Cultura

26/06/2020 | domtotal.com

Aos trancos e solavancos

O setor cultural vive momento de incertezas e desafios e o apoio do governo é primordial

Quando será possível apreciar obras de arte públicas? E como?
Quando será possível apreciar obras de arte públicas? E como? (Eric Feferberg/AFP)

Eleonora Santa Rosa*

Em meio à precariedade, espontaneidade, desorganização, informalidade e  improviso, começamos, mesmo que de modo incipiente, a mensurar o tamanho do estrago trazido pelo coronavírus na Cultura em todo o mundo, aqui agravado pela ação deletéria de um governo contrário às artes, à educação, à ciência, ao meio ambiente, às humanidades em geral.

Os números apresentados semana após semana por organizações de respeitabilidade internacional na seara da cultura e da economia criativa (abrangendo instituições museológicas e os mais diversos segmentos das indústrias criativas), sobretudo em relação aos EUA e aos países europeus, impressionam pelo volume financeiro estimado de perdas, pelo contingente expressivo de corte de funcionários, demitidos e desmobilizados temporariamente, pelo radical redesenho institucional em curso, dentre outros fatores. O impacto econômico nessas áreas, sob a ótica brasileira, é ainda mais complexo e alarmante em função da nossa raquitíssima infra-estrutura cultural e das características do nosso "parque industrial" específico.

No entanto, podemos tirar partido de nossa formação e singularidades comportamentais, intuindo novos caminhos e alternativas lastreados nas táticas e experiências de estruturação, sobrevivência e resiliência que marcam o campo cultural, onde sempre faltou muito, sobretudo apoio governamental consistente e contínuo.

Cabeça fervilhando pela leitura de uma infinidade de ensaios e matérias especializadas, cujos pontos comuns residem na potência e significado dos museus, que emergem dessa pandemia em nova configuração, assumindo responsabilidades maiores em termos de seu papel afetivo e efetivo ativo nas comunidades, com ênfase no trabalho e na promoção de valores coletivos.

Por outro lado, não há como minimizar as notícias preocupantes, algumas relacionadas à Inglaterra, onde os mais pessimistas apontam o risco de o país transformar-se "em um grande terreno baldio cultural", dado o cataclisma que atinge variados ramos da produção já mencionada. A catástrofe que se abate sobre as organizações artísticas e, particularmente, os artistas, durissimamente atingidos, não diminui ou ofusca a relevância estratégica de um setor responsável por boa parte da sanidade mental, emocional, social, familiar, pelo usufruto da beleza, da comunhão com a vida, de afeto, em meio à pandemia.  Não há como não reconhecer a importância da produção de obras e conteúdos artísticos e culturais que abastecem as redes sociais em suas múltiplas plataformas, os meios de comunicação independentes ou tradicionais, que aliviam a solidão, o desespero, a falta de perspectiva, os medos de bilhões de pessoas, criando as bases para uma convivência suportável, digna, e para transposição desse cenário de tristeza e dor.

Ao mesmo tempo, a Arte e a Cultura, no Brasil, recebem devotado desprezo por parte do poder público, que deixa à míngua instituições e trabalhadores, estes em sua maior parte atuam, hoje, na mais absoluta informalidade, muitos em estado de quase clandestinidade, sem quaisquer instrumentos de proteção ou auxílio.  Maus tratos proferidos por autoridades governamentais obtusas, ultrapassadas e preconceituosas que não conseguem alcançar ou mesmo entender a extraordinária força e o incrível potencial da cultura, que apontará os caminhos para a era pós-pandêmica em integração com a educação, a ciência, a saúde e o meio ambiente.

O momento presente demanda cada vez mais, nessa esfera, a expansão e proliferação de grupos e coletivos comprometidos com a solidariedade e a generosidade de ações voltadas para as localidades, e com o compartilhamento de ideias e iniciativas que envolvam inteligências aplicadas e dedicadas ao redesenho das relações, dos modos de comunicação e integração, de proposição de experiências de inovação e de provocação de novos arranjos de produção.

Temos como atuar em nichos, em instâncias transversais nos mais diversos níveis, de forma a mover aquilo que parece impossível. Aos trancos e solavancos, nesses apavorantes tempos de pandemia, emerge a oportunidade para repensarmos e reestruturarmos demandas, lutas, financiamentos, modus operandi, programas públicos, atuações de organizações sem fins lucrativos, causas mobilizadoras, enfim, uma série de outros temas de igual relevo.

Um novo mundo vem surgindo e ele poderá ser não só desafiador, mas mais humano e solidário, tendo a cultura como bússola.


Dom Total

* Eleonora Santa Rosa é jornalista e gestora cultural; foi secretária de Estado da Cultura de MG e diretora-executiva do Museu de Arte do Rio (MAR).



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos