Mundo

29/06/2020 | domtotal.com

Quando o pop se mete em política

Os adultos costumam dizer que as redes sociais da garotada são superficiais e mostram pouco interesse pelas realidades da vida. Mas na semana passada essa percepção mudou

O presidente dos EUA, Donald Trump, aporta em Maryland, em 21 de junho de 2020, depois de retornar do comício de Tulsa, Oklahoma
Nicholas Kamm / AFP
O presidente dos EUA, Donald Trump, aporta em Maryland, em 21 de junho de 2020, depois de retornar do comício de Tulsa, Oklahoma Nicholas Kamm / AFP (Nicholas Kamm / AFP)

José Couto Nogueira*

Quem é que sabe o que são os K-pop stans? E quem costuma frequentar o TikTok? Ao contrário do Facebook, Google e outras marcas universais, estes nomes só interessam a uma faixa etária bastante nova – entre os 10 e os 16 anos, digamos. Mas são cerca de centenas de milhões, nada menos. Para perceber, é melhor ir por partes.

TikTok é uma rede social, semelhante ao Instagram, originariamente chinesa, mas que, entretanto, se espalhou pelo mundo. Lançada 2016 na China, com o nome Douyin, lá tem cerca de 150 milhões de usuários, sujeitos ao apertado sistema de censura chinesa. Mas a versão TikTok, que pode ser descarregada em qualquer smartphone ocidental, conta 800 milhões de adeptos. Só em 2019, o aplicativo foi descarregado 1,5 bilhão de vezes.

Talvez por influência das limitações chinesas, os curtos vídeos exibidos no TikTok são geralmente inconsequentes, com temas musicais, de moda, ou com atividades tolas – os chamados "desafios" (chalenges) em que alguém propõe, por exemplo, pular duma cadeira para outra, e milhões fazem o mesmo. Esta postura infantil, digamos, é que gerou a opinião dos adultos de que são "coisas de crianças".

K-Pop não é uma plataforma; é o termo genérico para um gênero de música brega/chic sul-coreana, uma mistura de rock e pop, de moda ocidental orientalizada, tudo muito plástico, muito leve, muito produzido. Estranhamente, não é seguida apenas pelos adolescentes coreanos e tornou-se um culto nos Estados Unidos, onde os concertos das bandas mais famosas enchem estádios. Não há estatísticas confiáveis sobre o número de adeptos do gênero, chamados stans (já vamos lá), mas uma agência sul-coreana calculou 89 milhões em 113 países (Se quer ter uma ideia do gênero, procure no Youtube um vídeo das Blackpink). Os fãs da K-Pop são chamados de stans, um termo que mistura "fã" com "stalker" ("perseguidor", numa tradução livre). O termo stalker vem dum perseguidor obsessivo do Eminem que ficou famoso pelo artista dar uma entrevista sobre ele. Não tem nada a ver com música sul-coreana, mas, ao nível planetário, tudo tem a ver com tudo.

Os K-Pop stans usam preferencialmente a plataforma Twitter. Uma postagem no TikTok ou no Twitter é multiplicada por milhões em questão de horas, pois os garotos estão sempre ligados e são, evidentemente, hiperativos.

Agora, que já sabe do mundo de que estamos falando, pode compreender a mudança telúrica que supostamente aconteceu na semana passada. Domingo (21), Donald Trump fez um comício em Tulsa, Oklahoma. Foi o primeiro depois do confinamento e havia grande expectativa; o presidente nunca deixou de fazer comícios desde que foi eleito, em 2016, porque gosta do contato direto com as suas bases e porque precisa de mantê-las fiéis, contornando o que considera o fluxo de "fake news" da comunicação social. A pandemia obrigou-o a interromper a digressão permanente, e estava ansioso por voltar a sentir o calor da multidão. Já tinha estado muitas vezes em comícios naquele estado, que é tradicionalmente republicano e fortemente trumpiano.

A equipe que organizou o evento decidiu emitir bilhetes (gratuitos) através das redes sociais, e nas vésperas já tinha distribuído cerca de um milhão – muito mais do que a capacidade do estádio, 22 mil, ou, com boa vontade, 40 mil. Por isso montou um palco do lado de fora, com um ecrã gigante, onde Trump e Mike Pence viriam a falar em seguida ao evento fechado.

Chegada a hora, compareceram cerca de 6.200 pessoas, segundo os cálculos das autoridades locais. Uma catástrofe! A apresentação exterior foi cancelada e o estádio estava praticamente vazio. Trump ficou furioso e não escondeu sua desilusão. Os organizadores atribuíram o desastre ao medo da Covid-19 e à presença de grupos desestabilizadores e ameaçadores nos arredores da arena – grupos esses que ninguém viu e que, caso existissem, certamente não impediriam uma presença maciça dos empenhados e amiúde agressivos seguidores do "Make America great again!".

O que se ficou sabendo foi que os K-Pop stans e um grande número de seguidores do TikTok formaram espontaneamente uma corrente rápida e eficiente que pediu bilhetes para o evento – daí o número extraordinário de um milhão – tendo já a intenção de não comparecer. Conhecedores de todos os truques das redes, apagaram as mensagens logo que a "operação" terminou, para impedir uma verificação posterior.

Ora bem, não há maneira de medir quantitativamente até que ponto este processo contribuiu para o fiasco de Tulsa. (Daqui que tenhamos usado a expressão "supostamente"). Mas as outras razões que teriam levado à baixa presença também não soam muito bem; primeiro, os verdadeiros fãs de Trump não deixariam de se inscrever e de comparecer, independentemente das inscrições fake; segundo, o medo da Covid-19 é muito menor entre os trumpianos, uma vez que o presidente diz constantemente que a epidemia está dominada e que não é preciso usar máscaras – ele próprio nunca usa, e ninguém usou no comício. Além disso, a própria organização afirmou, já depois do evento, que os bilhetes fake eram praticamente impossíveis, pois tinha verificado a identidade de todos os inscritos – o que não faz sentido, pois não terá havido tempo de fazer essa verificação e, não sabendo de antemão da intenção dos garotos, de que modo se poderia verificar? Eliminando todos os grupos de K-pop stans (que são muitos, ninguém sabe quantos, com nomes diferentes?) Cortando todos os assinantes do TikTok, uma plataforma nada republicana?

Não há dúvida de que esta "invasão" de bilhetes fake teve influência no fracasso do comício, muita ou pouca. De qualquer maneira, o que é novo, nunca visto, e com perspectivas futuras impossíveis de prever, foi o facto destes grupos terem tomado uma atitude abertamente política. Eles acham que deu resultado, vangloriaram-se por isso – à maneira deles, com macacadas e memes malucos – e certamente que voltarão a fazê-lo.

As redes sociais continuam a ser uma fonte de surpresas. E a garotada também.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal



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