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29/06/2020 | domtotal.com

Da periferia para o mundo: a realidade da favela nos raps de Kdu dos Anjos

Rapper Kdu dos Anjos expõe a realidade da periferia de BH em seu primeiro álbum

'Inspirações para compor são sentimentos à flor da pele, aquilo que eu tiver vivendo intensamente, eu consigo 'tangibilizar' de uma forma poética', diz Kdu dos Anjos
'Inspirações para compor são sentimentos à flor da pele, aquilo que eu tiver vivendo intensamente, eu consigo 'tangibilizar' de uma forma poética', diz Kdu dos Anjos (Eliza Guerra/Estúdio Bingo)

Isabela Santiago

“Falar da realidade da favela não é só uma necessidade, eu também me sinto num papel de pesquisador”, explica Kdu dos Anjos ao falar sobre o que lhe inspira ao criar novas músicas. O artista, que é também fundador e coordenador do Centro Cultural Lá da Favelinha, acaba de lançar seu mais novo álbum - Quanto tempo hein, Kdu?

Com 12 faixas, o álbum foi lançado quase seis anos após um hiato musical significativo para o rapper mineiro, no qual ele preferiu se dedicar com mais afinco ao centro cultural. O que não significa que ele tenha ficado parado, muito pelo contrário. 

Kdu conta que o álbum traz algumas músicas bem antigas. “Tem música que eu escrevi há mais de 10 anos e tem músicas supernovas também, principalmente essas que falam mais do tempo. A com o Hot, [Pra sempre] é uma música desse ano, inédita, mas eu sinto que elas são, de certa forma, atemporais, porque também pouca coisa mudou no Brasil, né?”

A música faz parte da vida de Kdu desde criança. Mas foi com o rap que ele sempre se identificou. Racionais e Apocalipse 16 foram algumas das grandes inspirações desde que era menino. Com passagens pela Igreja Batista da Lagoinha, por volta dos 15 anos, o jovem preferiu usar a musicalidade como forma de protesto social. Com essa garra, montou um grupo de rap com estudantes secundários no Instituto de Educação. 

Do grupo, seguiu para carreira solo e ganhou mais notoriedade a partir do projeto Vozes do Morro, em 2009. À época, suas apresentações eram constantes no Duelo de MCs. Em seguida, Kdu fundou o Sarau Vira-lata, “para dar oportunidade, vazão para poetas, de pessoas que gostavam dessa poesia”, como ele mesmo diz. Em 2014, veio o EP Azul, e logo em seguida um hiato que acabou neste ano.

Com direção e produção musical de Rafael Fantini e participações de Hot Apocalypse, Teffy Angel e Vini Joe, Quanto tempo, hein, Kdu? é um álbum atemporal porque traz a vivência cotidiana da favela e os sentimentos aflorados do artista em forma de música. Mas vai além. A experimentação de diferentes batidas, unida a uma forte crítica social contra um sistema que fomenta a desigualdade, o preconceito e o genocídio negro, são parte intrínseca desse trabalho que vale muito a pena ser ouvido. 

Confira abaixo alguns trechos da entrevista com Kdu dos Anjos.

Quais são as suas inspirações na hora de compor?

Inspirações para compor são sentimentos à flor da pele, aquilo que eu tiver vivendo, intensamente eu consigo “tangibilizar” de uma forma poética. Mas eu também funciono bem com música por encomendas. Mas, de carreira, são músicas de sentimento à flor da pele mesmo. Estou vivendo alguma coisa ali, que não cabe ser só um sentimento interno e dá vontade de botar pra fora, de torna-lo real. E tem também quem inspira ritmicamente. Gosto muito das coisas, do jeito que a Karol Conka escreve, o próprio Djonga, Orelha, tem uma galera jovem de BH que é Pejota e Mac Júlia, que eu tenho escutado bastante. Eles dão inspiração também para pensar em ritmos e novas possibilidades de música. E funk também, bastante funk.

Em relação ao seu novo álbum, Quanto tempo, hein, Kdu?, o que você traz de novidade?

O disco todo é uma novidade, por que, de cara, é o primeiro disco de verdade que lanço. Eu só tinha feito EPs e toda a musicalidade traz algo bem moderno. Gosto muito de testar, de experimentar. Então, é tudo bem novo e para mim. E o conceito também das cores, das capas, das fotos de divulgação.

Em um trecho de Capitães e marujos você entoa “qualquer hora o vento muda/ e o mundo dá um rodopio/ e os ratos são os primeiros/ a abandonar o navio”. Essa alusão de abandonar o navio tem alguma relação com a atual política brasileira?

Em Capitães e marujos, trago essa relatividade de poder e se encaixa muito nessa questão da política brasileira, não só atual - da política em geral, de 500 anos pra cá - que é essa patifaria toda. O que quis dizer sobre essas hierarquias de poder é que, na hora em que o navio está sendo atacado por um navio pirata, o capitão e o marujo têm que defender da mesma forma, têm que jogar junto. Porque o capitão é mais importante que o marujo? Todo o trabalho é necessário e essa forma circular que eu acredito que as coisas acontecem. Sinto que o nosso governo não joga junto no mesmo barco, nós não estamos no mesmo barco, a gente está falando de coisas diferentes. Muitas vezes, parece que eles são nossos inimigos, que são os piratas que estão atacando.

