacina não seja nova, a pandemia contribuiu para torná-la mais visível, explicam especialistas, enquanto pesquisadores do mundo inteiro trabalham em uma corrida contra o tempo para encontrar um antígeno.

'Câmara de ressonância'

Facebook, Twitter e Youtube, em particular, criaram uma "câmara de ressonância" muito eficaz para a desinformação promovida pelos adeptos do movimento antivacina, explica Sylvain Delouvée, pesquisador em psicologia social da Universidade Francesa de Rennes 2, que lembra o consenso científico a favor da vacinação.

Embora essas plataformas manifestem seu desejo de limitar a viralidade do conteúdo antivacina, elas proliferam e assumem uma importância desmedida, de acordo com Delouvée.

Ligada a uma teoria conspiratória generalizada, "proteiforme e sem identidade claramente definida", essa galáxia online se alimenta de vários discursos que vão além de preconceitos políticos, como a teoria das Big Pharmas, que sustenta que os gigantes do setor farmacêutico formam uma aliança secreta com fins financeiros contra o bem comum, destaca o pesquisador.

Algumas velhas histórias falsas reaparecem, como a que garante que as vacinas contêm exatamente o mesmo que as injeções letais dos presos condenados no corredor da morte, e outras reaparecem modificadas, com uma referência à Covid-19.

É difícil saber "se os críticos das vacinas são mais ativos, devido à pandemia, ou se são mais visíveis, devido à atenção dada à pandemia", afirmou David Broniatowski, da Universidade George Washington, nos Estados Unidos. "Os grupos antivacinas tendem a estar permanentemente ativos. (A Covid-19) apenas os redinamizou", diz Amelia Jamison, da Universidade de Maryland.

A crise atual também mostra sua capacidade de reciclar a desinformação "muito rapidamente" para adaptá-la aos dias de hoje, completa.

Assim, as teorias contra Bill Gates, acusado de querer vacinar à força, foram renovadas. Uma delas, que garante que o magnata pretende injetar chips eletrônicos junto com a vacina Covid-19, registra um sucesso espetacular. "Um novo vírus é um novo elemento que entrará em seu esquema narrativo (...) para fazê-lo coincidir com sua visão de mundo", explica Jamison.

Para esses militantes ultradeterminados, a simples menção a uma vacina se amplificou para "eles vão nos vacinar à força". Jamison também destaca que, com a Covid-19, houve uma confluência entre antivacinas, antimáscaras e anticonfinamento, em nome da liberdade individual contra as autoridades, uma ideologia muito presente nos Estados Unidos.

E, embora sejam "grupos pequenos" e não muito numerosos, são muito barulhentos, muito bem-sucedidos e manipulam perfeitamente "os instrumentos à sua disposição" para "parecerem mais amplos e mais unidos do que são" e "visam", efetivamente, àqueles que não têm uma opinião sobre o assunto, acrescenta Jamison.


AFP/Dom Total



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