Religião

01/07/2020 | domtotal.com

A bibliolatria de vários evangélicos

O cristianismo não deve se ver como religião do livro, mas se assumir como religião da Palavra

Tratar o texto bíblico como amuleto ou, ainda, rejeitar a Tradição cristã está muito longe daquilo que Jesus anunciou e também da proposta da Reforma Protestante
Tratar o texto bíblico como amuleto ou, ainda, rejeitar a Tradição cristã está muito longe daquilo que Jesus anunciou e também da proposta da Reforma Protestante (Unsplas Ian Espinosa)

Fabrício Veliq*

Todo mundo que conhece um pouco a respeito da Reforma Protestante sabe o valor que é dado ao texto bíblico. O princípio da Sola Scriptura de Lutero, que afirma terem as Escrituras primazia sobre a Tradição (no caso de conflito em relação à doutrina cristã) foi, sem dúvida, uma das principais mudanças trazidas para o cristianismo por todo o movimento reformador.

A ênfase nas Escrituras, por sua vez, ao longo da história do protestantismo, foi criando a ideia de que a Tradição como um todo deveria ser rejeitada, não importando em nada para a fé. Embora não tenha sido essa a proposta de Lutero, hoje é muito comum e grande o desprezo de muitos cristãos, principalmente evangélicos, por esse tema. Muitas vezes se considera, erroneamente, a Tradição como sinônimo de idolatria.

No entanto, curiosamente se nota que a ênfase no texto bíblico se transformou, para muitos evangélicos, na idolatria que tanto condenam no catolicismo. É muito comum a bibliolatria no meio evangélico, principalmente entre aqueles e aquelas que usam versículos bíblicos como uma espécie de amuleto, na esperança de que a bíblia aberta em alguma passagem (geralmente o salmo 23 ou o 91) previna de algum mal acontecer ao seu lar; ou ainda, que um versículo pregado na traseira do carro evite seu roubo ou alguma avaria. Essa visão mística a respeito do texto bíblico, infelizmente, ainda é muito recorrente, o que revela uma incompreensão a respeito do que ele vem a ser.

Da mesma forma, é comum a pregação de sua literalidade, sem se atentar para o fato de que o próprio texto traz em si diversas incoerências e até mesmo posições contraditórias (basta, para isso, tomar os escritos da Lei e os Evangelhos para perceber que não poucas vezes Jesus agiu indo contra as pregações fundamentalistas dos fariseus que consideravam o texto mais importante do que os ensinamentos que nele se encontravam). Essa literalidade, por sua vez, tem como consequência a repetição daquilo que diversas religiões fundamentalistas de cunho textual fazem: assumirem-se como detentoras de um texto revelado e, por isso mesmo, responsáveis por converterem todas as pessoas que não pensam da mesma forma naquilo que suas escrituras sagradas afirmam. Com isso, tornam-se intolerantes e não raras vezes cruéis, seja em nível físico, seja em nível psicológico, para com as pessoas consideradas infiéis.

O Evangelho anunciado por Jesus, no entanto, segue na direção contrária a esse raciocínio e o próprio movimento inaugurado por ele não se entendeu como uma religião do livro, antes, como a religião da Palavra de Deus que se fez carne. Ou seja, o cristianismo, a religião que surge a partir da compreensão da mensagem de Jesus, jamais deveria angariar para si o desejo de ser uma religião do livro, mas, sim, afirmar-se por meio de seus atos como a religião da Palavra. Reconhecer a verdade como uma pessoa (Jo 14,6), assim, deveria fazer com que toda soberba e toda pretensão de conhecimento absoluto caísse por terra, visto que o caráter da pessoalidade é, justamente, sua impossibilidade de ser conhecida em sua inteireza, sendo essa também a característica do próprio Deus que é infinitamente maior do que aquilo que nossas definições sejam capazes de dizer sobre ele.

Tratar o texto bíblico como amuleto ou, ainda, rejeitar a Tradição cristã está muito longe daquilo que Jesus anunciou e também da proposta da Reforma Protestante, quando anunciada por Lutero. Nesse sentido, recuperar a característica de ser uma religião da Palavra é fundamental caso a teologia cristã queira ser uma voz digna de ser ouvida na sociedade atual.

 Longe dos rigorismos dos textos, a pessoa de Deus, que é amor, é reconhecida por meio dos atos concretos de amor ao próximo. Ser religião da Palavra é, portanto, afirmar a mensagem de Jesus, a Palavra, levando a boa nova de que Deus se importa com a humanidade e, em seu amor, deseja se relacionar novamente com ela.


Receba notícias do DomTotal em seu WhatsApp. Entre agora:
https://chat.whatsapp.com/GuYloPXyzPk0X1WODbGtZU

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia e Licenciado em Matemática (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com. Site: www.fabricioveliq.com.br



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!