Quem foi Thiaguinho, título da faixa 9 do álbum? Pode contar a história?

Thiaguinho era uma criança pretinha, super especial, educado, super carinhoso, extremamente bonito. Daí, eles se mudaram da comunidade em 2003, 2004, por conta do (programa) Vila Viva, e foram morar no bairro Califórnia. Lá, infelizmente, ele se envolveu com o crime e teve esse final trágico. Hoje em dia, tenho muita vontade de criar um instituto, o Instituto Thiaguinho, para evitar esse tipo de coisa, diminuir a taxa de mortalidade da juventude da periferia. Eternizá-lo nessa música é uma honra. A família dele está bem feliz, estou super conectado com a família dele. É isso, usar da arte para diminuir desigualdades.

 Como vê o racismo aqui no Brasil?

Vejo que o Brasil é um país atrasadíssimo em relação ao racismo. O povo ainda carrega muitas marcas dessa síndrome de colonizado. Poxa, essa coisa de ter empregado, isso não existe no mundo mais. E as empregadas são 90% mulheres negras de periferia. Sinto que o Brasil é um país extremamente preconceituoso e que está por fora. Mesmo eu sendo lido como homem branco, quando eu estou lá fora, sou lido como latino, bandido, sou lido como alguém que apresenta perigo. Então, o preconceito existe e existe também um preconceito geográfico que é terrível. Quando as pessoas sabem que eu sou da favela, tenho que mostrar para elas que não sou ladrão, que não sou traficante, que não sou um assassino. Tenho que provar que sou do bem para ter a atenção dessas pessoas. Isso realmente acontece e atrasa o país.

Como tem visto o movimento contra o racismo nos EUA e no mundo?

Essas manifestações estão acontecendo dessa forma porque, hoje em dia, a gente tem o celular na mão. O racismo não diminuiu nem aumentou, só está sendo filmado. Vejo extrema legitimidade nesses movimentos, que começam a se tornar mais organizados, porque a gente precisa de uma pauta fixa para ir para a rua. Essa pauta é o antirracismo e o antifascismo. Mas acredito que, no Brasil, (isso só vai funcionar) a partir do momento que o movimento negro se juntar com todos os outros movimentos. E assim exigir a pauta de impeachment do (presidente Jair) Bolsonaro, e que isso aconteça antes de 31 de dezembro, para ter novas eleições diretas e não ter o (vice-presidente Hamilton) Mourão como substituto, caso ele caia. Pelo menos aqui na minha bolha de artistas e movimentos sociais, a gente tem discutido bastante e proposto essa pauta. E a gente sente que precisa de um trabalho de base ainda mais forte e que cabe aos artistas e figuras públicas a responsabilidade, [algo] que já está acontecendo no Brasil. E não banalizar as manifestações para não acontecer o que aconteceu em 2013.

De que forma a música, e projetos sociais como o próprio ‘Lá da Favelinha’, contribuem para a formação de jovens da periferia?

Não só a música, mesmo o esporte, a tecnologia principalmente, tudo isso dá novas alternativas. Esse é o meu principal objetivo. Sou extremamente revoltado de sobrar só subempregos para a periferia. Por que que caixa e repositor de supermercado, diarista sempre têm que ser da periferia, sempre têm que ser pessoas pretas? Nada contra nenhuma dessas profissões, mas será que era meu sonho? Ser caixa de supermercado para o resto da vida? Ou é ser um astronauta, um físico, uma jornalista, um advogado, um cantor, um jogador de futebol.?

Em relação ao projeto social ‘Lá na Favelinha’, nosso principal objetivo é geração de oportunidades e geração de renda. O nosso diferencial do mercado capitalista tradicional é a divisão dos lucros, porque a gente quer ganhar dinheiro, de verdade, quer que a periferia seja remunerada. Não tem como a gente falar de empoderamento sem falar de grana. E a nossa divisão de lucros vai especialmente para mulheres, para pessoas pretas, LGBT+ e pessoas periféricas. Então, isso dá muito orgulho, de saber que a gente usa arte, a moda, a cultura em geral para fortalecer tantas minorias, que são as maiorias, na verdade.

Então, dar essas oportunidades para as pessoas da periferia é extremamente necessário e é um ato revolucionário que faz muita diferença. Eu sou cria de projeto social, minha irmã é cria de projeto social e ela estava em Oxford, fazendo doutorado. Ela veio de escola pública, mulher, cabulosa, periférica. Hoje em dia, está aí, super acadêmica, respeitada no meio acadêmico, por conta de projeto social, porque alguém um dia falou para ela que ela era capaz, deu as ferramentas, ensinou o caminho das pedras.

QUANTO TEMPO HEIN, KDU?

Álbum de Kdu dos Anjos
12 faixas
Disponível no Spotify


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