Cultura

02/07/2020 | domtotal.com

2 de julho, 1º de agosto

A gente fazia bois de cidra, zamboa ou mamão e os confinava em currais feitos de taquara

Dada a confiança plena que tinha nele, deixei com o Badu as chaves do vistoso Corcel, zerinho, zerinho.
Dada a confiança plena que tinha nele, deixei com o Badu as chaves do vistoso Corcel, zerinho, zerinho. (Wikmedia/ Jason Vogel)

Afonso Barroso*

Hoje é o Dia do Amigo. Não o dia comum de todos os amigos, que aliás não têm uma data bem definida. No Brasil, o Dia do Amigo costuma ser comemorado este mês mesmo, mas no dia 20, data também aceita em mais dois ou três países latino-americanos. Em outros, o dia dedicado ao amigo é o primeiro domingo de agosto. Se estiver valendo o que manda a Organização das Nações Unidas, a data oficial é 30 de julho.

Para mim, porém, o Dia do Amigo é hoje, 2 de julho. Sim, porque é aniversário de um grande amigo que tenho, o único que sobrou dos que eu podia classificar como verdadeiros amigos e que perdi ao longo dos anos. Foram-se para sempre por causas diversas, alguns por idade, outros por doenças, outros por imprudência ou pela ação do destino. Sobramos os dois de uma turminha que se reunia em festas ou em bares, nas peladas do domingo e na cervejada do pós-pelada.

A amizade de que falo não nasceu ontem. Foi muito mais do que ontem ou anteontem ou antes de anteontem. Também não foi na semana passada, nem no ano passado, mas no século passado. É possível que tenha nascido até antes, em séculos ou encarnações passadas.

Esse meu amigo remanescente – e querido como nenhum outro – foi meu colega de infância e de vizinhança. O portão lateral do quintal da casa do seu Barroso e sá Maria, meus pais, dava de frente para a porta da sala da casa do seu Oswaldo e dona Emília, os pais dele, no largo de cima da vila de São José do Jacuri. A gente ali se encontrava para ir brincar em um dos quintais. Brincávamos de boi no pasto, que consistia em enfiar chifres e pernas de lasca de pau em abacates ou outras frutas grandes como a zamboa, e transformá-las em vacas que a gente reunia para ordenhar no curral de taquara. Dois vaqueiros fantasiados de meninos.

Éramos da mesma idade, com uma diferença de apenas um mês: ele do dia de hoje, 2 de julho, e eu daqui a um mês, em 1º de agosto. Ganhou o nome de Oswaldo porque era o primeiro filho do pai Oswaldo. Eu, de Afonso, por ter nascido na véspera do dia de Santo Afonso. Coisas de mães do interior.

Aos onze anos nós nos separamos por um bom tempo. Ele foi para o Caraça, eu para São João del-Rei. Viemos nos reunir de novo aqui em Belo Horizonte. Ele se formou em direito e eu em coisa nenhuma, porque abandonei o curso da UFMG no terceiro ano, e entrei para o jornalismo e a propaganda.

Tão amigos éramos que conto sempre um episódio da nossa convivência de rapazes aqui na cidade grande. Recontando: no início do ano de 1970 eu comprei meu primeiro carro zero quilômetro, um Corcel verde, modelo lançado pela Ford. Como ia passar férias no Jacuri e não quis meter o carro numa estrada de terra que era pura lama, fiz o que poucos amigos fariam. Dada a confiança plena que tinha nele, deixei com o Badu (era o apelido dele) as chaves do vistoso Corcel, zerinho, zerinho. Soube que assim que peguei o ônibus pro Jacuri ele entrou no carro e avisou à cidade: Mulheres, cheguei. Naquele tempo o cheiro de gasolina era afrodisíaco para as garotas da jovem guarda, da bossa nova e do ieieiê.

Criamos famílias, ele e a Vera e quatro filhos, três homens e uma mulher. Eu e a Sônia, três mulheres e um homem. Por uma convenção que depois eu conto, nós nos chamamos de Zé desde o tempo das nossas aventuras pelos bailes da vida.

E como a vida nos conservou intacta a velha amizade da infância, nós nos rendemos à ordem natural das coisas e continuamos assim, tomando cerveja no Bar do Seu Pedro às sextas-feiras, até que a pandemia nos separou. Mas amizade não se separa pela ação de um vírus maldito. Continuamos os mesmos amigos, Zés para sempre.

Parabéns, Oswaldo César Carvalho, meu caríssimo Zé, por mais este Dia do Amigo. Que Deus nos traga outros e outros, sem vírus ou pandemias.



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