Brasil

26/06/2020 | domtotal.com

Jelson versus a doideira

Amigo dos passarinhos, dos abacates e do esqueleto da sala de Biologia

Amigo dos passarinhos, dos abacates e do esqueleto da sala de Biologia
Amigo dos passarinhos, dos abacates e do esqueleto da sala de Biologia (Mathew Schwartz / Unsplash)

Fernando Fabbrini*

Jelson com jota era doido e também doido por cinema. Frequentava as matinês do colégio dos padres acompanhando as aventuras de Roy Rogers, Tarzan, O Santo e Lanceiros de bengala enquanto devorava dropes Dulcora com volúpia assustadora. Eram sessões às 11 da manhã, com entrada franca para os mocinhos participantes dos eventos anteriores – o catecismo e a missa. Na sorrateira havia sempre os bandidos, os malfeitores que não iam à missa nem comungavam; disfarçadamente entravam pela porta lateral do cinema, aproveitando-se da miopia do padre Ernesto.

Jelson praticamente não dormia de sábado para domingo imaginando o que teria sucedido a Dick Tracy, despencando no penhasco no seu Mercury 1940 cruelmente fechado pelo caminhão dos malfeitores de Big Boy. Estaria ainda vivo na próxima semana para continuar o seriado, meu Deus? E se padre Ernesto, balançando a cabeça, comunicasse a tragédia à plateia com sua inconfundível voz fanhosa?

— Meninos, silêncio! Lamento dizer que Dick Tracy, paladino da justiça, morreu no último episódio. Rezemos agora por ele, todos de joelhos!

Assim, por via das dúvidas, na missa, entre as orações regulamentares - pelos pais, professores, padres adoentados, pelo arcebispo metropolitano e pelo papa, Jelson também rezava, em segredo, por Dick Tracy, pelo Zorro e pelo Tonto, pelo Tarzan, Durango Kid – menos para O Santo, que lhe parecia desnecessário.

Jelson conversava com as rolinhas do pátio, com os abacates que caíam e com o esqueleto da sala de Biologia. Amava platônica e desesperadamente Monica Ruschel-Ritter, belíssima filha do cônsul alemão. A moça era linda ao exagero: loura platinada, tinha covinhas, olhares de falsa súplica e longas unhas pintadas de rosa. Sua cruzada de pernas displicente e os decotes reveladores demais para Belo Horizonte dos anos 60 respondiam pelo aumento das filas de jovens ginasianos nos confessionários de sábado à tarde.

Os sintomas da doideira de Jelson se agravaram e não houve jeito: internação. Jelson foi tratado como de praxe naquele tempo: choques, banhos gelados, medicação pesada e até camisa de força. Pouco a pouco, os médicos, os remédios e a estupidez humana conseguiram apagar os fotogramas originais e as cenas eletrizantes de sua alma. Ao cabo de um ano voltou às aulas, transformado em uma fita de celuloide em branco, quadrados vazios, transparentes.

Mas não durou muito. Jelson resistira à lavagem e lá no fundo ainda reservara suspenses e repentes para chocar o mundo normal. Foi durante a prova final de Português (prova oral, não se usa mais). Sendo questionado sobre a função sintática de determinado vocábulo, Jelson com J encarou o professor, fez uma longa pausa e desferiu em voz alta:

- O que fazemos aqui, professor?

A sala inteira ouviu e gargalhou.

- Ora, Jelson, estamos no Colégio, durante uma prova.

- Desculpe, o senhor não entendeu. Perguntei o que fazemos aqui, nesse mundo.

Quem me dera saber, Jelson, quem me dera.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália



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